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EUA e a maioria moral

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Com a ascensão do partido republicano ao poder nas eleições americanas de 2000, observou-se que a retórica governamental, especialmente a do presidente George W.Bush, tornou-se carregada de referências religiosas. O motivo disso é a grande influência exercida sobre ele e seus próximos do movimento da Maioria Moral, liderado por religiosos fundamentalistas desde a década dos anos de 1980, e quem tem influenciado enormemente a linha política dos Estados Unidos atuais.

O Impacto de Woodstock

Os fundamentalistas, Falwell e Bin Laden (fotomontagem)

“Eu realmente acredito que os pagãos, os abortistas, as feministas, os gays e as lésbicas, que ativamente tentam se transformar num modo de vida alternativo, (...), todos os que forçam a querer secularizar a América. Eu aponto meu dedo para a cara deles e digo: vocês contribuíram para que isso acontecesse os atentados de 11 de setembro]”

Pastor Jerry Falwell, TV – Programa 700 Club, 14 de setembro de 2001.

De certo modo tudo começou com o Festival de Woodstock. Naquela ocasião, entre os dias de 15 a 18 de agosto de 1969, em pleno andamento da Guerra do Vietnã, 450 mil jovens encontraram-se numa fazenda nas proximidades de Bethel, próxima a Nova Iorque para uma grande confraternização. O festival, com a presença de celebridades do rock como Jimi Hendrix, Janis Joplin e Joe Cocker, mobilizadas pelo chamamento de Blues pela Paz, foi um protesto-monstro contra a guerra e o ápice da contracultura hippie dos anos 60. Nunca Baco fora celebrado daquela maneira na história dos Estados Unidos, pois a festança expôs o rompimento de parte considerável da moçada americana com a formação cristã e seus valores. Em meio a nuvens de maconha, casais entregaram-se ao sexo em público, frente a uma platéia de gente seminua e baratinada.

Quando a guitarra de Hendrix encerrou os acordes do hino nacional, numa interpretação oposta à marcialidade convencional, era dado o sinal para o começo de uma América alternativa, baseada no tripé do sexo livre , drogas e rock-and-roll. Na década seguinte, viu-se a explosão das reivindicações das minorias raciais e sexuais numa escala jamais imaginada pela América puritana. Um novo tipo de comportamento, respaldado nos anticoncepcionais, no fácil acesso a todos os tipos de pílulas e pós, na dissolução do casamento e no sexo alternativo, procurou torna-se a norma no país, desprezando como “quadrados” os que não aderissem ao movimento. A classe média branca ficou chocada, sem saber o que fazer. Deram-se então as condições para que os ministros batistas e sacerdotes de crenças diversas ensejassem uma reação. Era o início do que Pat Buchanan, um candidato presidencial direitista, chamou de cultural war, a “guerra cultural”.

A república fundamentalista

Jimi Hendrix, a revolta da contracultura
Enquanto nas grandes cidades como Nova Iorque, Los Angeles, Chicago e Seatle, a adesão à vida alternativa se enraizava, com a juventude correndo em massa atrás dos libérrimos shows de rock, álcool e drogas, os pregadores do interior das pequenas cidades e médias do Meio-Oeste e do Velho Sul, congregavam a o rebanho cristão, o povo de Deus, a reagir. Travando-se então uma batalha entre os pastores e os roqueiros pelos “corações ementes” dos jovens. Eles, os ministros de Deus, vieram da Primeira Igreja Batista de Atlanta, na Geórgia, do Templo Batista de Indianápolis , do Coral do Frontão da Flórida, todos eles reunidos ao redor do pastor Jerry Falwell, o papa do fundamentalismo cristão americano, que tornou-se o presidente da Maioria Moral, um anti-Woodstock fundado em 1979, exatamente dez anos depois do festival.

Além de pretender agrupar todos os fundamentalistas, inclusive judeus ortodoxos, mórmons e protestantes evangélicos - formando uma republica de templos e sinagogas tendo as Velhas Escrituras como constituição - o novo movimento ambicionava arrebanhar o povo religioso e fazê-los ingressar na política, no partido republicano, enchendo as urnas de Ronald Reagan e dos Bush, pai e filho, para deter a maré montante da vida pecaminosa. Era evidente, para eles, que os padecimentos americanos deviam-se à expansão da secularização, a terem “ expulsado Jesus das salas de aula”, substituindo-o por ímpios como Charles Darwin e sua teoria evolucionista que banira Deus da criação.

Se a URSS era a encarnação do mal, a Maioria Moral, anticomunista convicta, colocou no seu programa a sua aversão a qualquer acordo que cerceasse os Estados Unidos de engendrarem mísseis cada vez mais precisos e poderosos. Seria “enfraquecer o campo de Deus”. Entende-se assim, com esse suporte, por que os presidentes republicanos recorreram a uma retórica cada vez mais inspirada nos fundamentalistas, tal como Evil Empire, “o império do mal” , aplicado antes à URSS, ou o atual Evil Axis, o “ eixo do mal”, utilizado para definir os inimigos da América: o Iraque, o Irã e a Coréia do Norte.

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