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Não houve uma revolução
De certo modo ambos estão certos e ambos se equivocam. Na concepção da ciência política clássica, a palavra revolução é entendida como um fenômeno sociopolítico radical e violento que remove à força, em geral por meio de uma guerra civil sangrenta, as classes dirigentes tradicionais, arrancado-as do poder e substituindo-as por uma outra força, composta pela nova geração emergente (como deu-se na Revolução Americana de 1776 e na Francesa de 1789, ou com as revoluções comunistas que ocorreram na Rússia, em 1917, e na China, a partir de 1949). Evidentemente que o Movimento de 1964 não promoveu nada disso, visto que não derrubou nenhuma aristocracia hereditária ou monarquia reinante e nunca cogitou “expropriar os expropriadores”. Ao contrário. Em momento algum ele deixou de ser amparado pelas elites tradicionais (os empresários da industria do comércio e da banca, os poderosos latifundiários e fazendeiros, e as grandes corporações estrangeiras), e mesmo por parte majoritária do Alto Clero católico (pelo menos até 1968). Se o comparássemos à Revolução Francesa de 1789, poderíamos dizer que no Brasil de 1964, ocorreu a vitória do Primeiro e do Segundo Estado (o alto clero e a nobreza) contra o Terceiro Estado (o povo). O que o Movimento de 1964 fez de imediato, assegurado o golpe, foi afastar o núcleo dirigente que cercava o Presidente João Goulart, composto por políticos populistas, esquerdistas e militares nacionalistas, neutralizando de imediato todas as instituições jornalísticas, sindicais, estudantis e populares identificadas com ele. Posteriormente, já estabilizado no poder com a eleição indireta do Presidente Castello Branco, metodicamente estendeu o seu raio punitivo, com o recurso às cassações políticas e outros instrumentos repressivos, diversos setores da sociedade civil brasileira (líderes sindicais e partidários, jornalistas, intelectuais, artistas, acadêmicos, estudantes, etc..).
A preservação da continuidade
Passados os decênios, observa-se que praticamente os mesmos grupos econômicos e sociais que existiam pré-1964 continuam tendo papel relevante na sociedade brasileira, não havendo pois uma substituição da verdadeira camada dirigente. Afinal, se a palavra “golpe” é restritiva, e a palavra “ revolução” é muito ampla para tentar definir o movimento político-militar que se impôs a partir de 1964, qual seria a classificação mais adequada? O mais aproximado é dizer-se que o que ocorreu em março de 1964 foi uma contra-revolução. Isto é, um movimento de ruptura da legalidade constitucional para evitar que o regime reformista de João Goulart se transformasse num regime revolucionário, ou numa República Sindicalista radical (similar ao dos tempos áureos do peronismo argentino). Foi, pois, uma ação preventiva, uma contra-revolução, na medida em que as Reformas de Base alardeadas pelo chefe populista, com promessas de reforma agrária, estatizações e nacionalizações, pareciam às classes conservadoras a ponta de lança da comunização do país. Por igual, as seguidas ameaças da esquerda não-comunista e do populismo radicalizado de ignorar as instituições vigentes e de propor um Congresso Popular, ou ainda de clamar nas rádios e nos comícios a intenção de fazer passar as reformas “na lei ou na marra”, como dizia-se então, muito colaboraram para que os golpistas se apresentassem frente à nação como os defensores da ordem constitucional em vias de ser ameaçada. Historicamente, se bem que longe de provocar o mesmo número de vítimas, o Movimento de 1964 é tributário da La Cruzada, o levante do general Francisco Franco contra a República da Frente Popular da Espanha, feito em 18 de julho de 1936, como inspirou o violento golpe dados pelas forças armadas chilenas, lideradas pelo general Augusto Pinochet, que derrubou o governo socialista do Presidente Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973, impondo um Estado de Segurança Nacional ao país. Destaca-se, todavia, que o Movimento de 1964 não produziu nenhum liderança caudilhesca que dominasse inteiramente o cenário da ditadura. O Regime Militar que se seguiu foi do principio ao fim, de 1964 a 1985, o regime da corporação armada.
Referências bibliográficas
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