BUSCA + enter






Os heróis punidos | Do Homem-Máquina ao Homem Neuronal | Humanistas, Reformadores e Cientistas | O Homem Neuronal | Bibliografia

A Revolução da Biogenética


Prometeu, punido por ter desafiado os deuses

Os heróis punidos

Pode-se dizer que boa parte da mitologia antiga, grega, romana ou oriental, enfatiza os perigos que incorre o ser humano ao tentar ultrapassar os limites fixados com leis de ferro da Natureza, amparada pelos deuses. Basta lembrar a lenda de Ícaro, o jovem filho de Decalião que tentou voar e terminou tragicamente, ou ainda a tão conhecida história do titã Prometeu que, desconsolado com a ignorância e miséria dos homens, roubou o fogo sagrado dos céus para ajudá-los a sair do embrutecimento em que se encontravam.

Os exemplos são inúmeros e até hoje são sempre lembrados quando a ciência avança sobre áreas que consideramos melindrosas ou sagradas. No entanto, os homens curiosos e cientistas corajosos e capazes, mesmo arriscando suas vidas, jamais negaram-se a ir em frente. Tiveram que enfrentar a incompreensão das autoridades, o fanatismo e a superstição do povo comum, a revolta do clero e por vezes o calabouço, o exílio, a pobreza forçada ou a fogueira por terem defendido concepções que hoje consideramos absolutamente aceitáveis e naturais mas que no tempo em que foram proferidas foram consideradas heréticas ou demoníacas.

Obviamente que uma das mais delicadas é a que trata da criação de um novo ser: quando o Homem, ao arrepio de Deus, tenta imitá-lo e dedica-se a criar, com seus próprios recursos, um ser humano. Existem, en quase todas as culturas, uma infinidade de histórias que registram essas tentativas fracassadas. Além do Prometeu dos gregos, uma dessas narrativas lendárias mais antigas diz respeito ao Golem, uma Criatura que teria sido forjada pelos judeus de um gueto da Polônia no século XII. Após o esforço de terem pronunciado 221 palavras cabalísticas dos modos os mais diversos possíveis eles encontraram a fórmula mágica para fazer do barro um ser humano. A Criatura, que não dizia uma só palavra, foi marcada na testa com a palavra hebraica Emert (Verdade), para distingui-lo dos demais, mas depois de terem perdido o controle sobre o Golem tiveram que destruí-lo, transformando-o de novo em pó.

O Mito de Prometeu

"Os benefícios que fiz aos mortais atraíram-me este rigor. Apoderei-me do fogo, em sua fonte primitiva: ocultei-o num cabo de uma bengala, e ele tornou-se para o homem a fonte de todas as artes e um recurso fecundo." - Ésquilo - Prometheus Desmontes, circa de 463 a.C.

Mas não só em lendas judaicas medievais ocorreu a idéia do Homem imitar Deus. A literatura também o fez. Em 1774, o escritor alemão F. W. Goethe publicou um pequeno poema (Prometheus)com apenas oito estrofes, no qual lançou o grito de guerra do Prometeu redivivo. O titã descrito por Goethe não aceita mais venerar Zeus, dizendo ser a divindade invejosa e inservível por que em mais nada ajuda o Homem. Ele sim, liberto da vassalagem divina, iria doravante criar outros homens que, em tempo, viriam ser iguais a ele. Esses novos homens não teriam mais nenhum compromisso com a devoção aos deuses, seriam totalmente livres. Essa pequena estrofe serviu de inspiração para que depois surgisse o culto ao Gênio, ao homem extraordinário que, sozinho, constrói o seu destino sem temer a mais ninguém e a mais nada. A partir de então o titã tornou-se um dos heróis mitológicos favoritos do Movimento Romântico e, não só dele, até o materialista Karl Marx confessou que seu herói favorito - o seu homem-modelo - também era Prometeu.

Prometheus *

(Poema de F.W Goethe, de 1774)

"Encobre o teu Céu ò Zeus
com nebuloso véu e,
semelhante ao jovem que gosta
de recolher cardos
retira-te para os altos do carvalho ereto

Mas deixa que eu desfrute a Terra,
que é minha, tanto quanto esta cabana
que habito e que não é obra tua
e também minha lareira que,
quando arde, sua labareda me doura.
Tu me invejas!

(...)

Eu honrar a ti? Porque?
Livras-te a carga do abatido?
Enxugaste por acaso a lágrima do triste?

(...)

Por acaso imaginaste, num delírio,
que eu iria odiar a vida e retirar-me para o ermo
por alguns dos meus sonhos se haverem
frustrado?

