|
EUA e o escudo de Aquiles - parte 2
O grande artista manco também acrescentou nele, em alto relevo, a síntese da história de duas cidades. Numa delas, a cidade da paz, os litígios resolviam-se com as partes querelantes acatando a decisão de um tribunal de anciãos. Na outra, porém, com Ares, o deus da guerra comandando, era a força das armas quem dirimia os conflitos provocados pela Discórdia e o Tumulto, banhando tudo em sangue. Assim, o escudo tanto podia servir a uma como a outra. Satisfeita, ainda equipada com capacete e armadura reluzente, Tétis partiu da gruta do “engenhoso deus” para ir presentear o filho com aquelas magníficas peças de guerra.Foi este pequeno conto mitológico relatado por Homero (A Ilíada, Canto 18). quem inspirou a Philip Bobbitt, um dos tantos acadêmicos americanos conservadores, a escrever um catatau de quase mil páginas sobre a dicotomia entre a paz e a guerra. (A guerra e a paz na história moderna, Campus). Trata-se de uma crescente tendência entre o establishment intelectual norte-americanos de seguir o antigo roteiro dos acadêmicos prussianos que, no século 19, com as vitórias de Bismarck, começaram a privilegiar e enaltecer o papel da guerra na História. Para eles, nem a Sociedade muito menos o Estado resultam do contrato social cujo figurino foi traçado por protoliberais como Locke ou por J.J. Rousseau. Não chegam esses americanos, provavelmente por recato, a repetir a máxima favorita do velho chanceler alemão para quem a História era feita “com sangue e aço”, mas andam por perto.
|
|
|
|
São os canhões quem fazem a História
|
Se, portanto, é o escudo de Aquiles e seus acompanhamentos, a espada, a lança, quem garante a segurança cotidiana dos homens, a guerra deve ser uma preocupação permanente dos Estados Unidos. Ela é a real fundadora das instituições, pois tudo se volta para a segurança dos homens, vida e patrimônio, e não para seguir as cláusulas de um afável contrato que ninguém nunca viu. É baseada nesta força, na máquina bélica e na tecnologia que a sustenta, que a História realmente avança. A pólvora possibilitou o canhão, este derrubou os muros dos castelos e das fortalezas medievais, derrotando os barões e emancipando os servos e seus dependentes, abrindo assim caminho para o mercado universal de agora. Para Bobbitt, as duas guerras mundiais, a Guerra Civil espanhola, a Guerra da Coréia e a do Vietnã, foram faces da mesma grande batalha ideológica que levou ao lento declínio do antigo Estado-nacional e sua superação pelo que ele denomina de Estado-mercado dos nossos dias, hegemônico após a queda do Muro de Berlim, e de alcance transoceânico. Comprometido senão com a livre iniciativa e com o fim das regulamentações embaraçantes, ele preocupa-se é com a expansão dos bons negócios. Do calibre desses que a Bechtel’s recebeu do governo Bush para reconstruir as vias públicas no Iraque no valor de U$ 680 milhões, ou que a KBR, uma subsidiária da Halliburton do vice-presidente Dick Cheney, receberá nos próximos dois anos no valor de U$ 7 bilhões, para combater os incêndios nos campos de Basra, e tantos outros que estão sendo alcançados aos velhos companheiros do partido republicano. O site recomenda a leitura de: Philip Bobbitt – A Guerra e a Paz na História Moderna, Editora Campus, 976 págs.
|