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Paris e Rio de Janeiro: política e urbanismo
Duas grandes capitais imperais, Paris, na França, e o Rio de Janeiro, no Brasil, sofreram significativas reformas urbanas, verdadeiramente revolucionárias, por causas políticas. Tanto numa como na outra, o impulso principal para as novas obras deveu-se às insurgências populares ou em razão de uma força armada alçada contra o governo. Os traçados urbanos delas foram então redesenhados exatamente para evitar futuras conflagrações.
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Barão Haussmann (prefeito entre 1852-1871)
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A resistência que o povo miúdo de Paris lhe fizera, erguendo barricadas por todos os lados contra o golpe de estado de 2 de dezembro de 1851, merecia um basta. Luís Napoleão (em seguida coroado Napoleão III), resolveu por um fim nos amotinamentos populares tão comuns na capital francesa desde os tempos da insurgência de 1789. Era preciso erradicar as insurgências para sempre. Paris precisava ser redesenhada. Assim foi que nomeou então, em 1852, o Barão Haussmann , dando-lhe plenos poderes. Com a carta-branca no bolso do colete o Barão não se fez de rogado. Pelos 17 anos seguintes, se autodenominado de o “destruidor criativo”, afainou-se em arrancar Paris da Idade Média. Trouxe-a, à força das pás, picaretas e explosões de pólvora, para dentro da modernidade. Milhares de casas de cômodo e cortiços foram arrasados para formar as belas radiais dos Campos Elísios. Doravante, se a plebe rude se alçasse, as guarnições vindas da periferia num instante estariam dentro dos bairros proletários da Chapelle e de Montmarte para sufocá-la.
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Rasgando avenidas no Rio de Janeiro
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Pois no Rio de Janeiro, então distrito federal da República do Brasil, não foi a plebe quem por primeiro impulsionou a grande reforma urbana, mas a rebeldia da aristocrática marinha. Durante a Revolta da Armada, de setembro de 1893, os arrogantes canhões do Aquidabã, navio capitania do almirante Custódio de Melo, arreganhando-se para a cidade, botaram medo em meio mundo. Queriam derrubar o governo do marechal Floriano Peixoto. Nada acelerou mais o loteamento do bairro de Copacabana, cujo túnel fora aberto em 1892, do que os tiros do encouraçado sobre a Igreja da Lapa e arredores. Os cariocas que podiam queriam sair logo da linha de fogo da esquadra metendo-se pelos postos abertos na nova praia. As favelas por seu lado tiveram um começo curioso. Se bem que já Aluízio de Azevedo e Machado de Assis as mencionassem, elas tomaram impulso com a desmobilização dos praças que haviam lutado em Canudos em 1897. Prometeram-lhes umas pensões de veteranos. Enquanto aguardavam os procedimentos (que nunca vieram) foram se amontoando em barracos improvisados num morro próximo ao Ministério da Guerra. A aparência dos casebres era tão precária e medonha que os ex-combatentes se lembraram da pequena e tinhosa planta que cobria as colinas de Canudos: a favela. Não demorou para que a vizinhança deles no Morro da Favela aumentasse quando o prefeito Pereira Passos (1903-1906), o Haussmann carioca, por igual se lançou numa empreitada gigante. A política dele, apelidada de “bota-abaixo”, aplicada ao centro do Rio de Janeiro, devastou um mar de pardieiros, estrebarias e cortiços, uns 1600 no total. Era um império de insalubridade e pobreza que fazia a glória da febre amarela, da varíola e da sífilis. Ajudou-o ainda a Revolta da Vacina, de novembro de 1904, quando um regimento de artilharia foi convocado para amansar a massa, arredia à vacina, à canhonadas e descargas de fuzil. Desalojados do Morro da Saúde, da Gamboa e da Cidade Nova, foram para mais longe e para mais alto. Passados cem anos, hoje estão na Rocinha.
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