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Abaixo a Vacina!
Entre os dias 10 e 15 de novembro de 1904, durante quase uma semana, o Rio de Janeiro, então capital federal da República do Brasil, virou numa praça de guerra. De um lado, alinhavam-se a polícia, as tropas do exército, pelotões de marinheiros e os agentes da saúde pública; do outro, um povo inteiro em fúria, alçado contra a lei da vacinação obrigatória, aprovada na Câmara Federal no dia 31 de outubro de 1904. Foi a maior revolta popular do Rio de Janeiro e talvez a maior insurgência urbana da história do Brasil.
Rio, hospital a céu aberto
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Um déspota romano impõe a vacinação (charge de 1904)
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Se bem que o Rio de Janeiro daqueles tempos não tivesse nenhum buraco negro como em Calcutá, um sumidouro abrasante de homens brancos, a capital do império em termos de higiene e saúde pública era um pavor. A paisagem sim, belíssima, de extasiar, mas as condições de vida para quem vinha da Europa eram de assustar. O Conde Gobineau, embaixador francês no Brasil e amigo do imperador D. Pedro II, mal desembarcou em 1869, foi derrubado por uma febre que o prostrou por seis meses. Deixou dito que o Rio de Janeiro era um "deserto povoado de malandros" e passou boa parte do tempo alarmado em contrair um febrão mortal. Podia ter sido eleito por qualquer das desgraças tropicais: a peste bubônica, a febre amarela ou a varíola, entre tantas outra mais, visto que a cidade acolhia todas as pandemias existentes. Era um hospital a céu aberto.
Salvando-se o bairro do Botafogo, morada do Conselheiro Aires de Machado de Assis, e o bairro do Flamengo, o centro da cidade era medonho. Ali, da beira do cais estendendo-se até os morros da Saúde e da Providência, concentrava-se a república dos cortiços. Um mar de casebres, colados uns aos outros, que parecia não ter fim. Com abolição de 1888, a situação urbana piorara. Milhares de ex-escravos, largados sem nada do eito, deram com os costados por lá. Viviam ao deus-dará. É possível que eles perfizessem um terço dos 720 mil habitantes da capital federal. O ponto determinante que levou as autoridades republicanas a dar um basta, a por um fim naquilo, naquele matadouro invisível, foi a morte em massa de marinheiros italianos. Em 1895, 240 tripulantes da fragata "Lombardia", em visita à cidade, caíram atacados pela febre amarela. Em uma semana, 144 deles morreram, inclusive o comandante da nave. Como chamar imigrantes (então política oficial de Estado retomada pelo regime de 1889), para virem para o Brasil com aquilo? Ainda assim, qualquer ação mais enérgica terminou adiada. Na Bahia, o Conselheiro punha fogo no sertão, e com isso, por um tempo, foram-se os recursos da república.
Prudente de Morais faz a reforma
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O dr.Oswaldo Cruz (1872-1917)
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Precisou-se esperar pela presidência de Rodrigues Alves, o "soneca", que, negando o apelido, resolveu detonar. Em 1903, deu carta branca ao engenheiro Pereira Passos como prefeito plenipotenciário para desmantelar os pardieiros e quiosques imundos que se espalhavam pelas ruelas e becos de boa parte da cidade e construir uma Paris tropical sob seus destroços. Em seguida, indicou o dr. Oswaldo Cruz, vindo do Instituto Pasteur, da França, e diretor do Instituto Manguinhos, como Diretor Geral da Saúde Pública para acabar com os "micro-assassinos", geradores das doenças (não era o calor, nem a maresia quem provocava as febres e pestes, mas sim os insetos e os ratos). Então, batalhões de operários seguidos por pelotões de mata-mosquitos desabaram sobre o grande mocambo de madeira e latão do centro do Rio de Janeiro. Em pouco tempo uma boa parte da antiga capital do Brasil Colonial foi se transformando num enorme entulho, com avenidas rasgando os planos e edifícios alterando a paisagem. Com a picareta e a pólvora do "bota-abaixo", somada à fumaça contra os pernilongos, esperava-se que a cidade deixasse de ser o que Olavo Bilac chamou de "cemitério dos vivos". Naturalmente que a população pobre, aquela imensa plebe miserável, sem eira nem beira, que habitava o miolo da capital, não gostou nada daquilo. Explodiram quando se deu a aprovação da obrigatoriedade da vacina contra a varíola, em 31 de outubro de 1904.
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