|
A insubordinação dos escalões subalternos
Em 12 de setembro de 1963, os sargentos da Marinha e da Aeronáutica, liderados pelo sargento Antônio Prestes de Paula, servindo em Brasília insurgiram-se em protesto contra a decisão do Supremo Tribunal Federal que negara a eles o direito de disputarem eleições. Durante doze horas, eles controlaram o setor dos ministérios da capital. Rendidos, mais de 500 deles foram anistiados pelo Presidente (posteriormente, com o sucesso do golpe de 1964, todos eles foram expulsos das suas respectivas corporações). O estabanado levante foi visto pelos altos comandos como prova evidente “da infiltração comunista” e prenúncio do que poderia vir acontecer no futuro próximo: o ataque aberto dos escalões inferiores das forças armadas, incitados pelos janguistas, contra as instituições republicanas. Inúmeros oficiais, até então legalistas, denunciaram o rompimento do elo da cadeia de comando. Nos quartéis, na esquadra e nas bases aéreas aumentava a tensão entre os comandantes e os que ocupavam posições intermediárias entre eles e as tropas.
O comício da central e a marcha das mulheres
|
|
|
|
O comício da central do Brasil de 13/03/1964
|
No dia 13 de março de 1964, João Goulart decidiu fazer um comício de natureza radical na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Reafirmou então, frente a uma massa impressionante, o seu projeto de “lutar com todas as suas forças pela reforma da sociedade brasileira. Não apenas pela reforma agrária, mas pela reforma tributária, pela reforma eleitoral ampla, pelo voto do analfabeto e pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza da vida democrática, pela emancipação econômica, pela justiça social e pelo progresso do Brasil”. O ex-governador gaúcho Leonel Brizola, por sua vez, a personalidade mais expressiva do nacionalismo radical, procurou atiçar a massa presente contra o Congresso, apontado-o como uma confraria de privilegiados que jamais aprovaria as leis que o Brasil necessitava. Contra este Congresso das Elites ele propunha uma nova constituinte da qual emergisse um Congresso Popular, formado apenas “por homens públicos autênticos”. Na observação do colunista Carlos Castello Branco o comício da Central foi “a festa das definições”(Dênis de Moraes – A Esquerda e o Golpe de 1964, pag.188). Seis dias após o lançamento das Reformas de Base frente aos 300 mil trabalhadores que compareceram ao comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, veio a resposta. Em São Paulo, tendo a frente o governador Ademar de Barros, 500 mil senhoras católicas, atendendo ao chamado da União Cívica Feminina, desfilaram na Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Manifestaram-se contra “o comunismo” e contra a assustadora desordem que diziam ser instigada pelo governo Goulart (em seguida a vitória do golpe, no dia 2 de abril, a CAMDE, Campanha da Mulher pela Democracia, reuniu no Rio de Janeiro 2 milhões de pessoas). Como se fosse a representação de um grande Auto medieval, as multidões, pró e contra Goulart, umas com a foice e o martelo, outras com os crucifixos, umas com bandeira vermelha, outras com a verde-amarela, encenavam nas ruas e nas avenidas brasileiras o derradeiro ato de um grande drama político que vinha se arrastando há muito tempo pelo país inteiro. As greves, por sua vez. não cessavam, desgastando enormemente o governo por não conseguir ou não querer por um término nelas. Exemplo do atiçamento à greve é dado por um discurso feito por Francisco Julião, o líder das Ligas Camponesas do Nordeste que, num pronunciamento feito ainda em novembro de 1963, disse: "A agitação e a greve já estão deixando a burguesia sem sono e acabando com a sua paz. Então agitemos! Então façamos greve! ...O Brasil necessita de mais agitação, As greves precisam se multiplicar por 10, por 100, por 1.000."
O baile da ilha fiscal do populismo
Em imediata resposta ao protesto da classe média, os marinheiros da Armada, liderados pelo Cabo Anselmo, organizados ao redor da Associação de Marinheiros e Fuzileiros Navais do Brasil, no dia 25 de março, alvoroçaram-se no Rio de Janeiro. Durante o chamado Motim da Semana Santa, os 1200 marujos rebeldes concentrados no Palácio do Aço, sede do sindicato dos metalúrgicos, receberam ainda a adesão de um destacamento de 26 fuzileiros navais que se dirigira para o local para prendê-los. João Goulart não demorou igualmente em anistia-los. Dali em diante, pelo Presidente ter-se posicionado novamente a favor dos estamentos subalternos, ferindo assim os princípios da hierarquia militar, praticamente mais ninguém na alta chefia militar lhe deu sustentação. O Baile da Ilha Fiscal do governo populista, por assim dizer, deu-se no dia 30 de março de 1964, véspera do golpe, ocasião em que o Presidente compareceu a uma grande confraternização no Automóvel Clube do Rio de Janeiro onde recebeu as homenagens dos subtenentes e dos sargentos pela defesa que fizera dos interesses deles. Nessa oportunidade, discursou o Cabo Anselmo, líder dos revoltosos do dia 25 de março. Foi a ultima aparição pública de Goulart como Presidente. Assistindo a tudo, pela televisão, na sua casa em Juiz de Fora, o general Olimpio Mourão Filho, que desde o dia 28 de março acertara comandar as tropas insurgentes, dali mesmo ordenou que os seus regimentos que pegassem nas armas e entrassem nos caminhões.
|