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Stalin e a Russofilia

É que naquela platéia ninguém sabia ainda dos tormentos recém-passados pelo compositor. Um ano antes, em Moscou, Chostakotich submetera-se à vara de Andrei Zhdanov, o grão-censor de Stalin. Num encontro público convocado pelo comissário da Cultura, o braço de Stalin nas artes forçara-o, após uma espinafração ideológica, a uma humilhante retratação. Ao término da guerra em 1945, com a crescente hostilidade do Ocidente, Stalin decidira-se, em resposta ao clima de guerra que se instalara, a estimular o chovinismo russo. A nova palavra de ordem do regime era exaltar o que era popular, o que fosse autenticamente russo, fazendo com que as artes soviéticas mergulhassem numa abjeta russofilia.

O enquadramento dos mestres

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   Stalin (pôster propagandístico)
Os grandes mestres soviéticos, como Katchaturian, Prokofiev e Chostakovitch, que além de ser os herdeiros de Tchaikovski e de Mussorgski, pertenciam ao maravilhoso mundo europeu da música erudita, foram acusados de ser "burgueses formalistas" e "cosmopolitas". Stalin amava balalaicas e sanfonas, e não violoncelos ou arpas. Que compusessem, dali em diante, o que os operários e os colcosianos pudessem cantarolar e assobiar. Não se admitiria, como disse o secretário da União dos Compositores, que os músicos eruditos executassem "conteúdos antimelódicos", ou que não enaltecessem "o heroísmo e o humanismo soviético".

Atribuem a zanga de Stalin contra os compositores o fato dele ter detestado uma desastrada ópera (uma bajulação intitulada A Grande Amizade) de um tal de Vano Muradeli, apresentada em homenagem a ele em 1947. As destoadas fanfarras desgostaram de tal modo os ouvidos do ditador que ele determinou-se em soltar o seu buldogue - o comissário da Cultura Zhdanov - sobre os concertistas.

As primeiras baixas

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   Chostakovich, humilhado    pela ditadura
O fato é que o ataque do regime soviético aos músicos eruditos era parte da reciclagem que se iniciara em 1946, ocorrida simultaneamente à ação do Comitê de Atividades Antiamericanas (HOUAC) contra Hollywood. Enquanto o comissário da Cultura de Stalin desancava os poetas Zoschenko e Akhmátova e os diretores teatrais de Leningrado, os macarthistas faziam o mesmo com a indústria de cinema e do entretenimento norte-americano. Dessa forma, bem antes de se lançarem à corrida armamentista, tanto os Estados Unidos como a União Soviética mobilizaram os seus controladores do pensamento na caça aos artistas dissidentes, provocando entre eles as primeiras baixas da guerra fria. (*)

(*) A melodia de Stalin: em Paris, está em cartaz no teatro Silvia Monfort a peça Staline Mélodie, de David Townall e Victor Lenoux, que procura recriar aqueles dolorosos momentos para a cultura musical no qual se encontraram Stalin, acompanhado de Zhdanov, com os dois grandes gênios da composição erudita daquela época: Chostakovitch e Prokofiev. O público então pode visualizar e emocionar-se com brutalidade da humilhação que ambos artistas foram submetidos.

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