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O Encilhamento: a nuvem de papel

Ciclicamente o Brasil, não importa o regime vigente, é atormentado por profundas crises de confiança que corroem até as raízes as suas instituições políticas e financeiras, arrastando junto a economia. Já nas portas da inauguração do regime republicano, entre 1889 e 1891, o país sentiu-se profundamente frustrado em suas melhores esperanças devido ao famigerado Encilhamento, tido como o primeiro e um dos mais graves baques financeiros que o Brasil sofreu, momento em que, especialmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, milhares de pequenos investidores perderam tudo depois de terem apostado alto nas expectativas de bons negócios falsamente criadas.

Mrs. Tootal!

Ruy Barbosa (charge de Gilberto Lago)
"A riqueza (do Brasil) é tão abundante que a própria agiotagem internacional, endividando o pais, não lhe embaraça o progresso: compromete-o mas o fertiliza."


Pedro Calmon - História Social do Brasil, t.3, 1939


Atribui-se a Lawrence Sterne, o novelista inglês, a certeza que um nome próprio traz em si, simbolicamente, como uma tatuagem fixada num corpo, uma profissão a seguir, um destino a cumprir. Um Eurosino ou um Tiburcio, deus-nos-acuda, condenam-se desde o batismo à tarefas modestas, submergidos pelo próprio nome que carregam a levar uma vida anônima. Que responsabilidade , por sua vez, chamar-se de Dante ou de Alexandre! Assim imagine-se o espanto do nosso Ministro da Fazenda Bernardino de Campos quando recepcionou no Rio de Janeiro, em abril de 1898, o representante dos Rothshild, um tal de... Mr. Tootal! Coloquem-se, por um momento, no lugar do pobre Bernardino. O país quebrado e ele tendo que acertar os prazos do célebre funding loan obtido na Europa por Campos Salles, com um agente bancário que tem um enfático Tootal escrito no seu cartão!
Nem completara dez anos, e o regime republicano já se endividara grosso. Devia-se , como sempre, para meio mundo. As Revoltadas da Armada, a Revolução Federalista e a Guerra de Canudos, somadas ao surto inflacionário do começo da década de 1890, fizeram com que fosse impossível pagar-se os credores. Descartando-se a moratória, pensou-se como solução tomar-se um só grande empréstimo, um colosso de dinheiro que resgatasse o devido: um fundig loan. Depois de 6 meses de negociações, a Casa Rothshild de Londres concordou, pelo acordo de 15 de junho de 1898, em emitir títulos no valor de até 10 milhões de libras, com juros de 5% ao ano, resgatáveis em 63 anos. Deu-se em garantia as hipotecas das rendas alfandegárias da capital. Saldava-se tudo e o país começava vida nova. Garantido o dos credores, o Brasil passou a receber, até 1911, 46% dos investimentos financeiros internacionais na América Latina.

O Encilhamento

A origem de toda essa confusão que nos levara ao megaempréstimo, remontava a um neologismo esportivo: o Encilhamento. Denominava-se assim o local cheio de barracas, no Derby ou no Jocquey Clube, onde se amontoavam, ao redor dos jóqueis encilhando cavalos, os grupos de jogadores, apostadores e demais viciados em corridas de cavalos, que se misturavam aos curiosos em geral. Ali, na beira da raia, um pouco antes da larga do páreo, se imiscuíam para palpitarem sobre as corridas e discutirem sobre as qualidades dos potros e éguas. O clima de confusão, de desordem, de febril jogatina que ali reinava fez com que , por injusta mas correta comparação, assim fosse denominada a instável e claudicante política econômica da nascente república brasileira.
As intenções do ministério da fazenda como sempre eram boas. O projeto de Ruy Barbosa – a Lei Bancária de janeiro de 1890 - , que ficou com a triste fama de desastrado ministro, manchando-lhe a reputação, tratou de lançar as bases de uma política industrial nacional , inspirada na legislação protecionista americana de 1862, adotada por Lincoln, apoiando, com medidas legais, a emergência de sociedades por ações. Levantando obstáculos alfandegários à livre importação direta, esperava-se formar com a reserva de mercado um clima favorável ao nosso despertar fabril. O público desviaria parte da sua poupança na aquisição de ações fazendo com que esta operação servisse como lastro para financiar a futura produção de manufaturados. Permitiu-se que os bancos (reeditando uma politica já adotada anteriormente pelo gabinete do monarquista Ouro Preto, derrubado em novembro de 1889), desconhecessem o lastro metálico nas futuras emissões em papel-moeda , caucionando-as só com apólices: “Papel garantiria papel”. Satirizando a euforia especulativa que atraiu tanta gente de classe média, que quebrou os tarros de barro e os cofrinhos cheios de moedas para ir poder jogar na Bolsa de Valores, Arthur de Azevedo na sua peça Tribofe, fez blague deles:


Que ajuntamento
Que movimento
No encilhamento
Se faz notar!
Toda essa gente
Quer de repente
Rapidamente
Cobre apanhar

A fundação de uma economia monetária

O objetivo secundário disso era, de supetão, num só choque impressionante, criar uma economia monetária num país que recém decretara o fim do escravidão, época em que a maioria da população, livre ou cativa, vivera do favor, da caridade, da esmola e do escambo, e não das relações monetárias (a circulação do dinheiro em qualquer sociedade é um valioso medidor da liberdade que nela se usufrui). Liberava-se a emissão de dinheiro aqui dentro e atraia-se o capital vindo de fora. O resultado, entretanto, foi um desatino. Não só, em pouco tempo, os agentes autorizados pelo governo, liberados de qualquer vigilância oficial, assaltados por “má-fé emissiva”, perderam o controle sobre o que imprimiam (em apenas um ano , o de 1890-1, a circulação de papel-moeda aumentou 75%), como a aloucada especulação que se seguiu atraiu uma imensa fauna de escroques e outros traficantes de esperanças, que empenharam-se em vender papéis de sociedades fictícias, de passar ações de projetos que jamais saíram das gavetas (entre as mais delirantes e folclóricas, foi a dedicada a uma ficção da piscicultura: criar o peixe “bijupirá”, idéia de um banqueiro, pelo menos foi o que atestou o Visconde de Taunay, um monarquista assumido, na sua novela “O Encilhamento”, de 1894). O desastre inflacionário, segundo John Schulz, contribui para o clima de frustração que abalou o país de cima a baixo, retratando-se na desvalorização do mil réis (de 2 mil por um dólar em 1889, saltou para 7 mil réis o dólar em 1900).

A expansão monetária entre 1889 e 1900 (Fonte: Ronaldo Domingues, o nascimento da república)

Num repente as esperanças de prosperidade e rápida industrialização viraram fumaça. Tudo tornou-se uma nuvem de papel que nada valia. A confiança geral e as expectativas que haviam em torno do novo regime se esvaíram e os canhões da Armada do Almirante Custodio de Mello troaram sobre a cabeça do Marechal Deodoro da Fonseca. Só um dinheiro dos Rothshild, que aliás nem saiu de Londres (foi usado para tapar o rombo do Encilhamento), é que, seis anos depois, acalmou os ânimos do mercado brasileiro.

    


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