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O Barão de Mauá e sua estrada-de-ferro (Parte III)
A Falência de Mauá O fracasso financeiro da Mauá, a partir da solicitação de sua falência, em 1875, não pertence ao rol do acaso nem a seus pretensos defeitos pessoais, tais como “imprudência”, “demasiadamente utópico”, ou ainda, “afoito nos negócios” e sim a uma sistemática asfixia movida pelo conservantismo da estrutura econômica e social em que viveu. Podemos mesmo dizer, de uma sabotagem inconsciente, intuitivamente aplicada por uma sociedade tradicional que entendia ser a difusão das modernas relações de produção, das quais Mauá era o maior representante, um fator desagregador e destruidor de seu mundo econômico e social.
Balzac, retratando os costumes da sociedade francesa durante a restauração, criou um protótipo de pequeno burguês, rígido cumpridor de seus deveres. Quando vai à falência, o pobre César Birotteau não mede esforços para saldar até o último centavo do capital devedor. O boticário morre tendo às mãos a última promissória resgatada. Essa dignidade típica da classe média vitoriana é assumida plenamente por Irineu Evangelista de Souza. Sua falência podia ser evitada com um empréstimo governamental, mas tal lhe foi negado.
Terminou seus dias como corretor, tendo se desfeito de todos os seus bens. Mauá foi, como disse corretamente seu biógrafo Alberto de Faria, um “verdadeiro saint-simoniano”; um ideólogo do industrialismo. Para ele, o desenvolvimento industrial era a panacéia para uma sociedade pouco desenvolvida, cabendo a ele o papel de “messias” que anunciava, e principalmente construía, esse novo mundo dominado pela máquina e pelas relações assalariadas. Mas, como todo profeta doméstico, não teve a acolhida merecida.
O Barão de Rio Branco considerou sua falência como um “infortúnio nacional”, mas Gaspar da Silveira Martins que o tachou de “alma de mercador”, entendeu que ele sofrera punição adequada.
Lídia Besouchet encerra a questão dizendo: “Não havia ainda ambiente para o individualismo econômico. A idéia de Mauá de canalizar capitais flutuantes pela extinção do tráfico negreiro num Banco de Crédito, era favorecer as condições para a criação de novas fortunas particulares; era aumentar a fortuna pública pelo aumento da fortuna privada; era estabelecer a livre-concorrência em todas as suas regalias para o qual o país não estava preparado. O estado Imperial se sentia como que afogado diante do seu arrojo, ameaçando-o em sua supremacia financeira”.
Todavia deve-se alertar para outro aspecto a questão da falência de Mauá. Nas lições que Hobbes deu ao príncipe, ele alertava que qualquer chefe de estado deve estar atento para que ninguém mais dentro do reino possa lhe oferecer qualquer tipo de rivalidade, política ou econômica.
Neste sentido, D.Pedro II livrou-se de um concorrente, de um homem poderosíssimo que eventualmente lhe fazia sombra. Talvez isto melhor explique a indiferença com que o monarca soube da quebra dos múltiplos empreendimentos de Mauá.
- Besouchet, Lídia – Mauá e o seu tempo. Rio de Janeiro. Nova Fronteira, 1978.
- Caldeira Jorge – Mauá, o empresário do Império.São Paulo, Cia das Letras, 1995.
- Faria, Alberto de - Mauá. Irenéo Evangelista de Souza, Barão e Visconde de Mauá. São Paulo. Editora Nacional, 1933.
- Simonsen, Roberto C . – História Econômica do Brasil. São Paulo. Editora Nacional, 1969.
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