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BRASIL

A Expedição dos Poetas

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» Plácido de Castro e a conquista do Acre
» A Bolívia reafirma-se na região
» O fim de Plácido
 
O fracasso de Galvez não trouxe sossego nem aplainou os ânimos dos amazonenses. Ao contrário, Manaus foi tomada de agitação e fervor patriótico. Cismaram que o Acre tinha que lhes pertencer e a mais ninguém. Em meio aos discursos inflamados e caminhadas cívicas, contando com a simpatia do governador Silvério Néri, decidiram organizar a "Expedição Floriano Peixoto". Batizaram-na de "Expedição dos Poetas" devido ao elevado numero de jornalistas, boêmios e versejadores que dela fizeram parte, tais como Dom Epaminondas Jacome, Vitor Francisco Gonçalves e Trajano Chacon, todos empolgados pelo jornalista Orlando Correa Lopes, que ambicionava proclamar a Segunda República do Acre. Nenhum deles tinha qualquer tipo de experiência que os qualificasse para a missão, muito menos para ir lutar nas veredas da selva remota. Logo, não causou surpresa o total malogro deles quando, recém chegados ao Acre a bordo do vapor "Solimões", em 29 de dezembro de 1900, foram rapidamente batidos pela guarnição boliviana de Puerto Alonso. Os 132 integrantes da expedição foram facilmente dispersados a tiros de canhão, retornando pouco depois à Manaus. Nem o aventureiro espanhol nem os poetas da capital haviam conseguido reverter o quadro: o Acre continuava nas mãos da Bolívia.

Um tanto antes do malogro do "exército dos letrados", o acreano Rodrigo de Carvalho já havia lançado em Belém do Pará, em março de 1900, um manifesto aos brasileiros pedindo que a republica federal se mantivesse neutra, afastada do litígio dos seringueiros contra as autoridades bolivianas.Altivo, falando em nome de uma gente brava que lutava pela independência, assegurou – numa rigorosa prosa parnasiana - que os acreanos dariam conta do recado e que o desejo deles era "reintegrarem à mães-pátria [o Brasil] a pérola que queria soterrar por insciência da riqueza que perdia."

O intento é que o Acre, liberado, não fosse anexado ao governo de Manaus, mas sim, alcançasse integrar a república brasileira como um estado federado.

Plácido de Castro, o caudilho do Acre

A vida de Plácido de Castro ainda não gerou um romance a sua altura. Nem os poucos ensaios que lhe foram dedicados conseguiram capturar a diversidade dramática e a enormidade das suas façanhas. Gaúcho de São Gabriel, nascido em 9 de setembro de 1873 na estância Tapera da Genoveva, filho de militar, do capitão Prudente de Castro, quando aluno do Colégio Militar não acompanhou seus colegas de farda na época da Revolução Federalista de 1893. (*) Antiflorianista e anticastilhista, Plácido de Castro abandonou o exército e foi alistar-se junto ao lado oposto, pondo-se ao serviço do líder maragato Gumercindo Saraiva (1852-1894) que assombrava o interior do Rio Grande do Sul com sua veia de combatente astuto e muito valente.

Anistiado no posto de major aos 21 anos ao findar o levante, Plácido de Castro tornou-se inspetor do Colégio Militar do Rio de Janeiro e, logo depois, funcionário das docas de Santos. Curiosamente, justo quando estava na função de fiscal do cais do porto, obteve a provisão de agrimensor.

Entediado com aquilo, tomando por meio de um amigo ciência da carência de profissionais nas áreas da borracha, em 1899 embarcou para o Amazonas atrás de fortuna.Logo se embrenhou naquele fundão do mundo, naquela floresta do paleolítico que Euclides da Cunha disse ser "a última página do Gênese que ainda não havia sido escrita", cercado pelas gentes brutas da terra e pelo clima úmido, quentíssimo, dissolvente de tudo.

Pouco depois, quando estava demarcando áreas rio Purus, nas terras do seringalista João Galdino de Assis Marinho, estourou o escândalo do Bolivian Syndicate que implicava no arrendamento daquele reino da borracha aos americanos por vinte anos. Os seringais voltaram a se abalar com os gritos de guerra. A notícia do arranjo de La Paz com os ianques e com os ingleses foi o elemento catalisador de todas as energias revolucionárias.
Registrou então Plácido no seu diário:

"Veio-me à mente a idéia de que a pátria brasileira se ia desmembrar, pois a meu ver, aquilo não era mais do que um caminho que os Estados Unidos abriam para futuros planos, forçando desde então a lhes franquear a navegação dos nossos rios, inclusive o Acre. Qualquer resistência por parte do Brasil ensejaria aos poderosos Estados Unidos o emprego da força e a nossa desgraça em breve estaria consumada. Guardei apressadamente a bússola de Casella, de que me estava servindo, abandonei as balisas e demais utensílios e saí no mesmo dia (23 de junho de 1902) para as margens do Acre".

