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O arquipélago das conspirações
A Direita brasileira (conservadores, liberais udenistas, ativistas anticomunistas e neofascistas) vinha há muitos anos articulando um golpe militar que pusesse um fim definitivo na república populista. No seu acervo conspirativo e golpista, constava a tentativa de impugnação da eleição de Getúlio Vargas, em 1951; a pressão pela deposição de Getúlio Vargas em 1954 (golpe que foi sustado pelo impacto que seu suicídio causou na opinião publica); a tentativa de impedir a posse de Jucelino Kubitschek, em 1955; os levantes de oficiais da FAB em Jacarecanga, em 1956, e em Aragarças, em 1959; e, por último, no veto a que João Goulart assumisse a presidência em 1961. Aproveitando-se da trégua provocada pela adoção do sistema parlamentarista, formou-se um imenso arquipélago de conspirações pelo Brasil. Setores anti-janguistas, formando ilhas de conluios nem sempre secretos, reuniram-se tanto nas agremiações militares como dentro dos quartéis, em partidos políticos e nas associações empresariais. Como principais articuladores do golpe de 1964, além das lideranças civis formadas pelos grandes proprietários e pelos governadores de Minas Gerias (Magalhães Pinto), da Guanabara (Carlos Lacerda ) e de São Paulo (Ademar de Barros), achavam-se os marechais Odílio Denys e Eurico Gaspar Dutra, e, mais discretamente, o general Humberto Castello Branco, chefe do Estado Maior do Exército, que agia com a máxima prudência.
Expressando o sentimento da classe média afluente, que ascendera desde o jucelinismo, havia a crença de que o país deveria ser dirigido por uma neo-oligarquia empresarial-militar que superasse o populismo e que seu poder, de certo modo, fosse imune às influências eleitorais. A função aglutinadora desta elite antipopulista foi executada pelo IPES/IBADE (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais/Instituto Brasileiro de Ação Democrática), instituições essas que mobilizavam empresários e tecnocratas em vários Estados importantes do país, particularmente no eixo Rio-São Paulo, realizando estudos e projetos alternativos à administração populista. Além disso, no caso do IBADE, selecionar e financiar os candidatos anti-janguistas nas eleições de 1962. Temiam eles não a figura de João Goulart em si, afinal um político de temperamento conciliador, como se verificara no episódio da aceitação do parlamentarismo, mas à infiltração dos comunistas e dos nacionalistas apaixonados. O marechal Odílio Denys, num depoimento dado a Hélio Silva (1964: golpe ou contra-golpe? RJ,1975), viu-o como “um Kerensky”, o político russo que em 1917, abriu caminho, sem o querer, para a tomada do poder pelos bolcheviques. Era crescente o número de oficiais que se inclinou para romper com a legalidade a pretexto de evitar uma “outra Cuba”.
O cenário internacional em 1964
Desde o término da Segunda Guerra Mundial, as relações entre os Estados Unidos e a União Soviética azedaram-se num confronto ideológico planetário, a chamada Guerra Fria. Ambas as superpotências dividiram o mundo em áreas de influência, governando cada uma o seu próprio bloco. Os Estados Unidos comandavam a OTAN (Organização do Atlântico Norte), a OTASE (Organização do Tratado do Sudoeste asiático) e o TIAR (Tratado Interamericano de Auxílio Recíproco) firmado com os países latino-americanos em 1947). Enquanto isso, a URSS liderava as forças do Pacto de Varsóvia, que cobria os países do Leste europeu: as ditas Democracias Populares (Polónia, Thecoslováquia, Bulgária, Romênia, Hungria e Alemanha Oriental). Para os estrategistas norte-americanos o nacionalismo do Terceiro Mundo colocava-se objetivamente contra os seus interesses e, por conseqüência, aproximava-se estrategicamente da potência comunista. Mantiveram então uma política de ativa desconfiança para com os lideres populistas latino-americanos, fossem eles Juan Domingo Perón (da Argentina), Jacobo Arbenz (da Guatemala), Getúlio Vargas e João Goulart (do Brasil), Haia de la Torre (do Peru), ou Fidel Castro (de Cuba).
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