Russos ao mar
 Pedro, o Grande, fundou a marinha russa em 1696 |
O czar marinheiro
"Uma colheita de dor desceu sobre as terra da Rússia" - A sagração de Igor
Ao ver o seu novo iate, o St Paul, o czar Pedro encantou-se. Não era grande, longe disso. Mas que linhas, que mastro! Na entrada do verão de 1694 ele arrastara desde São Petersburgo, bem mais ao sul, até o pequeno porto de Arcângel, no Mar Branco, boa parte da sua corte. Uns 300 palacianos mais os pobres diabos que arrastavam os grandes baús da rouparia e até 24 canhões e mais de mil mosquetes para reforçar a guarnição daquele descampado perdido no Ártico. No caminho o czar nomeou dois amigos, Romodanovsky e Buturlin, como almirante e vice-almirante da futura esquadra que ele imaginava construir. Nem um dos dois jamais pusera o pé num barco sequer. Para se garantir, com o titulo de almirante real, Pedro indicara para assessorá-los um tal de Patrick Gordon, um inglês, que pelo menos atravessa o Canal da Mancha antes de chegar a Rússia. Assim, num passeio, nasceu a marinha russa.
Dia bonito, brisa suave, mar calmo, não houve quem reclamasse da intimação de Pedro para que os mais chegados embarcassem com ele no St Paul para uma pequena aventura. Lembrou-se de visitar o Mosteiro Solovetsky que distava, calculou-se, uns 100-120 quilômetros dali. Não demorou para o céu se turvasse. De súbito Netuno soltou os pulmões sobre a frágil embarcação. Rajadas de vento forte assolavam aquela casta de noz. A bordo, os cortesão maldiziam a hora de terem embarcado. Mas como resistir a uma ordem daquele gigante, um rapagão de 22 anos que , por um nada, entregava-se à fúrias. O homem era o dono da Rússia, era o senhor de tudo!
 O Mar de Barents, local da tragédia do Kursk |
As ondas viraram vagalhões. Por sorte o Arcebispo Afanásio estava a bordo. Não deixariam o mundo em pecado. Fizeram o infeliz cambalear para cá e para lá no convés dando a todos os Últimos Sacramentos. Pedro, porém, não desesperançou-se. Ativo, enérgico, pôs-se aos gritos a desafiar o deus do mar. A determinação dele teve efeito. Empunhado o timão, com o piloto indicando-lhe a possível direção de um golfo seguro, rumou para a salvação. Contornando os recifes que, por toda a parte, pareciam querer arrombar o iate, após 24 horas de terror o barco singrou as águas mansas do minúsculo Mosteiro de Pertominsk. Há lá até hoje uma placa escrita em holandês dizendo: "A travessia foi feita pelo Capitão Pedro no verão de 1694."
Expedições russas
Não se pense que tal dissabor assustara Pedro. Foi apenas o começo. Quase trinta anos depois desse incidente, em 1723, no dia do aniversário dele, a marinha russa - agora sim já merecia chamar-se assim - fez uma regata em homenagem ao czar, tornado Patriarca da Marinha Russa. Comemorava a grande façanha do governo de Pedro, o Grande - o Báltico passara a ser uma mar russo. Animado pela vitória na terrível Guerra do Norte contra o rei Carlos XII da Suécia, o grande czar tinha ainda outros sonhos.
Chegar pelo Ártico à Sibéria, à China, ao Kamtchaka, ao Alasca, fosse onde fosse, um barco russo teria que aportar. Mas isso ele não viu. Morto em 1725, quem levou adiante seus projetos expedicionários foi seu braço-direito, o poderoso Ménshikov. Foi assim que, em seguida, por volta de 1733, a Rússia incorporou o Murman More (hoje Mar de Barents) ao seu império: um colosso gelado, cheio de leões marinhos, focas, vento e solidão. Um pouco antes disso, um outro desbravador a soldo do czar, chamado Vitus Bering, dinamarquês como Barens, abriu caminho pelo Ártico, costeando o litoral setentrional siberiano até achar uma passagem - depois chamada de Estreito de Bering - que o ligasse para o Pacífico, dali alcançando a península de Kamtchaka e o Mar do Japão.
Incompatibilidade com o mar
Somente durante o regime soviético, nos anos de 1930, é que os russos expandiram-se por lá, plantando bases e observatórios nas margens daquelas águas esquecidas do mundo. Em parte a demora, fora as questões estratégicas, devia-se a que normalmente era difícil convencer um russo ir para o mar. Povo continental, tratando miticamente a russii zemlya, o chão firme em que pisam, eles são ursos de terra. Comumente viam como uma desgraça ter um filho convocado para servir na marinha. Tanto é que os marujos russos ficaram célebres não por façanhas navais mas pelas rebeliões que protagonizaram (contra o czar em 1905 e 1917, e, de novo, em 1921, desta vez alçados contra o próprio regime comunista que eles ajudaram a implantar).
 O encouraçado Potemkim rebelado (foto Eisentein) |
O expurgo do capitão dos submarinos
Stalin também não gostava deles. A então recente frota de submarinos soviéticos foi mais abalada pelos expurgos que ele ordenou em 1938 do que os estragos feitos pelos nazistas ao invadirem a União Soviética em 1941. O tirano desconfiara da insistência do seu comandante Pavel Dybenko, um ex-herói de 1917, um grandalhão que pressionava para que se construíssem mais submersíveis. Sendo uma arma náutica de ataque, Stalin deduziu que se autorizasse os estaleiros soviéticos a duplicá-los, como queria o desventurado Dybenko, Hitler - naquele momento azeitando a sua máquina de guerra - poderia considerar aquilo uma provocação. Um executor da NKVD, em data incerta, matou-o com um tiro na nuca num calabouço em Moscou. É, de fato, os ursos nunca se deram bem no mar.
 Stalin desconfiava dos submarinos |
