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Berlim renasce



Berlim (desenho de George Grosz, 1917)

Artes sem um rei mecenas

"So lang noch Untern Linden/ Die alten Bäume blüh'n / Kann nichts uns überwinden,/ Berlin, du bleibst Berlin"( Enquanto na avenida Debaixo das Tílias as velhas árvores florescerem/ nada nos poderá dobrar/ Berlim tu continuarás sendo Berlim) - Linden March, 1923

Madame de Stäel impressionou-se. Então a Alemanha era só mato? Arvores e florestas para todos os lados. Por isso, concluiu ela da viagem que por lá fez em 1803, proliferava nas aldeias e nos vilarejos um generalizado espirito feudal que se manifestava no comportamento cavalheiresco de muitos dos seus habitantes. Registrou também, ao se tornar mais íntima do crítico August Schlegel, que por lá não havia nenhum Péricles ou um Luís XIV disposto a dar-se às artes, a amparar as gentes de letras e de tintas. Frederico II, o Grande, o rei da Prússia, desprezava a literatura nacional. Para ele só existia o francês, cercando-se no Saint-Soucy, um anexo que havia construído em Potsdam, na companhia daqueles talentos que ele importara de Paris para discutir as coisas do mundo, entre eles o impagável Voltaire. Mas jamais dera um centavo para a gente da casa. "O alemão", dizia ele, só lhe servia "para dar ordens à criadagem e aos cavalos!" Daí os escritores alemães agradecerem aos céus existir Weimar, um ducado plantado bem no coração do país.

A Atenas alemã


Casa de Goethe em Weimar (foto Weimarer)

Lá a Regente Anna Amália, a célebre mecenas que, para sorte das artes nacionais enviuvara cedo, entregara-se de corpo e alma a atrair para a sua corte o que havia de melhor na sensibilidade da Alemanha do seu tempo. Foi atendendo ao convite de Carlos Augusto, o filho dela, que Goethe lá se instalou em 1775 para dirigir o teatro local e depois, consagrado, comandar a Tafelrunde, uma mesa redonda de sábios. Não demorou para que o seguissem o filósofo Herder, o poeta Schiller, e uma lista interminável de músicos, compositores, teatrólogos e admiradores das artes em geral. Napoleão, quando bateu a Prússia em 1808, fez questão de ir lá para conhecer o autor de "O jovem Werther" que ele disse ter lido meia dúzia de vezes nos seus tempos de cadete. Mas Weimar era uma castelo e um casario ao seu redor. Espiritualmente era gigantesca, mas geograficamente era uma anã. A Atenas alemã inteira cabia em meio bairro de Paris.

Os primeiros passos de Berlim

Pois a Berlim de então era exatamente o contrário. Tornou-se no transcorrer do século XIX, a maior cidade da Alemanha, mas, tirando-se aquele oásis do espírito que era Universidade de Berlim, fundada por August von Humboldt ainda nos tempos da ocupação francesa, aspirava-se nela um ar de quartel, inundada pelo vozerio dos sargentos e dos praças ao som estridente do bater de botas e esporas. Ainda em 1912, o novelista Georg Hermann dizia não saber qual a razão "dos berlinenses terem vergonha da sua cidade, pelo menos da sua arte".

Não conseguiam eles entender que enquanto a Paris batida em 1871, primeiro pelo exército prussiano e em seguida, pela sua própria gente, pelos Communards do levante de maio de 1871, gerava um Monet, um Degas ou um Manet, e uma infinidade de outros impressionistas, Berlim, promovida à capital imperial e orgulhosa sede da Alemanha unificada, só produzia uns borradores de telas com Max Liebermann, Lovis Corinth ou um Max Slevod, que depois naufragaram num merecido anonimato.

Quando não isso, nos primeiros anos do século XX, eram artistas como Hans Baluschek, um "pintor da gente pobre", "proletário", carregando no cinza das suas "paisagens berlineses", mostrando-as desoladas, com céu de chumbo e tristonhos passantes solitários escapando do mau tempo por calçadas e sarjetas com poças d'água. Ou ainda os flagrantes "naturalistas" de Karl Holtz, retratando as manifestações de trabalhadores mal encarados, desfilando pelas ruas da cidade. Uma feiura urbana que nem as maravilhas arquitetônicas de Karl F. Schinkel conseguiam atenuar.

A vanguarda do mundo


O Anjo azul (póster de Marlene Dietrich)

Mas Berlim superou tudo isso. Nos anos vinte , com toda a crise dilacerando-a, mesmo com Walter Rathenau chamando-a de "repulsivo monstro da modernidade", tornou-se a sede das vanguardas do Mundo: do movimento estilístico da Bauhaus de Walter Gropius ao teatro de Bertold Brecht, da caricatura de George Grosz à novela amarga de Alfred Döbling, do "Anjo Azul" de Marlene Dietrich à fotografia pró-nazi de Leni Riefenstahl, a cidade abrigou de tudo. Nas ruas, enquanto isso, comunistas e nazistas, antecipando 1941-45, moíam-se à cacetadas. E então, como se a grande cidade fosse uma Sodoma alemã, no meio século que se seguiu, os céus em fúria desabaram sobre ela.

A punição dos céus

Primeiro foram os discursos tonitruantes do Führer e as fanfarras do nacional-socialismo, em seguida o diluvio das bombas aliadas, e por fim, quando mal se refazia dos estragos, dividida entre os vencedores de 1945, aplicaram-lhe o pavoroso Muro. Recém fez dez anos que Berlim se refaz da longa ressaca. Por todo lado ergue-se de tudo como que para anunciar por todos os ventos que o pesadelo acabou, que as tílias voltaram a florescer e que Berlim continuará sendo Berlim.

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RELAÇÕES INTERNACIONAIS: A ALEMANHA DEZ ANOS DEPOIS DA REUNIFICAÇÃO



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