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A marcha dos protestantes



Mary e William: o casal de reis protestantes da Inglaterra

"A maioria das corporificações físicas do nosso passado são ruínas, do mesmo modo que a maioria das nossas canções são canções de lamento e desafio" - Sean O'Faolain, escritor irlandês

Todo ano, em meio ao verão irlandês, nos começos de julho, a Ordem de Orange se apruma. Seus integrantes vestem suas domingueiras e seus chapéus, e enlaçam-se com uma faixa cor de laranja. A cor da família real holandesa: os Orange. Na maioria é gente madurona, com a cara avermelhada pela cerveja Guinness. Quem os vê aprumados, penteados e lustrosos, marchando com seus estandartes, pensaria num desfile de veteranos convidados para um ato cívico qualquer. Mas não, são os Orangemen, os protestantes da Irlanda do Norte, militantes da Orange Society, fundada em 1795 que, inspirados num visual maçom, comemoram uma data marcante para eles.

Em 12 de julho de 1690, o herói deles, Guilherme de Orange, um nobre holandês de fé protestante, que fazia apenas um ano era o rei da Inglaterra, deu, na batalha do Boyne, uma surra no seu sogro, o ex-rei Jaime, um católico. A Irlanda do Norte, chamada então Condado de Ulster, ao contrário do resto da Irlanda, ficou desde então nas mãos dos protestantes, enquanto que o restante da ilha da Irlanda, então domínio da Grã-Bretanha, permaneceu dentro da fé católica.

A batalha do Rio Boyne, travada nas proximidades da cidadezinha de Drogheda, foi um marco na história da Irlanda. Em suas margens depararam-se duas internacionais: a dos católicos e a dos protestantes. Jaime, o rei deposto, preparando-se para enfrentar o genro, o novo rei entronado, arrebanhara um respeitável contigente de franceses e irlandeses católicos, uns 25 mil homens ao todo. Guilherme não deixou por menos. Além da sua Guarda Azul que o acompanhava desde a Holanda, contava com regimentos de huguenotes franceses, tropas dinamarquesas, prussianas, finlandesas, e até um bando de mercenários suíços, num total de 36 mil homens.

Os perigos de uma conversão

A origem do enfrentamento deles, do sogro e do genro, era recente. Datava de dois anos apenas. Começara em 1688, quando o então Rei Jaime II da Inglaterra teve um surto de demência política ao tentar, depois de uma conversão aos 36 anos, governar como um católico um país onde 90% do povo professava o anglicanismo ou as mais diversas seitas da igreja reformada.

Para os ingleses, o futuro lhes parecia sombrio nas mãos do recém-converso. Não se lhes apagara da memória as atrocidades da sua última rainha católica, a Bloody Mary, a Maria a Sanguinária, morta em 1558. Para evitar a catástrofe anunciada, um grupo de parlamentares, em segredo, convidou um príncipe holandês para sucedê-lo no trono: ninguém menos do que um sobrinho-genro do próprio rei Jaime, Guilherme de Orange, o chefe-geral da Holanda, casado com Mary, a filha de Jaime. Ele de algum modo deveria sentar-se o mais breve possível no trono da Grã-Bretanha no lugar do sogro, possuído pelo fanatismo. Os parlamentares possivelmente acreditaram que o rei enlouquecera! Feitos os acertos, como um raio o holandês desembarcou em Dover na Inglaterra. Jaime II, isolado por todos, atravessou o Canal da Mancha em fuga, exilando-se na França. Foi lá, junto à Corte de Luís XIV, que ele obteve os recursos para empreender a aventura do retorno ao trono. Jaime porém não ousou desembarcar diretamente na Inglaterra. O fez na ilha da Irlanda, na católica Irlanda, que ele considerava um local firme para atuar como base de apoio para a restauração do seu poder.

A batalha do Rio Boyne


Cena da batalha do Rio Boyne, 12/07/1690

Sabendo que o sogro andava por lá, articulando-se politicamente e reunindo forças, o genro se apressou em batê-lo antes que o Exército Jacobita pudesse atravessar o Canal Irlandês e vir assolar o litoral da Inglaterra pelo oeste. Nas margens do Rio Boyne os dois se encontraram e foi o que se viu. Como o padre Viera percebera meio século antes da vitória de Guilherme, Deus parecia ter uma sólida inclinação a favor dos protestantes.

Guilherme, depois de ter esmagado os jacobitas, para assegurar uma firme cabeça de ponte na catolicíssima Irlanda (a eterna e inconformada colônia inglesa), reforçou o povoamento da região do Ulster com uma leva de escoceses presbiterianos. A popularidade de Guilherme, o Rei Billy, foi parar nas nuvens entre os protestantes, e esta pequena estrofe é demonstrativa disso:

If I had a penny
Do you know what I would do?
I would buy a rope
And hang the pope
And let King Billy through!
Se eu tivesse um tostão
Você sabe o que eu faria?
Eu compraria uma corda
E enforcaria o papa
E deixaria o Rei Billy passar!

Unionistas x Católicos

Os Unionistas protestantes da Irlanda do Norte de hoje são, portanto, os descendentes daqueles imigrantes que se instalaram lá há mais três séculos. Guilherme tirou as terras dos católicos para dá-las aos recém desembarcados. E, é claro, querem manter a união com a Inglaterra, pois se a República da Irlanda algum dia vier a absorver a Irlanda do Norte, os protestantes possivelmente passarão a serem perseguidos, pois os católicos são amplamente majoritários na ilha inteira. Os católicos irlandeses, seus inimigos de morte (representados pelo partido do Sinn Féin e pelo seu braço armado, o IRA), os abominam, o que nos leva a entender os surtos de muita pancadaria, mortes, incêndios e demais atrocidades que se arrastam lá entre os dois bandos ao longo dos últimos trezentos anos. E dizer-se que tudo isto começou naquela briga de genro contra sogro!

República da Irlanda
(católica)
Capital: Dublin
Irlanda do Norte
província do Reino Unido
protestantes (Unionistas) x católicos (IRA)
Capital: Belfast



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