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Lembrando Saint-Hilaire

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» Lembrando Saint-Hilaire
» Os relatos de Saint-Hilaire
 
O sábio francês Auguste Saint-Hilaire (1779-1853) foi um dos primeiros cientistas vindos da Europa a poderem percorrer livremente territórios do Brasil Colônia. Isso foi possível graças à mudança da disposição da Corte portuguesa, instalada no Rio de Janeiro desde 1808, e que resolveu abrir-se às nações amigas. Durante seis anos, de 1816 a 1822, ele, infatigável, visitou as províncias do centro e do centro-sul do Brasil, recolhendo pelo caminho um proveitoso acervo botânico, registrando cada passo das suas andanças num saboroso diário de viagem, publicado mais tarde na França em diversos volumes que até hoje encantam os seus leitores como um retrato fiel e objetivo da paisagem e dos costumes do Brasil daqueles inícios do século XIX. O que Jean-Baptiste Debret, seu contemporâneo e conterrâneo, fez com o pincel, Auguste Saint-Hilarie fez com a pena. Falecido em 30 de setembro de 1853, celebra-se em 2003 os 150 anos da sua morte.

Rousseau e a botânica

"Se alguns exemplares dos meus relatos resistirem ao tempo e ao esquecimento, as gerações futuras talvez encontrem neles informações de grande interesse sobre essas vastas províncias, provavelmente transformadas, então, em verdadeiros impérios... ficarão surpreendidas ao verificarem que, nos locais onde se erguerão então cidades prósperas e populosas, havia outrora apenas um ou dois casebres que pouco diferiam das choças dos selvagens; que onde estarão retinindo nos ares os ruídos dos martelos e das máquinas mais complexas ouviam-se apenas, em outros tempos, o coaxar de alguns sapos e o canto dos pássaros; que, em lugar das extensas plantações de milho, de mandioca, de cana-de-açúcar e das árvores frutíferas, o que havia eram terras cobertas por uma vegetação exuberante, mas inútil."
Auguste Saint-Hilaire - prefácio de "Viagem à Província de Goiás", 1847

De certo modo, tudo começou com Jean-Jacques Rousseau e sua paixão por caminhadas. Desde garoto, ainda em Genebra, gostava de recolher amostras de folhas e de flores, hábito que conservou mesmo depois de alcançar os 60 anos de idade, quando instalou-se no parque do castelo de Ermenoville, norte de Paris, em 1770. O bem estar que sentia quando sai à cata das plantas para o seu herbário reforçou-lhe ainda mais a teoria de que o homem era bom por natureza e que dela não deveria se distanciar ou se apartar.

Caminhar em meio aos bosques, aspirar-lhe o ar puro, ter apenas o céu e as nuvens como proteção, fazia com que os indivíduos reencontrassem as suas raízes originais num mundo sem as falsidades e artificialismos do que passava então por civilização. As conjeturas que fez, expostas no seu fascinante estilo imagético, no Les Rêveries du Promeneur Solitaire (“Devaneio de um caminhante solitário”, 1776-7) e nas suas Lettres élémentaires sur la botanique (“Cartas elementares sobre botânica”), serviram para que aflorasse na Europa do século XVIII o que denominou-se de botânica romântica, cujos maiores expoentes foram o naturalista alemão Alexander von Humboldt, e os franceses Saint-Hilaire , Geoffroy e Auguste.

Vindo para o Brasil

Rio de Janeiro no tempo de Saint-Hilaire (tela de Eduardo Hildebrandt)
Este último, Auguste de Saint-Hilaire, filho da nobreza do interior da França, nascera no ano de 1779, em Orleans, cidade celebrizada na historia nacional pela presença de Joana D´Arc, manifestou desde cedo vocação pelo estudo do mundo natural. A tentativa de fazerem dele um homem de negócios, enviando-o por uns tempos ao porto de Hamburgo na Alemanha, redundou num nada. De volta à pátria, Auguste abraçou a causa dos naturalistas, fortemente inspirados pelo trabalho classificatório do grande Lineu (Systema Naturae, 1758) e pela sede de conhecimento por outras terras e mares desencadeada pelas espetaculares viagens oceânicas do capitão James Cook (realizadas entre 1769 e 1779). E, claro, pelo exemplo de Rousseau, sobre quem, ainda jovem de pouco mais de vinte anos, Saint-Hilaire escreveu uma monografia.

A grande oportunidade que surgiu para ele ir desbravar lugares remotos e pouco conhecidos para um sábio europeu deu-se quando o naturalista, então um respeitado professor do Museu de História Natural de Paris, soube da partida da missão do conde de Luxemburgo para o Brasil, em 1816. Saint-Hilaire moveu mundos e fundos para ser integrado à comitiva do legatário francês, que alçaria velas em direção ao Rio de Janeiro para resolver os problemas de fronteira da Guiana Francesa com o governo de Dom João VI.

Muito bem recomendado , calçado por um bolsa real de 3 mil francos anuais (aumentada depois para 6 mil), o suficiente para cobrir-lhe os custos das pesquisas, Auguste Saint-Hilaire, aos 37 anos, desembarcou no Rio de Janeiro no dia 1º de junho daquele mesmo ano. Na mesma ocasião ancorava o barco da missão artística francesa, liderada por Le Breton que junto trouxe os irmãos Taunay e o pintor Jean-Baptiste Debret (que veio a tornar-se, com seus pincéis, o maior cronista da vida cotidiana do Brasil daqueles tempos).

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