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As vítimas do Apocalipse


Em Kunungu, ao sudoeste de Uganda, o reverendo Joseph Kibwetere juntou seu nome ao de tantos outros líderes de fanáticos que, inspirados no Apocalipse, levaram os seus seguidores a praticarem assassinatos e, depois, a se suicidarem. Até o momento as autoridades revelaram a existência de 330 vítimas, 78 delas crianças, todos crentes da seita Restauração dos Dez Mandamentos de Deus. Saiba os motivos mais profundos da nefasta influência que o Livro da Revelação exerceu até os dias de hoje sobre inúmeras seitas milenaristas cristãs.


Imagens do Apocalipse: o dragão das sete cabeças

"Digno és tu de receber o livro e de abrir seus selos, pois foste imolado e, por teu sangue, resgataste para Deus, homens de toda a tribo, língua, povo e nação. Deles fizeste, para nosso Deus, uma Realeza e Sacerdotes; e eles reinarão sobre a terra" - Apocalipse 5-6

A redação do Apocalipse: transcorria o ano de 845 pelo calendário romano, quando baniram o apóstolo João para a ilha de Patmos, no Mar Egeu. O evangelista era mais um entre tantos outros, vítimas da campanha anticristã levada a efeito por César Domiciano, que estendera a perseguição a todos os cantos do seu império. Curiosamente, os cristãos, ao negarem os deuses pagãos ou o culto ao imperador, eram escorraçados, presos, ou sentenciados, acusados de pregar o ateísmo! Eles, por sua vez, perguntavam-se, visto o martírio que sofriam, por onde andava o Salvador? Porque os deixava padecer assim tão vilmente?

Foi para consolá-los e animá-los, naquela horas terríveis de desesperança, que João, inspirado por um anjo, recorreu à pena (a moderna crítica pensa ter sido outro o autor).Num período bem curto, supõe-se que entre os anos de 95-6 do calendário cristão, ele redigiu o Apocalipse, que significa A Revelação. Remeteu-o em seguida às pequenas igrejas cristãs da região, entre elas a de Esmirna, Pérgamo e Filadélfia. Para iludir a censura, o apóstolo refugiou-se num palavreado obscuro, recorrendo a imagens arcaicas pagãs; um código só inteligível aos membros da seita cristã. Por vezes, o texto lembra o registro de um delírio ou de um pesadelo.

A literatura apocalíptica: Sabe-se que dentro do judaísmo havia uma farta literatura apocalíptica (sempre que nos vemos mal, ou nos sentimos oprimidos, a linguagem fica confusa e elíptica), basta recordar as de Daniel, Isaías, Zacarias, Joel, e Ezequiel, ou o Ma'amar ha-Ge'ullah, o Tratado da Redenção. Porém nunca se fizera um uso tão abusado dela como João o fez. O que o qualificou como um dos remotos inventores da narrativa fantástica.

Ele povoou o Livro da Revelação com aparições divinas misturadas à assombrações tenebrosas, além de estar ali presente toda a fauna da zoologia do sobrenatural (dragões, serpentes, um cordeiro com sete olhos, uma besta cor escarlate com 7 cabeças e 10 chifres, outra com apenas dois chifres, leões, touros, uma águia com olhos na frente e atrás, além de cavalos, muitos cavalos, os mais conhecidos são os que trazem os cavaleiros do apocalipse: a guerra, a fome, a peste e a morte).


Os quatro cavaleiros do Apocalipse

Cristo como Vingador: mas o mais impressionante, é a substancial mudança da imagem de Cristo. A figura doce, tolerante e compreensiva, o Jesus do "amai-vos uns aos outros", presente na maioria dos Evangelhos, foi substituída por um Jesus guerreiro, um vingador, que desce dos céus montado num cavalo branco, fazendo com que uma espada saia da sua boca. Nesta Segunda Vinda, antecedido pelo fogo do turíbulo lançado pelos anjos do alto dos céus para a terra, e pelo som das sete trombetas, ele virá salvar os que foram marcados e cujos nomes estavam no Livro do Cordeiro. Porém executará uma impiedosa política de extermínio contra os que teimam em adorar a besta, os idólatras pagãos: Se alguém está destinado à prisão, irá para a prisão; se alguém deve morrer pela espada, é preciso que morra pela espada. (Apocalipse 12-13)

O milenarismo e o exército dos santos: arrebanhará os eleitos mas terá contra si os numerosíssimos agentes da Besta. Os escolhidos, os que acatarem sua mensagem, estarão seguros, pois, ainda que sejam mortos, viverão os lado do Senhor ainda por mil anos. Em seguida, formando o exército dos santos, esses poucos felizes eleitos, recolhido à cidade santa, logo estarão sitiados por Gog e Magog.

