A crise marcha para mais ao sul
Aproveitando-se do apoio da Otan e da solidariedade da mídia ocidental, que fez com que os albaneses praticamente se tornassem os donos exclusivos de Kosovo (que nunca pertenceu ao albaneses ou à Albânia), no princípio do ano de 2001 o movimento guerrilheiros albaneses espalhou-se para o Sul. O alvo deles agora não é mais Kosovo, ocupado por tropas da Otan, que tentaram inutilmente defender a minoria sérvia que lá morava, das agressões da maioria albanesa, mas sim a vizinha Macedônia. A intenção dos separatistas albaneses do Ushtria Clirimtare Kombetar [UCK-Exército de libertação nacional], cujo líder é Ali Ahmeti, é arrancar um terço daquele país para integrá-lo a Kosovo e, depois disso, formarem a Grande Albânia, composta pela Albânia propriamente dita, por Kosovo, e por um pedaço da Macedônia. O projeto da Grande Albânia não conta, porém, com a simpatia dos países integrantes da Otan, que lançaram-se num ofensiva diplomática para fazer com que o governo macedônico amplie a participação dos albaneses macedônicos no governo para evitar dessa forma mais uma longa e sangrenta guerra civil na região balcânica. Enquanto isso, períodos de trégua entre os guerrilheiros albaneses e as tropas macedônicas são sucedidos por atentados e contra-ataques de parte a parte.
Milosevic Frente ao Tribunal de Haia
Afastado do poder, visto ter sido obrigado a capitular frente ao bombardeio de 72 dias da Otan e os Estados Unidos, o presidente Milosevic passou a fazer parte de uma estranha negociação. O novo governo da Iugoslávia (reduzida à República da Sérvia e a Montenegro) aceitou trocar o ex-presidente, acusado pelo Tribunal Internacional de Haia como criminoso de guerra, por uma ajuda financeira de U$ 1,300 milhões. Milosovic, que havia sido detido, foi então repentinamente enviado, preso, para Haia, onde será julgado por um conjunto de juízes instrumentalizados pelos interesses ocidentais (não da ONU). Assim sendo, constrangia a entregar um seu ex-dirigente em troca de dinheiro, a República da Sérvia encerra melancolicamente o século XX, onde, por várias vezes (contra os austro-alemães na Primeira Guerra Mundial, contra os nazistas na Segunda Guerra Mundial, contra os stalinistas na época da guerra fria e, finalmente, contra os bombardeios que a Otan lhe moveu durante a crise de Kosovo), lutou com extrema coragem e grande valentia. A Sérvia exauriu-se. A "venda" de Milosevic foi a última gota da taça da amargura que ela se viu obrigada a engolir.
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Uma igreja sérvia destruída em Kosovo e outra em pé, em Skopje, capital da Macedônia
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A responsabilidade é coletiva
Os sérvios, particularmente o seu líder, o ex-presidente Milosevic, foram considerados pela opinião da mídia ocidental como os culpados maiores pela tragédia que se abateu sobre a ex-república socialista da Iugoslávia. Comparam-no, em seu nacionalismo extremado a Hitler, chamaram-no "o príncipe negro dos Bálcãs". Porém a responsabilidade deve ser estendida a todas as lideranças da região. O assessores do ex-presidente Franjo Tudjman da Croácia, falecido em 2000, reconheceram, depois dos infaustos acontecimentos que eles se precipitaram no seu afã de conquistar a autonomia plena em 1991, pois não levaram em conta os sentimentos dos sérvios que viviam na Croácia e que, do dia para noite, perderam a cidadania. Não imaginaram que eles fossem ter uma reação negativa quando viram o escudo quadriculado (de triste memória para eles, visto que era o símbolo do Estado Croata fascista que massacrara os seus antepassados em 1941) dominar a nova bandeira da República Croata recém-proclamada. Também merece a crítica Alija Izetbegovic, o líder muçulmano da Bósnia, um antigo militante nacionalista pan-islâmico que, contra todas as advertências que lhe fizeram os representantes dos bósnios croatas e dos bósnios sérvios, assim que foi eleito em 1990, resolveu proclamar uma República da Bósnia de maioria muçulmana, jogando desta forma, irresponsavelmente, a pequena região numa guerra étnica e religiosa com dramáticas conseqüências para a cidade de Sarajevo e para todo o povo muçulmano, que vivia em áreas onde eram minorias, expondo-o a perseguições e atrocidades, tanto de sérvios como dos croatas.
Fragmentação dos Bálcãs, a Morte de uma Nação
Com o acordo de Dayton, em novembro-dezembro de 1995, seguida pela intervenção da Otan, a Bósnia foi esquartejada, divida num fragilíssima federação muçulmano-croata da Bósnia-Herzegovina (capital Sarajevo) e na República Srpska (capital Pale) dos sérvios-bósnios, onde todo mundo passou a se odiar ainda mais. Portanto, a culpa é coletiva. Todos os lideres dos Bálcãs, fossem sérvios, croatas, muçulmanos ou albaneses, sabiam que apelar para os sentimentos separatistas conduziria fatalmente à política da limpeza étnica tantas vezes praticada entre eles no passado. Tinham consciência que, dada a multiplicidade de etnias que a maioria dos Estados iugoslavos era composta, as declarações de independência desencadeariam as velhas paixões e acirrariam os antigos rancores. Mesmo assim, eles foram em frente e destruíram a República Federada da Iugoslávia, transformando a região inteira num caldeirão alimentado pelo ódio étnico, devido ao deslocamento das populações e pela imigração em massa de milhões de ex-iugoslavos para o exterior (o que terminou por acirrar os movimentos xenófobos na Áustria e na Alemanha recém-unificada). O resultado foi desastroso. Onde até 1990 havia, mal ou bem, um país constituído e em relativa ordem, pronto para poder integrar-se no restante da Europa, se tivesse um pouco mais de paciência, hoje existem seis frágeis repúblicas, a maioria delas empobrecida pela perdas materiais e pela fuga da população, quando não entregues ao crime organizado, sem contar com um permanente clima de frustração, misturado ao ódio étnico sempre pronto para dar seu sinal de retorno.
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Introdução |
Uma Esquina do Mundo |
A Servia e a Rússia |
A Guerra Balcânica e a Grande Sérvia |
O Atentado de Sarajevo |
O Reino da Iugoslávia (1918-1941) |
O Acirramento do Ódio |
Tito e a Resistência Iugoslava |
A Pacificação de Tito |
A Morte de Tito e a Dissolução da Iugoslávia |
As Causas Diretas |
As Novas Repúblicas e a Guerra Civil |
Kosovo |
A crise marcha para mais ao sul |
Milosevic Frente ao Tribunal de Haia |
A responsabilidade é coletiva |
Fragmentação dos Bálcãs, a Morte de uma Nação |
Etnias que formam a ex-Iugoslávia |
Síntese