Desta vez o furor dos acreanos teria um comandante profissional na liderança da insurgência. O tempo dos amadores impulsivos, como Galvez e "os poetas" de Manaus, passara, e a Revolução Acreana, por fim, encontrara o seu caudilho.

(*) Plácido trazia no sangue o pulsar de um guerreiro. Descendia de uma dinastia de militares: seu pai Prudente da Fonseca havia lutado na Guerra do Paraguai, seu avô José Plácido nas Guerras Cisplatinas, e um dos seus bisavós, Joaquim José Domingues participou junto com Borges do Canto na ocupação das Missões, que levou a integração delas ao território do Rio Grande do Sul, em 1801.(ver "Um gabrielense na campanha do Acre", de Mauren Rigo: ZH- Cultura: 06/01/2007)

O Acre encontra o seu líder

Numa reunião feita em Caquetá, no 1º de julho de 1902, Plácido e os demais insurgentes, formando a Junta Revolucionária, urdiram as bases do futuro Estado Independente do Acre, prevendo sua integração no Brasil. O gaúcho exigiu de todos o compromisso de obediência indiscutível ao Comandante-em-chefe do Exército do Estado Independente do Acre, não aceitando a dispersão da autoridade ou seu questionamento. Obteve inclusive a anuência do representa do governador do Amazonas, o doutor Gentil Norberto que, mesmo sendo o homem do dinheiro e do fornecimento das armas, aceitou subordinar-se a ele.

A experiência de combate que adquirira junto à guerrilha maragata ajudou-o na montagem da estratégia. Em pouco tempo um exército de dois mil seringueiros estava à disposição dele nos arredores de Xapurí. Bastaram 33 homens, capitaneados por um tal de José Galdino, para capturarem o povoado. Em 6 de agosto de 1902 começava a etapa final do processo revolucionário com a imediata proclamação de independência, ato que se seguiu ao arriar a bandeira boliviana.

A luta na selva

Cercando as guarnições enviadas de La Paz com cinturões de homens armados com rifles e com arma branca (por força do ofício, os caucheiros eram exímios lutadores com facas), os homens de Plácido surgiam de repente do interior dos matos e punham todos os inimigos a correr. Diga-se que naquelas condições, caminhando pelas trilhas em meio à selva densa, perigosa, mais medo tinham das feras e dos insetos, dos febrões repentinos, das assombrações do sobrenatural, do que enfrentar os cholos fardados.

Numa campanha relâmpago, quase toda concentrada no rio Acre, as praças foram caindo, uma por uma, no controle dos revoltosos, até que, 171 dias depois da tomada de Xapurí, em 21 de janeiro de 1903, Plácido de Castro contou com a vitória definitiva. Os combates mais importantes foram:

1) o da Volta da Empresa, travado em 18 de setembro de 1902 (ocasião em que os acreanos emboscaram a tropa do coronel Rosendo Rojas);

2) e o da Nova Empresa ( onde o mesmo oficial foi novamente batido quando submetido a um cerco em 6 de outubro de 1902).

A operação derradeira foi concluída com o ataque ao Porto Acre, manobra que se estendeu por nove dias, de 15 a 24 de janeiro de 1902, e que findou com o içar da bandeira branca por parte do governador boliviano e assinatura da Carta de Rendição da Bolívia por Dom Lino Romero.Os remanescentes dos destacamentos bolivianos entregaram-se ou deram a volta para o interior do país. Três dias depois, em 27 de janeiro, foi proclamada a Terceira República do Acre.

Entrementes, no Brasil, a população que acompanhava o conflito de muito longe, aflita, em aceso patriotismo, não deixava de manifestar seu apoio aos seringueiros, entusiasmada com a bravura dos infantes de Plácido. Assim sendo, quando o governo da Bolívia na presidência do general José Maria Pando (1899-1904) empenhou-se numa mobilização de tropas, acenando com uma grande marcha para o Acre para ir recuperar o terreno perdido e dar fim nos "flibusteiros brasileiros", a habilidade do Barão do Rio Branco entrou em ação.

O intento do chanceler era encontrar um caminho alternativo que evitasse o confronto sangrento entre os dois países. O resultado bem sucedido disso foi o Tratado de Petrópolis, firmado em 17 de novembro de 1903, que garantiu, com os devidos ressarcimentos em dinheiro e cumprimento de quesitos outros, que os mais de 150 mil km² que formavam o Acre pertenceriam definitivamente ao Brasil.

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