Eles, os generais do Mal, segundo o profeta que os guia, farão de tudo para destruir o santuário dos beatos, mobilizando para isso todas as suas energias. Neste empreendimento, a Besta conta com o aberto apoio de governos e autoridades, e não terá descanso enquanto não reduzir tudo a pó. Mas os fiéis, cercados e famintos na cidade santa, poderão estar certos que, num último instante, quando estiverem à beira da exaustão, o Senhor enviará dos céus, trazido pelos anjos, o fogo e o enxofre que dizimará as tropas do mal. A lei do Cão então será banida, e a Lei de Deus restaurada!

Os diversos movimentos milenaristas: essa é uma das tantas passagens do Livro do Apocalipse que tem inspirado a maioria dos movimentos milenaristas e apocalípticos que emergiram ao longo dos dois mil anos de história do cristianismo. Aos cátaros, aos taboritas, e anabatistas do medievo, juntaram-se os muckers; os conselheiristas de Canudos, os suicidas do Pastor Jim Jones da Guiana, os seguidores do malfadado Davi Koresh e, em sua forma mais modernizada, os integrantes do Templo da Ordem Solar, os ciber-suicidas da Califórnia.

O apocalipse como mistificação: D.H.Lawrence, que dedicou um inquietante e famoso ensaio sobre o Livro da Revelação(Apocalypse,1929), ficou impressionado pela verdadeira "orgia de mistificação" que a narrativa contém . O delírio verborrágico dela, a seu ver, só atraía "cérebros de segunda classe" fascinados pelas impressões surrealistas, vingativos tribunais divinos, carregado de previsões bombásticas e ameaças de espectros bruxuleantes, que o livro contém. Trata-se, na verdade, de um confuso manifesto político de gente desesperada, perseguida e espezinhada, a quem só restou lançar maldições e desaforos metafóricos ao mundo opressivo que os cerca. É uma cartilha do ressentimento, perfeitamente explicável no cenário de perseguições em que os cristãos dos primeiros tempos viviam.

A sociologia do fanatismo. Quanto às explicações encontradas para o surgimento do fenômeno milenarista, que irrompe nas mais diversas latitudes do mundo cristão (na Europa, nos Estados Unidos, no Brasil, e na África), a sociologia do fanatismo tem-se enredado na sua complexidade, Para Euclides da Cunha, por exemplo, a aparição do beato guerreiro no Sertão brasileiro, devia-se ao abandono e ao isolamento sócio-histórico do sertanejo, que se somava à sua intensa miscigenação racial, e à crendice de ignorantes. Esta conclusão, sabe-se, não pode ser generalizada.

As seitas apocalípticas americanas, que ensangüentaram ultimamente o noticiário da mídia, brotaram em estados ricos (a Califórnia e o Texas têm as mais altas rendas per capita do país) e, em hipótese alguma podemos supor que resultem, na era do telefone, do fax, do computador e do satélite, de algum tipo de isolamento. Nem assacar-lhes a falta de instrução, pois revelou-se que o nível médio dos seguidores de muitas delas atingia o grau universitário. Portanto, a equação que somava a pobreza à incultura para igualá-la ao fanatismo, está muito longe de explicar a irrupção do fenômeno.

A tragédia que vitimou os seguidores da seita de Kunungu, a Restauração dos Dez Mandamentos de Deus, em março do ano 2000, no sudoeste da república africana de Uganda, onde mais de 330 cadáveres foram encontrados, mostra que a mortífera febre apocalíptica é universal e "democrática" dentro do cristianismo, dizimando os seus adeptos tanto em países ricos como nos pobres (as informações que recebemos dizem que a seita de Uganda, apesar de localizar-se numa região pobre, era composta em sua maioria por seguidores com escolaridade bem acima da média local).


O poeta John Milton (1608-74), inspirou-se no Apocalipse
Inspirando-se no Apocalipse: só excepcionalmente a leitura do Apocalipse serviu de elixir a cérebros privilegiado como os de Dante e Shelley. O poeta John Milton nele inspirou-se para imprecar contra os reis europeus no seu conhecido Iconoclasta, escrito em 1652. Foram as exceções. No geral , desgraçadamente, tem sido uma incitação à loucura e ao delírio religioso, uma espécie de droga sorvida por profetas fanáticos e seus inocentes seguidores. Logo, não foi muito bom a para a saúde do cristianismo ter mantido o Livro da Revelação no cânon definitivo da Bíblia. Hoje, do alto dos seus quase dois mil anos de existência, é de se lamentar o estranho poder que a leitura do Apocalipse ainda exerce sobre mentes primitivas, sendo um perigoso instrumento na retórica dos charlatães, ou de guias religiosos frustrados e ressentidos.

O quadro trágico das seitas apocalípticas

Seita Guia Local Nº de Vítimas
O Templo do Povo Jim Jones Guiana 914
Os Davideanos David Koresh Waco,Texas, EUA 82
Restauração dos dez Mandamentos de Deus Joseph Kibwetere Kunungu, Uganda + ou - 1000




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