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O Atentado de Sarajevo


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A sempre trágica Sarajevo

Em 28 de junho de 1914, Francisco Ferdinando, o herdeiro do trono austro-húngaro, foi assassinado com sua esposa quando fazia uma visita oficial a Sarajevo, a capital da Bósnia-Herzegovina (desde 1908, protetorado imperial). O autor do atentado ao arquiduque era um estudante nacionalista sérvio, Gavrilov Princip, que, com aquele ato terrorista, protestava contra a presença dos austríacos numa região que, segundo os nacionalistas do seu país, deveria estar na órbita da Sérvia. Para o governo austro-húngaro, o atentado da Mão Negra, a organização clandestina sérvia, a quem Princip pertencia, serviu como pretexto para uma declaração de guerra ao Reino da Sérvia. A partir disso, visto que o Império Russo saiu em socorro dos sérvios, a Europa inteira, em trinta dias, terminou por marchar para a guerra. A Sérvia, atacada pelos exércitos austro-alemães, não se rendeu. Em 1915, o rei Pedro I e seu exército, num grande feito épico, bateu em retirada pelo alto das montanhas até chegar ao Mar Adriático e dali ser resgatado pela esquadra inglesa, tentando manter-se sempre em combate com os invasores dos Bálcãs. Só retornou três anos depois, quando deu-se a capitulação austro-alemã em 1918.

O Reino da Iugoslávia (1918-1941)

Com a derrota dos três grandes impérios (austro-húngaro, o russo e o turco otomano), os Bálcãs finalmente livraram-se da tutela estrangeira. Pelos Tratados de Paris, em 1919, garantiu-se a autonomia do Reino da Sérvia, da Croácia e da Eslovênia (formada pela Sérvia, Croácia, Eslovênia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro e Macedônia), depois entendido como Reino da Iugoslávia, com capital em Belgrado, sendo a coroa pertencente a Pedro I. Mas não durou muito a tranqüilidade daquele reino. Em março de 1941, Pavel, o príncipe regente da Iugoslávia, cedendo à pressão dos nazistas e dos fascistas italianos, foi constrangido a assinar um tratado com o Eixo, o que colocava os Bálcãs subordinados às potências fascistas. Foi o que bastou para que uma rebelião popular antimonárquica e antifascista tomasse conta das ruas de Belgrado. Adolf Hitler aproveitou-se da situação confusa em que o reino caiu e ordenou, em abril de 1941, que suas divisões, juntamente com tropas húngaras, italianas e búlgaras o ocupassem. Para os estrategistas militares, a necessidade de manter os Bálcãs militarmente ocupados fez com que Hitler fosse obrigado a atrasar em dois meses a invasão da URSS, contribuindo assim os iugoslavos, indiretamente, para o retardo do início da guerra contra os soviéticos.

O Acirramento do Ódio

Aproveitando-se da presença das tropas nazistas, os croatas, que se diziam oprimidos no Reino da Iugoslávia, proclamaram sua independência. Logo restauraram a monarquia com o rei Tomislau II, que entregou o poder aos nacionalistas croatas pró-nazistas do partido Ustacha, liderado por Ante Pavlevic. O Estado da Croácia, alargado enormemente com a anexação da Bósnia-Herzegovina e da Dalmácia, com o consentimento de Hitler, deu então caça aos seus inimigos: os sérvios, os judeus, os ciganos, e todos antifascistas que se lhe opunham. Conduzidos ao campo de concentração de Jasenovac, estima-se que os fascistas croatas assassinaram entre 350 a 450 mil pessoas! O nome dos ustachi, a milícia croata, causou o mesmo horror à população balcânica que as tropas de ocupação da SS. Como não podia deixar de ser, como tantos outros invasores dos Bálcãs no passado, os nazistas também exploraram a seu favor os eternos ódios locais. Em geral, verificou-se que os católicos eslovenos e croatas, e os albaneses muçulmanos alinharam-se com os nazi-fascistas (inclusive formando regimentos SS para combater ao lado deles), enquanto as outras etnias perseguidas foram para as montanhas juntar-se à resistência organizada pelos monarquistas sérvios, os chétniks do general Draza Mihailovic, o ex-ministro da Defesa do governo iugoslavo, agora no exílio, e pelos partisans, os guerrilheiros comunistas de Tito. Quando a guerra terminou, com a derrota dos nazi-croatas, os sérvios foram orientados por Tito a não praticar retaliações contra os civis, justiçando apenas os ustachi.

Tito e a Resistência Iugoslava


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Tito e o alto-comando da resistência

Quem promoveu uma oposição militar mais conseqüente à ocupação nazista foi a Liga Comunista da Iugoslávia, comandada pelo guerrilheiro Josef Broz, conhecido pelo codinome de Tito, que assumiu o controle das montanhas, tornando a vida dos ocupantes alemães um inferno. Quando a guerra estava para se encerrar, nos começos de 1945, os guerrilheiros de Tito haviam derrotado a maioria das 37 divisões que os nazistas enviaram para lá, o mesmo ocorrendo na vizinha Albânia, com os partisans comandados por Enver Hoxa, também um líder comunista. As matanças ocorridas devido à presença das tropas estrangeiras e aquelas outras que seguiram, praticadas contra os colaboracionistas pró-nazistas, deixaram marcas profundas entre a população local no período do pós-guerra.

A Pacificação de Tito


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Draza Mihailovic

O ódio entre as diversa etnias, reestruturadas como estados dentro da República Socialista Federada da Iugoslávia, proclamada em 1945, foi contido devido à política hábil de Tito e, também, pelo clima de exaustão geral que as matanças cometidas durante a guerra provocaram. A doutrina comunista nos anos do após-guerra, com seu apelo internacionalista, aparentemente agiu como um elemento integrador e sublimante que atenuava as diferenças etno-culturais existentes na região (as que opunham católicos, ortodoxos e muçulmanos, entre as culturas pró-germânicas ou pró-eslavas). Tito tratou de diminuir a influência dos dois maiores grupos, os sérvios e os croatas, dando estatuto de maior representatividade para os outros. O incrível mosaico étnico dos Bálcãs foi, durante os quarenta anos seguintes, sedimentado pela ideologia titoísta, que se viu enormemente reforçada quando Tito, desobedecendo a Stalin, escolheu uma "via própria para o socialismo", totalmente independente dos quadros que os soviéticos impuseram no leste europeu por meio das "democracias-populares". Tito passou a desde então a gozar de um enorme respeito que transcendia as questões étnicas. Ele ousara enfrentar os dois maiores tiranos da Europa do século XX, primeiro a Hitler e depois a Stalin, mantendo a Iugoslávia pacificada e coesa frente às pressões que sofreu durante a guerra fria. Ele, juntamente com Nasser do Egito e Nehru da Índia, lançou as bases da Organização dos não-alinhados em 1955, projetando o seu nome internacionalmente.

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