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A Bolívia reafirma-se na região
Ainda que pouco povoada, a Bolívia sabendo da chegada de milhares de caucheiros na sua parte da Amazônia, decidiu marcar presença na área. Com total anuência do governo brasileiro - firmado pelo Protocolo de 23 de setembro de 1898, que reconhecera a soberania boliviana - estabeleceu uma alfândega no lugarejo de Puerto Alonso. Local de onde o plenipotenciário Dom José Palavicini exerceria função fiscalista e arrecadadora, cobrando 15% sobre os produtos importados e fixando o imposto da capitação (2 dias de trabalho ou 20$000 réis em dinheiro vivo), além de abrir os rios à navegação internacional. Para os acreanos, todavia, afeitos à liberdade em que vivam, a presença da burocracia boliviana pareceu-lhes uma intromissão indevida – um ato de ocupação estrangeira. Para o governo do Amazonas, por sua vez, couberam os prejuízos com a perda da arrecadação que antes disso fluía para os cofres de Manaus.
Inconformados com a presença dos agentes de La Paz num território em que consideravam donos, a reação dos seringueiros não tardou. Depois de uma reunião conspirativa no seringal Bom Destino, de propriedade de Joaquim Vitor Silva, atendendo à convocação do jornalista e advogado José Carvalho, articularam uma ação de força contra os bolivianos (estendida ao governo brasileiro, por ter concordado com a fixação da alfândega). A revolta deu-se no dia 1º de maio de 1899. Com um reduzido grupo de homens, uns 60, Carvalho exigiu, por escrito, do delegado boliviano Dom Moisés Santivanez a pronta retirada da área. Incidente que na ocasião não teve maiores conseqüências mas que foi um sinal vermelho do que ainda estava por vir. O episódio foi o começo da fase militar da independência do território, ou melhor dizendo do seu período insurrecional, que se estendeu por quatro anos (de 1899 a 1903).Aspirando o clima de rebeldia que se espalhava pelo Acre e chegava a Manaus, tocou a vez do aventureiro Luiz Galvez Rodrigues Arias, ou simplesmente Luiz Galvez, um jornalista de origem espanhola, ir ocupar o vazio deixado pela momentânea ausência das autoridades bolivianas, espantadas com a fúria dos seringueiros. Poliglota, duelista audaz e boêmio, Galvez, que na ocasião era diretor do jornal "Comércio do Amazonas", escorado pelo governador Ramalho Júnior, tomou a peito realizar uma incursão ao Acre. Tratou-se de uma epopéia rocambolesca, digna das páginas da literatura fantástica, visto que Galvez, um sem-raízes que vivia intrigando nas redações, consulados e palácios, terminou não somente proclamado a Independência do Estado do Acre, na data simbólica de 14 de julho de 1899, como ainda, por nove meses, agiu por lá, nos velhos moldes ibéricos, como um ditador.
Vingança contra os americanos
Um dos fortes motivos que o levou a arrojar-se na aventura foi ele ter descoberto documentos no consulado boliviano de Belém do Pará segundo os quais o governo de La Paz estava negociando secretamente a cedência do Acre para o Bolivian Syndicate, um empreendimento de capitais norte-americanos que se adonaria da exploração da borracha. Entendeu-a como o começo da internacionalização da Amazônia e como uma maneira dos Estados Unidos, a quem ele odiava, por os pés na América do Sul.É possível que, com a captura do Acre, ele quisesse realizar uma espécie de desforra contra os ianques, pois naquele mesmo ano, com o desastre da Espanha na Guerra Hispano-Americana de 1899, Cuba e Porto Rico haviam sido integradas aos interesses dos Estados Unidos. Tanto assim que, na formação do seu "exército", Galvez conseguiu atrair uns 20 veteranos espanhóis que, foragidos do Caribe e enfiados no interior da Amazônia atrás da fortuna, se mostraram dispostos a embarcar no navio para ir dar uma lição nos prepostos dos americanos. Para eles, impedir que os ianques ocupassem o Acre era compensar-se da recente derrota.
Luiz Galvez, imperador do Acre
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Bandeira do Acre, desenho de Galvez
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Lá desembarcando, completando uma viagem de 20 dias, contou com o apoio do presidente da Junta Central Revolucionária, liderada pelo jornalista José Carvalho, que sugeriu seu nome como presidente naquele histórico 14 de julho de 1899. Galvez governou o Acre entre 14 de julho de 1899 a 1º de janeiro de 1900, e entre 30 de janeiro e 15 de março de 1900, pela última vez. Assumiu por igual a magistratura, mandou fazer selos, desenhou a bandeira acreana (a estrela vermelha pairando em meio às cores brasileiras), criou ministérios e até um serviço de bombeiros. Por igual abriu escolas para tentar dirimir o analfabetismo dos seringueiros. Era um império um tanto picaresco, de selva fechada e de barrancas de rio, habitado por uns 13 mil seringueiros com suas famílias. O sonho delirante dele acabou quando tropas federais brasileiras, atendendo os reclamos dos bolivianos, deslocaram-se para lá para afastá-lo definitivamente. Luiz Galvez, que ao seu jeito, com modos de tirano, implementou o primeiro governo modernizador naquelas áreas, ainda que bem pouco conhecido, foi o derradeiro aventureiro espanhol a embrenhar-se na conquista da Amazônia, façanha começada no século XVI com Gonzalo Pizarro e Francisco Orellana. Detido sem resistência no Acre, Galvez, levado de volta para Manaus, viu-se desterrado para Pernambuco, de lá embarcando de volta para a Espanha. Suas aventuras e trapalhadas atraíram a atenção do novelista amazonense Marcio de Souza que registrou suas peripécias no "Galvez, imperador do Acre", de 1976. Na Espanha, ainda recentemente editou-se o livro de autoria de Alfonso Domingo "La Estrela Solitaria", em 2003, que conta a aventura do espanhol que criou o Estado Independente do Acre, concluindo que ele foi "o único espanhol que ganhou uma guerra contra os Estados Unidos".
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