Rio Grande do Sul, o poncho e a pólvora - parte 3
Charqueadas e trigais
Nos finais do século XVIII, com a implantação das charqueadas na região de Pelotas e do rio Jacuí, um mercado bem mais vasto se abriu, pois, com a nova técnica da conservação de carnes, foi possível superar-se a exportação do gado em pé (bovino e muar). Era possível, doravante, ambicionar atingir, além do centro e do nordeste do Brasil, até os consumidores do mar do Caribe e dos estados sulistas dos Estados Unidos, visto que o charque era a alimentação básica dos escravos. Ironicamente, o alimento dos escravos era pago com...escravos. A chegada de levas deles ao território do Rio grande do Sul resultou, pois, da expansão da industria das carnes manufaturadas e salgadas, que se multiplicaram por Pelotas e beiras da Lagoa dos Patos e margens do rio Jacuí.
Com a vinda dos açoritas, desembarcados em 1752, a agricultura tomou um novo impulso com as plantações de trigo ao redor da cidade de Rio Grande, expandindo-se para outras áreas até ser destruída, ao redor de 1820, pela praga da ferrugem e pela ausência de um apoio governamental. Os açoritas, visto o desastre do trigo, tornaram-se então pecuaristas e charqueadores. A agricultura e a criação mais diversificada, de suínos e aves, só estabeleceu-se mais tarde com as colônias alemãs e italianas, entre 1824 e 1875, bem como foram elas quem trouxeram as técnicas industrias que permitem lançar os fundamentos da pequena industria do curtume, da metalurgia e da vitivinicultura. A pecuária de corte toma novo impulso com a criação dos frigoríficos estrangeiros, da Armour e da Swift, em 1917, tornando possível exportar carnes enlatadas e refrigeradas para o centro do país. O sucesso da chamada “economia colonial” deve-se preponderamente a distribuição de terras feitas entre os colonos, formando não apenas um dinâmico centro produtivo policultural, como também tornou-se um crescente mercado consumidor.
O gaúcho
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Gaúchos no descanso ( tela de Enrique Castells)
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A palavra “gaúcho”, o homem livre dos campos, foi aplicada inicialmente para definir um tipo humano arredio, o nômade do pampa, muitas vezes um desertor desobediente da lei e da ordem, que cavalgava ao Deus-dará numa área vastíssima, pelos “desertos”, formada por coxilhas, baixios ou canhadas, e matos capões, saltando sobre os arroios, banhados, sempre atrás de gado amansado ou chucro e de cavalos. Gente de laço e de doma, a sua cultura derivou de um amálgama entre os hábitos indígenas, adquiridos dos índios tapes, minuanos ou guaranis, e dos brancos iberos, resultando num caldeamento étnico muito próprio. Visto muitas vezes como “gaucho malo” ou como “ladrones, o Gente vagabunda que hiciese robos de ganados” nas áreas vizinhas a Montevidéu e Buenos Aires, tornou-se posteriormente símbolo do orgulho nacional (no caso dos uruguaios e argentinos) e regional (no caso dos sul-rio-grandenses). Deles disse José Hernandez “Não terá cova nem ninho, há de andar sempre fugido, sempre pobre e perseguido, como se fosse maldito; pois ser gaúcho..Caramba!...ser gaúcho é até um delito”(Martin Fierro, canto VIII, 230). Foram eles que, no transcorrer dos tempos, forneceram os escalões inferiores para as batalhas travadas entre portugueses e espanhóis e, depois por platinos e brasileiros, na luta pela posse do território que hoje pertence à Republica do Uruguai e ao Estado do Rio Grande do Sul.
