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Décio Freitas, a morte de um indignado

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Faleceu na madrugada de 9 de março de 2004, na sua residência em Porto Alegre, o escritor e historiador Décio Freitas com a idade de 83 anos. Ativista da imprensa gaúcha e brasileira por bem mais de meio século, consagrou-se como um notável e erudito historiador das insurgências populares do Brasil colonial e imperial, especialmente da revolta de Zumbi dos Palmares. Manteve uma das mais freqüentadas colunas do Jornal Zero Hora de Porto Alegre, com a reputação de ser um dos maiores intelectuais brasileiros em atividade.

Para Décio Freitas, as idéias não eram coisas frias e distantes. Faziam parte do seu dia a dia, da mesma maneira que trabalhar, comer ou repousar compõem os quefazeres do homem comum. Eram elas coisas vivas que o mantinham em permanente prontidão, agindo sobre ele como um elixir estimulante ou como um forte depressivo. Décio Freitas foi acima de tudo um indignado, um intelectual sinceramente tocado pelas desgraças humanas. Apaixonado pelas coisas do Brasil, enfurecia-o a nossa complacência com a desigualdade, com a pobreza e com a miséria que nos cerca.

Isto o levou a ser o historiador das revoltas negras e plebéias (Palmares: a Guerra dos Escravos, 1973, Os guerrilheiros do Imperador, 1978, etc...), tornado-se seguramente o mentor da reativação do interesse da intelectualidade brasileira e dos movimentos sociais pelas lutas passadas dos oprimidos. Não o interessava o brasileiro manso, cordato, serviçal. Os seus olhos sempre se voltaram para aqueles poucos que se insurgiam, que resistiam, que procuravam alternativas à vida miserável a que estavam condenados. Exemplo disso é o manuscrito que deixou para ainda ser publicado sobre a revolta dos Cabanos do Pará, contemporânea da Revolução Farroupilha. Inclinação essa que lhe valeu a inimizade permanente do Regime de 1964.

Interessado por tudo, Décio Freitas era uma verdadeira faculdade de ciências humanas. Seus conhecimentos abarcavam um arco impressionante. Além da história brasileira e universal, na qual trafegava com grande desembaraço, apreciava a literatura a as artes em geral, com grande enlevo pela arquitetura e pelo cinema (o qual freqüentava religiosamente). Convier com ele, de certo modo, era inteirar-se do mundo. Apesar de ser muito ligado ao Rio Grande do Sul, "aquerenciado" como ele dizia, Décio Freitas sempre procurou descortinar o Brasil como um todo. Que eu saiba ele era um dos poucos homens cultos gaúchos que dominava com destreza a história do Norte e do Nordeste, mantendo uma viva admiração tanto por João Cabral de Mello como por Gilberto Freyre (apesar das diferenças ideológicas que os separavam).

Nos últimos anos, apesar de ter sido Patrono da Feira do Livro e de manter uma coluna prestigiadíssima no Jornal Zero Hora, a amargura o dominava. Comprometido com o marxismo, viu-se constrangido quando todo o edifício do Leste desabou sem deixar saudade. Refugiou-se então na personalidade histórica de Getúlio Vargas a quem celebrava como o estadista brasileiro exemplar, como se estivesse em busca de um alento, do passado de um Brasil mítico que desaparecera no tempo e que ele tinha consciência de que não voltaria mais.

    
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