Pois não: aqui me tens
e homens farei segundo minha própria imagem:

homens que logo serão meus iguais
que irão padecer e chorar, gozar e sofrer
e, mesmo que forem parias,
não se renderão a ti como eu fiz"

(*) Prometeu foi um titã da mitologia grega que roubou o fogo (a sabedoria e a ciência) dos céus. Foi punidos por Zeus com o castigo de ficar encadeado a uma rocha no Cáucaso, onde uma águia diariamente lhe bicava o fígado. Sua sina foi teatralizada pela primeira vez por Ésquilo (525-456 a.C.), no século V a.C., com o titulo de Prometeus desmotes

Prometeu tornou-se, desde os tempos de Ésquilo (a tragédia foi representada no século V a.C., em Atenas), o símbolo da eterna insatisfação humana com seu destino. O Titã que não se conforma nunca com os acasos e a inconstâncias da Natureza e que se revolta contra a tirania dos deuses. Prometeu é o homem que tenta construir o seu próprio destino sem aceitar interferência divina. Enquanto o herói da lenda grega teve de suportar o suplício, o moderno Prometeu tem um como tarefa modelar à sua feição e imagem, não só o Mundo como a si mesmo. Façanha essa que agora é possível porque surgiu um novo tipo fogo, um fogo (o conhecimento) não mais roubado dos Céus mas sim desenvolvido por ele mesmo e formado pela Ciência e a Tecnologia.

O Monstro Frankenstein

A adesão a esse novo Prometeu Renascido, que emergiu do Movimento Iluminista e da Revolução Industrial do século XVIII, filho da Razão e da Técnica, não foi uníssona. Muito pelo contrário. E a oposição a ele não partiu só da Igreja Católica e dos pastores da Igreja Reformada. Os poetas, escritores e intelectuais do Movimento Romântico que então começava a predominar no cenário cultural europeu, também manifestaram seus temores frente ao novo titã. Em 1818, Mary Shelley, esposa do poeta Percy Shelley, escreveu uma novela gótica que assustou todo o mundo: Frankenstein.


Frankenstein, a criatura-monstro
Na novela, um talentoso médico e cientista de nome Frankenstein tenta dar vida a uma série de membros e órgãos humanos retirados de cadáveres distintos. Depois de várias tentativas laboratoriais, utilizando-se largamente de choques e correntes elétricas, a Criatura desperta (naquela época difundiram-se as experiências feitas desde 1800 com a bateria elétrica de Volta e a eletricidade animal de Galvani). Em pouco tempo, ao escapar do fantástico laboratório do dr.Frankenstein, o Monstro de forma humana vai deixando um rastro de mortes e de pavores em sua fuga. Termina por ser incinerado por uma massa de camponeses assustada e furiosa. Portanto, o Prometeu de Mary Shelley (o dr.Frankenstein) ao tentar rivalizar-se com Deus na tentativa de também dar a vida a alguém, fez por gerar no seu laboratório uma anomalia, uma perigosíssima ameaça à comunidade.

O medo ao novo

De certo modo, muitas das fobias antigas voltaram à luz com a notícia da clonagem de uma ovelha adulta feita na Escócia pelo Instituto Roslin, em 1997. Governos, igrejas, seitas religiosas de todas as crenças, manifestaram profundo receio perante a possibilidade de se clonar, em breve, um ser humano. As sanções e ameaças feitas aos cientistas, caso eles tentem isso, variam de simples negação de verbas federais até medidas mais rigorosas como pena de prisão. Isto tudo afinal é muito natural. Toda inovação revolucionária provoca um choque ético na humanidade. Mas com o tempo, as barreiras uma a uma vão caindo, e aquilo que foi encarado certa vez como uma blasfêmia, ou um crime contra Deus, passa a ser visto com toda a naturalidade. Quem se negaria hoje a vacinar-se contra febre amarela. No entanto, a sua obrigatoriedade introduzida no Rio de Janeiro pelo cientista e sanitarista Dr. Oswaldo Cruz, provocou a Revolta da Vacina de 1904.

Feita essa ressalva é certo que Prometeu, quer queiram ou não, irá cumprir a sua promessa feita nos tempos do Romantismo de conseguir fazer nascer criaturas à sua imagem, pois o homem moderno está condenado a ser "o senhor e dono da Natureza".

|



 ÍNDICE DE ATUALIDADE





 
 » Conheça o Terra em outros países Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2002,Terra Networks, S.A Proibida sua reprodução total ou parcial
  Anuncie  | Assine | Central de Assinante | Clube Terra | Fale com o Terra | Aviso Legal | Política de Privacidade