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Bolívia: tirania e revolução
Pátria das quarteladas e das revoluções, a Bolívia é o país mais isolado do continente sul-americano. No século XVII, o centro mineiro de Potosí, cuja lavra argentífera fora descoberta em 1545, que então exportava metade da prata do mudo, era a maior aglomeração humana que existia na América inteira, bem superior à população de Nova York. Herdeira da antiga cultura do Tiahuanaco e do desaparecido Império Inca, hoje parece que a Bolívia está condenada à miséria permanente e aos surtos cíclicos de violência militar ou popular, agora motivadas pela questão do plantio da coca.
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Mariano Melgarejo, o tirano colorido da Bolívia (1865-1871)
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"Mariano Melgarejo tinha a sua própria concepção de democracia e acreditava com profunda convicção que derrubar seus contendores a balaços era um procedimento mais prático e expedito do que o lento e aborrecido recurso do sufrágio popular. Portanto, fiel ao seu pensamento político, chegou ao mando supremo da nação utilizando seus métodos prediletos." Alfredo Iriarte – Bestiário tropical, 1986 Acreditando inapropriados os reclamos do embaixador britânico que chegara em La Paz, em 1866, o general Mariano Melgarejo, não teve pruridos em forçar o infeliz diplomata a montar num burro e despachá-lo, coberto de chocolate e penas, de volta para a fronteira do Peru. Quando a rainha Vitória soube do ocorrido com o seu enviado, pediu que lhe mostrassem onde ficava a Bolívia no globo. Logo que a localizaram, Sua Alteza colocou a sua rechonchuda mão sobre aquela mancha no mapa e disse aos presentes: “a partir de hoje a Bolívia não existe mais.” Melgarejo por, seu lado, continuou fazendo da suas. Jurou que, depois de matá-los a pau, mandaria para os infernos os que ousassem lhe fazer oposição ou mesmo quem falasse mal dele. Até uns pobres cholos, os mestiços bolivianos, que desenharam uma caricatura dele nos muros da capital, terminaram solenemente pendurados numa corda. Em 1865, ao comemorar sua alçada ao poder após uma quartelada bem sucedida em La Paz, promoveu uma memorável orgia no palácio presidencial, na qual até Holofernes, o seu cavalo favorito, a quem ele viciara em álcool, caiu na farra depois de ter ingerido doses de licores e um tonel de cerveja. Apaixonado pela França, quando soube que Napoleão III fora para o fronte deter os prussianos de Bismarck, na guerra de 1871, não hesitou em querer socorrê-lo. Trajando a sua capa vermelha de César dos Andes, pôs-se a frente de um batalhão para reforçar os franceses. Não tinha a mínima idéia de onde a França ficava. Depois de dois dias de marcha, com bandeiras, taróis e tambores, disseram-lhe com certo tato que, além de ter que atravessar a floresta Amazônica, havia um oceano pela frente. O doido, como o presidente de agora, foi derrubado naquele ano mesmo por um levante de índios aimáras a quem tinha roubado as terras.
Por motivo da Guerra do Pacífico, travada entre 1879/83, na qual o Chile tornou-se vitorioso sobre a coligação peruana-boliviana, a Bolívia perdeu o seu acesso ao Oceano Pacífico, feito por Arica. . Desde então, há um profundo ressentimento nacional contra os chilenos e uma não aceitação do Tratado de 1904, que confirmou a mutilação do território que deixou o país sem um só porto de mar. Na sua parte amazônica, a Bolívia igualmente foi constrangida a ceder território quando o Brasil resolveu reconhecer a independência do Acre, proclamado república em 1902 pelo gaúcho Plácido de Castro (1873-1908). Ele foi o líder da revolta feita para apoiar os seringueiros brasileiros, originados do Ceará, que lá estavam desde 1877/9, e que se rebelaram contra o Bolivian Syndicate of New York, que recebera os direitos da exploração da borracha na região (concessão feita, em 1901, pelo governo de La Paz aos norte-americanos para que os E.U.A assegurassem proteção à Bolívia) . Acertado pelo Tratado de Petrópolis, assinado em 1903, a Bolívia, em troca da cedência de um território de mais de 142.800 km² para o Brasil, recebeu uma indenização de 2 milhões de libras esterlinas e a promessa de ter um acesso ao oceano Atlântico pela construção da futura estrada-de-ferro Madeira-Mamoré (*). A derradeira perda de terras por parte da Bolívia deu-se por ocasião da Guerra do Chaco (1932-1935), travada e perdida para o Paraguai, que abocanhou-lhe 249.500 km² da região fronteiriça, o chamado Chaco, área cobiçada então por empresas petrolíferas estrangeiras que supunham haver promissora lavra do ouro negro naquele subsolo. (*) Denominada de “Estrada do Diabo” ou “Estrada do Inferno”, pelo número impressionante de mortes que sua obra provocou, a Madeira-Mamoré foi construída entre 1907-1912, ligando Porto Velho (atual capital do estado da Rondônia) e Guajará-Mirim, tendo 366 km de extensão. Apesar de ser um grande feito da engenharia nunca, entretanto, alcançou os resultados pretendidos.
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Um dos diabos do Carnaval indígena de Oruro
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Conjunto de montanhas andinas isoladas do mundo, com mais de um milhão de km², a quase despovoada Bolívia (um pouco mais de 8 milhões de habitantes), é, curiosamente, a recordista latino-americana de golpes militares. Violentas quarteladas e “pronunciamientos” se alternam ao longo da história com insurgências indígenas, como a promovida por Tupac Katari, em 1780, ainda na época colonial. Alguém as contabilizou em bem mais de 150. Devido a essa crônica turbulência política, chamam a sede do governo de Casa Queimada. O irônico é que, em seguida à independência, obtida da Espanha em 9 de agosto de 1825, resolveram reafirmar a sua capital em La Paz! Justo o que o país menos teve, senão aquela conquistada pela força das armas. Tiranocracia que tem sua contrapartida nas inumeráveis revoltas nativas [ a população da Bolívia é composta de quíchuas ( 30%), aimarás ( 25%), cholos ou mestiços ( 30%), e apenas de 15% de brancos] . De quando em quando, formando uma “onda colérica”, eles partem das aldeais, dos vilarejos, e de dentro dos labirintos das minas de prata e de estanho, onde reina o demônio Huari, para assolar a sede da república. Uma leva de quíchuas e aimarás, somados aos cholos, marcham em fila para La Paz para derrotar o governo, como fizeram com o do americanófilo Gonzalo Sánchez de Lozada, em 17 de outubro de 2003. Nem a esperança de uma revolução social redentora existe mais por aquelas bandas. Já a fizeram: a encabeçada pelo MNR (Movimento Nacional Revolucionário) liderado por Paz Estenssoro, em 1952. Levante que, além de substituir o exército derrotado pelas milícias obreiras, nacionalizou e estatizou as minas de propriedade do trio Patiño-Hoschschild-Aramayo. E, em seguimento, pela Lei da Reforma Agrária de 1953, distribuiu terras e votos aos índios, ampliando em cinco vezes o número de cidadãos ( de 200 mil para um milhão). Tudo inútil. A Bolívia continua o cavaleiro da miséria do continente sul-americano.
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