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A Turquia na encruzilhada

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A Turquia dos dias de hoje é apenas uma pequena sombra do outrora todo-poderoso Império Otomano dos séculos XVI e XVII, ocasião em que o estandarte do Crescente, comandado pelos sultões de Istambul, metia medo em toda a Europa. No presente, devastada pela recessão econômica e pressionada pelos Estados Unidos, ela se encontra na embaraçosa situação de ter que ceder o seu território para que dali a grande potência consuma a agressão final ao seu vizinho, o Iraque.

O Império do Sultões

Solimão, o Magnífico (reinou de 1520 a 1566)
Disseram que o sultão Solimão , o Magnífico (reinou entre 1520-1566), temia mais as preces do papa do que os canhões dos cristãos. E tinha razão, pois foi Pio V quem, aliando-se a Felipe II da Espanha e a outras cidades italianas, depois de muitos anos de recuos no Mediterrâneo, mobilizou-os para uma cuzada contra os turcos. Cinco anos depois da morte do famoso sultão, a marinha ocidental comandada por João d´Áustria, um filho ilegítimo de Carlos V, cercou no dia 5 de outubro de 1571 a frota turca do almirante Ali Paxá em Lepanto, no golfo de Corinto, impondo-lhe uma memorável derrota, capturando uma boa parte das suas galeras. Batalha em que o grande Miguel de Cervantes perdeu a mão.

Até aquela época o mundo sultânico era impressionante. O Império Otomano, alargado pelas campanhas de Solimão, o Califa do Islã, sempre atrás de “novos inimigos , de novos súditos”, partia dos campos da Hungria, no meio da Europa, estendendo-se até o sul da península arábica, uns 7 mil quilômetros abaixo. Dimensão essa que permitiu a ele, o Kanuni (o fazer das leis) , como chamavam-no seus vassalos, graças aos tributos e saques, aproveitando-se da genialidade do arquiteto Sinan, lançar-se na construção de inúmeras mesquitas, tal como a Süleymaniye Camii, iniciada em 1550, que até hoje domina o perfil dos altos de Istambul, a antiga Constantinopla.

A decadência otomana

Lepanto, a maior derrota naval dos turcos (tela de H.Letter)
Dizem também que foi os dinares de ouro dele, circulando nos principados certos, quem garantiu a vitória do Protestantismo na metade Norte da Europa. A divisão da cristandade fora um claro objetivo da politica externa dos turcos. Talvez fosse por isso que o papa Pio V, um líder da Contra-Reforma, resolvesse puni-los lançando a esquadra do bastardo imperial contra eles. Seja como for, a morte de Solimão , o Magnifico, em 1566, seguida do fiasco de Lepanto, em 1571, seriam as balizas que assinalaram a decadência dos otomanos. Colaborou ainda mais para tanto, uma fieira de sultões meio doidos que, com seu comportamento bizarro e má administração, debilitaram ainda mais a imagem do poder (o próprio sucessor de Solimão, o seu filho Selim I era chamado de Selim, “ O Bêbado”)

A sensação do alívio que isso trouxe aos europeus é percebida na Marcha Turca, um rondó composto Mozart em 1790, no qual a outrora sonoridade marcial dos ferozes janízaros turcos (*) reduziu-se a um divertimento de salão. Montesquieu e Voltaire, por sua vez, quando faziam menção ao “turco” era para associá-lo ao testa dura, ao burrão, ao crente ignorante. Imobilizado em meio ao ascendente poder do Czarado na Rússia ao Leste e a opulência da Europa Ocidental no Oeste, a Sublime Porta, como igualmente chamavam o poder turco, caindo no marasmo, jogada nas almofadas tragando o naguilé, acabou apelidada pelo Kaiser Guilherme como “ o doente da Europa”.


(*) Os janízaros formavam uma tropa de elite dos otomanos composta em grande parte por órfãos cristãos treinados para servir ao sultão.

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