Cronologia
1626 - primeiras reduções jesuítas no Rio Uruguai
1637 - destruição das reduções indígenas pelo bandeirante Raposo Tavares
1680 - Fundação por Manoel Lobo da Colônia do Sacramento, na margem esquerda do Prata, em frente a B. Aires
1737 - fundação de Rio Grande pelo brigadeiro José da Silva Paes
1750 - Tratado de Madri, Colônia do Sacramento é trocada pelas Missões
1752 - chegada dos açoritas. P.Alegre, fundada em 1756, torna-se com a invasão castelhana de Rio grande a capital definitiva do Rio Grande do Sul
1753 - início das Guerras Guaraníticas, destruição das missões. Fim da “época de ouro” das Missões (1720-56)
1776/7 - recuperação de Rio Grande. Colônia do Sacramento fica em posse definitiva dos espanhóis.
1824 - Colonização alemã do Vale dos Sinos
1875 - Colonização italiana do alto da Serra Gaúcha
Enfrentamentos ideológicos, políticos e partidários no RGS
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Farroupilhas preparando-se para a carga (tela de Antônio Parreiras)
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Ser uma fronteira "quente", permanentemente disputada, deu uma feição belicosa aos confrontos políticos e ideológicos do Rio Grande do Sul. Precisamente pelos limites do estado serem imprecisos, embaraçados pela vastidão das planícies, permitia as facções em luta procurar abrigo ou recursos em regiões muito além da fronteira. Era difícil para um força poder policiar um território tão amplo, permitindo com isso que as guerra tivessem larga duração, como deu-se com a Revolução Farroupilha, liderada por Bento Gonçalves, que, arrastando-se por dez anos , de 1835 a 1845, foi a mais longa das guerras civis brasileiras. A constância dos embates fez com que a exigência da polítização da população fosse sempre muito intensa, acirrando ainda mais os enfrentamentos partidários, criando uma cultura belicosa, de hostilidade entre os partidos, quase sempre polarizados em duas correntes poucas dispostas à conciliação, gerando cum clima propício à guerra civil.

Vocabulário:
Farroupilha: denominação de radicais na época do Império, termo pejorativo por que indicava representarem setores plebeus (farrapos)
Chimango (ou ximango): denominação vinda do Império, mas que na Republica foi dada pejorativamente (é um pássaro magro e rapinesco do sul do Brasil) aos republicanos de Borges de Medeiros, assim apelidado num célebre poema “Antônio Chimango”. Trata-se algo desprezível, feio e predador. Anteriormente, os seguidores de Castilhos, foram chamados de pica-paus, pássaro comum, vulgar.
Maragatos: o nome origina-se de uma região da Espanha ( Maragatia) de onde vieram imigrantes para o interior do Uruguai. Muitos deles tornaram-se peões nas estancias uruguaias e saiam para combater a mando dos seus patrões. O apelido era pejorativo, indicava eles serem estrangeiros, não-brasileiros
Trabalhista: origina-se do Labour Party da Inglaterra cujo programa foi adaptado por Alberto Pasquallini, o ideólogo do PTB gaúcho.
Bibliografia
Azevedo, Thales de -
Gaúchos: a fisionomia social do RGS, Salvador, Livraria Progresso Editora, 1958
César, Guilhermino - História do Rio grande do Sul: período colonial, Porto Alegre, Editora Globo, 1970
Félix, Leiva Otero - Coronelismo, borgismo e cooptação política, Porto Alegre, Editora da UFRGS, 1987
Franco, Sérgio da Costa - Júlio de Castilhos e sua época, Porto Alegre, Editora Globo, 1967
Love, Joseph - O regionalismo gaúcho, São Paulo, Editora Perspectiva, 1975
Pesavento, Sandra J. - República Velha gaúcha: charqueadas, frigoríficos, criadores, Porto Alegre, Editora Movimento, 1980
Reverbel, Carlos - Maragatos e Pica-paus: guerra civil e degola no RGS, Porto Alegre, Editora LP&M, 1985
Roche, Jean - A colonização alemã e o Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Editora Globo, 1969, 2 vols.
Santos, José Vicente dos - Colonos do vinho, São Paulo, Hucitec, 1978
Velinho, Moisés - Capitania D'El Rey, Porto Alegre, Editora Globo, 1964