|
Michael Moore contra Bush
É uma luta desproporcional. De um lado um cineasta gorducho e um líder fundamentalista árabe caído na clandestinidade. Entre si, eles nada têm em comum. Ao contrário, são totalmente opostos. Michael Moore é um ativista democrata, filho de uma família de operários do estado norte-americano do Michigan, enquanto Osama bin Laden, de raízes milionárias, pertence a um riquíssimo clã saudita. Todavia, ambos são devotados inimigos do atual presidente George W.Bush. Os dois são pedras no caminho do poder do império.No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra/ no meio do caminho tinha uma pedra
Carlos Drummond, No meio do caminho, 1928 É o maior império da História. Os seus fortes e fortins estão por toda a parte. São quartéis, acampamentos, aeroportos, bases navais em continentes ou ilhas estratégicas, tudo isso ocupado por mais de dois milhões de soldados, pilotos e marinheiros. Os Estados Unidos da América (é dele que se trata) além disso, dispõem de inúmeros paióis e silos secretos que armazenam todos os tipos de armas de destruição em massa, químicas e bacteriológicas, e projéteis atômicos suficientes para apagar do planeta qualquer vestígio da existência da humanidade. Na estratosfera, fazendo às vezes de vigilantes olhos do Pentágono, circulam um sem-número de satélites-espiões. Nada que se mexe no globo, inclusive os lagartos e as cobras, poderia os surpreender. E eis que o presidente-imperador do que o jovem ideólogo Niall Ferguson chama de "Colossus", um poder esmagador jamais visto no Universo, passa por inquietações e sobressaltos particularmente em razão de dois sujeitos : um deles gordo e o outro muito magro. O gorducho é da casa mesmo. Trata-se do cineasta americano Michael Moore, um desmazeladão encardido com bem mais de 150 quilos, sempre com um boné torto enfiado na cabeça, que começou sua carreira com o bem sucedido documentário Roger&Me, de 1982 (no qual desanca um poderoso executivo da GM e sua desastrosa política de desemprego). Acima de tudo, Moore é um inconveniente. O seu corpanzil e o seu jeitão de caipira simplório (é do Michigan) ajudam-no, pois quando ele se aproxima, ninguém suspeita ou antevê o que vem pela frente. Provação pela qual passou o ex-ator Charlton Heston, ativo militante da associação do rifle e apologista da venda de armas, quando entrevistado por Moore e que teve que se esconder no interior da sua casa para escapar do embaraço em que o baleião o colocara (Bowling in Columbine, 2002). Mais recentemente, refugando a onda patriótica que o atentado de 11 de setembro de 2001 provocara, Moore escolheu como alvo a George W.Bush, denunciando ao público as perplexidades e inconstâncias dele e da atual administração, inclusive a estranha relação da família Bush com a Casa dos Saudi. Somente na primeira semana de exibição do Fahrenheit 9/11, para desgosto da causa republicana no poder, 900 salas em todo o país ficaram apinhadas de gente e mais de U$ 22 milhões foram faturados. Trata-se, o filme, de um arrasa-quarteirão contra o atual presidente-imperador.
Bin Laden nas cavernas de Bora-Bora
|
|
|
|
M. Moore
|
O outro a tirar o sono da Nova Roma, este escondido bem longe da América, é um tipo esquálido: Osama bin Laden. Possivelmente ainda acoitado nas cavernas do Afeganistão, o saudita, ex-colaborador da CIA nos tempos de Ronald Reagan, está agora em franca rebeldia contra seus ex-patrões. Com um fuzil a tiracolo e com um turbante amarrado na cabeça, mesmo que com recursos precários, atormenta o governo Bush enviando-lhe, lá do fundo de um buraco, fitas ou vídeos de baixíssima qualidade prometendo, em meio a imprecações corânicas, novos atentados. Gera medo o suficiente para que os chefões do FBI ou da CIA, se revezando, recorram aos meios de comunicação para, em alertas nervosos, colocar a população americana de sobreaviso. Nunca se viu, nem sequer na mais fantasiosa das ficções, um duelo tão disparatado como este entre o eremita das grutas de Bora-Bora e o maior poder da Terra. Até agora, nem todo o dinheiro do mundo (Osama, vivo ou morto, vale U$ 50 milhões) parece ter ajudado o império a que pudesse liquidar o solitário guia da Al-Qaeda, enquanto que Michael Moore já está rico o suficiente para não ser corrompido pelos republicanos. Desta forma, o gerente da máxima economia do globo e que tem a sua disposição o maior orçamento militar de todos os tempos, vê-se tonto e impotente para fazer frente a tal dupla de amadores: um gordo e um magro. Que historiador em algum momento do passado, Qual Tito Lívio, qual Plutarco, qual Suetônio, qual Tácito, teria presenciado uma situação destas?
|