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Monteiro Lobato e o petróleo
O dia 3 de outubro de 1953, registra o nascimento de uma das maiores companhias petrolíferas do continente americano: a Petrobrás. Fundada pela lei nº 2004, sancionada pelo presidente Getúlio Vargas, depois de emocionadas discussões e ferozes diatribes travadas na rádio e na imprensa nacional, a grande empresa tem sido a responsável pela gradativa auto-suficiência do Brasil no que toca ao petróleo. Uma das personagens inesquecíveis daquela época polêmica foi o escritor paulista Monteiro Lobato, nascido em Taubaté, em 1882. Conhecido como autor de histórias infantis ele, até seu falecimento em 4/08/1948, também engajou-se na luta em favor da exploração do ouro negro, merecendo por isso o titulo de ser um dos campeões civis da grande causa.
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Monteiro Lobato, 1882-1948
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"A sem-vergonhice nacional esta de parabéns com a morte de Monteiro Lobato, grande homem, grande espírito, grande artista. Não sabemos o que mais admirar nele: se o homem de bem ou se o artista perfeito.. Em meu nome e em nome de todos os atores do Brasil trago aqui o nosso adeus comovido." Procópio Ferreira no enterro de Lobato, 5/07/1948
Os figurões começaram a chegar em grupos à Biblioteca Municipal de São Paulo. O governador do Estado e seus secretários fizeram questão de pegar nas alças do caixão do velado para conduzi-lo à rua. Um dia antes, no 4 de agosto de 1948, Monteiro Lobato morrera aos 66 anos de idade. A infância do Brasil ficou de luto. Fora-se o “Andersen dessa terra”, como ele dizia de si. Do lado de fora, e no trajeto inteiro até o Cemitério da Consolação, além dos integrantes da república das letras&artes, uma multidão acompanhou o féretro do grande escritor. Enterrava também um patriota, um turrão que cismara desde cedo de que o país tinha petróleo e que era obrigação fazer-se de tudo para encontrá-lo. Envolveu-se em polêmicas ferozes. Brigou com meio mundo. Foi duas vezes preso pela ditadura de Vargas. Arruinou-se. O homem era um tumulto. Em 1936, ele desancara publicamente um documento oficial do ministro Odilon Braga (Bases para o Inquérito sobre o Petróleo), pois, na sua essência, traduzia a divisa “não tirar petróleo e não deixar que o tirem”. Metera-se naquela questão porque, depois de uns tempos vivendo nos Estados Unidos, entre 1927-1931, voltara convicto da importância estratégica para o progresso da sociedade daquela fonte de energia. O Brasil, para ele, naquela questão, sofria por um duplo conluio. De um lado, como severo freio à pesquisa e a prospeção, alinhavam-se os interesses das empresas internacionais, os grandes trustes como se chamavam na ocasião, que não tinham intento em promover a descoberta de novas lavras do ouro negro no momento em que, devido a Grande Depressão dos anos trinta, havia superprodução de combustível. Do outro, a simples inaptidão e despreparo da burocracia nacional em por mãos à obra. A safadeza estrangeira aliava-se à incompetência tupiniquim. Resultante disso era a Lei de Minas, a de 1934, que ao invés de ser um Abra-te Sésamo! , servia, disse, como um Frecha-te Sésamo! O que não o inibiu de fundar uma sociedade para a exploração do petróleo: a Companhia Matogrossense de Petróleo S.A.,
Havia nele, em Lobato, uma boa dose de crença numa teoria conspirativa que o fez ver nos geólogos e outros pesquisadores estrangeiros que por aqui atuavam, agentes de manobras escusas. Os técnicos, como teria sido o caso do geólogo Victor Oppenheim, encontravam sinais visíveis de petroleo sim, mas não comunicavam as autoridades brasileiras. Não se furtavam, todavia, em enviar os mapas da mina para seus patrões lá fora. Por outra parte, os que estavam a serviço do DNPM (órgão estatal encarregado das pesquisas minerais), eram capazes de cair dentro de um poço de óleo e achar que tudo era barro. Não conseguiram ver, tais “técnicos”, que num lugar no Recôncavo Baiano, local apontado por todos como prodigioso, havia óleo. Justo onde depois, em 1939, descobriu-se o poço de Lobato (dado em homenagem ao escritor). Infelicitou-se ainda mais ao atacar injustamente o general Horta Barbosa, presidente do CNP (Conselho Nacional do Petróleo), numa carta audaciosa e abusada que remeteu a Getúlio Vargas, em1940, acusando o general de fazer o jogo do truste americano da Standar Oil . O que lhe rendeu a prisão pelo Deops, a polícia política do Estado Novo, um processo e uma condenação a seis meses de prisão imposta pelo Tribunal de Segurança Nacional. Pena que foi relaxada a pedido do acusado, o general Horta Barbosa, e, em seguida, por um indulto do próprio Getúlio Vargas.
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O caipira indolente, símbolo do mundo rural de então
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Muitos anos antes, ainda na época da Iª Guerra Mundial, ele criara o Jeca Tatu, o seu personagem imortal surgido no conto Urupês, o caipira do Vale do Parnaíba, grotão paulista, de barba rala, pé bichado e chapéu de palha na cabeça, servindo-se dele como um paradigma nacional. Indolente, sugado por dentro pela lombriga, acocorado na beira da estrada pitando um palheiro, vendo, indiferente e apático, o mundo passar por ele. Matuto esse que nada mais era senão que a expressão acabada “de um complexo sistema de parasitismo em repouso”, cidadão exemplar da “Botocúndia” como ele denominou, irônico, o Brasil de então. De certo modo, ele viu a inapetência da burocracia, seu remanchar em tocar adiante o programa de sondagens e pesquisas do petroleo, como a encarnação do espirito lerdo do Jeca Tatu. Pode-se dizer que o enterro de Monteiro Lobato teve um curioso efeito energizante. Ele que fora durante muito tempo ridicularizado como uma espécie de Quixote da causa nacional do petróleo, um Policarpo Quaresma redivivo, lançou sobre os vivos o desafio de por em pé o seu ideal de ver o Brasil alcançar a auto-suficiência naquela matéria. A campanha do “O Petroleo é Nosso”, abraçada desde 1947 por pequenos grupos de militares nacionalistas e militantes comunistas, por jornalista e estudantes, pegou fogo a partir de então. Dois partidos haviam se lançado à liça: o dos que eram favoráveis ao monopólio estatal e o dos que acreditavam em ter que abrir os direitos de prospeção ao capital privado, nacional ou internacional. Durante os cinco anos seguintes, até a aprovação da Lei nº 2004, pertinente ao petróleo e à fundação da Petrobrás, sancionada pelo presidente Getúlio Vargas em 3 de outubro de 1953, a polêmica entre nacionalistas e “entreguistas”, correu solta pelo pais inteiro. É discutível que Monteiro Lobato, um homem favorável à livre iniciativa, defensor do partido “empresarial”, fosse concordar com a vitória do principio do monopólio estatal. Seja como for, a partir daquele momento, com o impressionante crescimento da Petrobrás (a maior empresa petrolífera não-americana no nosso continente) e o efeito que ela irradiou pela sociedade brasileira, a figura emblemática do Jeca Tatu, do brasileiro hostil ao progresso, começou a desaparecer do imaginário nacional. O site recomenda a leitura de: Lobato, Monteiro – O escândalo do petróleo e do ferro, São Paulo, Editora Brasiliense. Cohn, Gabriel - Petróleo e Nacionalismo, São Paulo, Difusão Européia do Livro
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