Timor Leste e Bali, entre o separatismo e o terror - parte 2
O Império Português na Ásia
Ao contrário do que encontraram no Brasil - um imenso litoral escassamente povoado por indígenas, geralmente cordatos, praticamente aberto à extração direta das suas riquezas - , nas Índias a situação era outra. Na imensa Ásia existiam antiquíssimas culturas e civilizações cujas origens se perdiam nos tempos. Em contradição com grande parte do Novo Mundo, a população lá era densa, de milhões e milhões. No mundo oriental existiam estados e reinos bem organizados que, se bem que não detentores de uma técnica militar avançada, resistiam com maior êxito ao invasor, ao colonizador. Também tinham uma sólida e tradicional cultura religiosa - hinduísta, budista, islâmica e confucionista - que repudiou as tentativas de cristianização impostas pelos europeus.
Portugal, reino pequeno, de parcos recursos e com escassa população, após ter escancarado as portas do mercado oriental, teve que se contentar com limitadas possessões no litoral do Oceano Índico e no Mar da China.
Suas possessões naquela parte do mundo reduziram-se a um conjunto de portos e feitorias que, partindo da costa africana, passando por Ormuz, Dio, Goa, Calicute, Colombo, Málaca, Java, as ilhas Molucas, chegavam ao seu extremo à Macau no litoral da China( em frente à Hong Kong). Neste dilatado arco comercial, que quase cobria o mundo inteiro, atravessando milhares de milhas náuticas, de Macau na China à Lisboa na Europa, comerciava-se com sedas, ouro, prata, pedras preciosas, pimentas, cravo, canela, gengibre, e tudo o mais que a fantasia e as necessidades européias demandavam.
Apesar da fragilidade do império colonial lusitano - reduzido com o passar do tempo ao porto indiano de Goa (*), à ilha de Timor Leste na Indonésia, e à cidade de Macau na China - foi o que mais tempo durou.
A descolonização
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Habitantes de Timor
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Enquanto que as outras potências colonialistas, debilitadas pelas duas guerras mundiais, viram-se constrangidas, depois de 1945, a ter que aceitar a emancipação dos povos e regiões que outrora dominaram, os portugueses conseguiram manter suas áreas sob controle até 1975. Essa sobrevida do colonialismo luso deveu-se a que Portugal ficou neutro na IIª Guerra Mundial (1939-45), não sofrendo o desgaste humano e material dos que dela participaram. Situação essa que alterou-se radicalmente com a Revolução dos Cravos, de 1973, ocasião então em que o novo governo revolucionário que assumira o poder em Lisboa passou a negociar a independência das suas ex-colônias. Goa, entretanto, já havia sido reintegrada à Índia por uma operação militar do exército indiano em 1961, a vez de Timor Leste chegou em 1975, quando aquela parte da ilha foi retomada pela Indonésia, enquanto que o porto de Macau foi reintegrado à China Popular no final do ano 2000.
(*) Goa tornou-se o centro do comércio luso na Ásia. Nela Afonso de Albuquerque fundou a primeira igreja em 1511, data do início do vice-reinado luso da Índia.
Timor Leste
É um tanto complexa a situação do Timor Leste, que ocupa apenas 18.900 km2 de uma pobre ilha tropical de 33 mil km2 de extensão. Colonizada pelos portugueses desde 1515, com capital em Dili, Timor foi partilhada com a Companhia Holandesa das Índias Orientais. Assim, enquanto os lusos ficaram com o lado leste, os holandeses que haviam ocupado toda Indonésia, a partir de 1613, adonaram-se da parte oeste da ilha. Em 1942, no transcurso da Segunda Guerra Mundial, ela foi ocupada pelos japoneses que, depois da derrota em 1945, a evacuaram. Quando os holandeses finalmente abandonaram a sua parte em 1946, ela foi reintegrada a Indonésia tornada independente. O lado Leste, porém, continuou ainda nas mãos dos portugueses por mais trinta anos ainda. Situação que se encerrou com a reocupação total da ilha pelas forças do General Suharto, em 1975. Do ponto de vista do direito internacional não há porque recriminar a Indonésia por tê-la ocupado, visto que, historicamente, a ilha de Timor, bem antes da chegada dos europeus colonialistas, fazia parte do antigo Reino de Java.
A crise geral da Indonésia
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Tumultos em Timor Leste, 1999
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A crise timorense ganhou dimensões internacionais por duas razões: a primeira delas deveu-se pela outorga do Prêmio Nobel da Paz de 1996, a dois dos seus líderes engajados na causa separatista. Aquele laurel foi um estimulo dado pela Comunidade Ocidental para que a população local resistisse as autoridades indonésias; a segunda, decorreu do fim ditadura do General Suharto, deposto em maio de 1998, após uma rebelião civil em Jacarta. A fragilização política da Indonésia pós-ditatorial e o clima caótico que se instaurou em boa parte do arquipélago, estimulou os separatistas do Timor Leste. O novo governante indonésio, o Presidente B.J. Habibie, um homem de transição, acatou as pressões feitas pelos ocidentais(*), concordando com a realização de um referendo, supervisionado pela ONU, onde a população timorense poderia decidir-se a favor ou contra a continuidade da sua integração com a Indonésia.
(*) Nas primeiras eleições livres realizadas na Indonésia em mais de 30 anos, ocorridas en junho de 1999, o partido da ditadura, o Golkar, foi derrotado pela candidatura oposicionista de Megawati Sukarnoputri, filha de Sukarno, o herói da independência da Indonésia que se tornou a nova presidente em novembro de 1999.