Mercosul, um negócio inacabado
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A unidade e a sincronia (mural de David Siqueiros)
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Uma das prováveis razões da crise que se alastra atualmente pelo Mercosul, uma das poucas idéias inteligentes geradas na América do Sul, primeiro atingindo a Argentina e , em seguida, o Uruguai, foi a inoperância das elites políticas que o compõe, especialmente a da brasileira. Ao invés de agilizar, como fizeram os europeus, os procedimentos que acelerassem ainda mais a integração dos seus membros, dotando o Mercosul de um corpo sólido, ao mesmo tempo estável e flexível, capaz de enfrentar coletivamente as crises financeiras e as especulações de toda ordem, deixaram-no despreparado frente as intempéries e trovoadas vindas de fora.
A dramática contradição
"Por que não fomos capazes de resolver ainda o nosso problema fundamental que é unir o crescimento econômico com a justiça social, e ambos com a democracia política? Por que não fomos capazes de dar à economia e à política a continuidade que existe na cultura?" Carlos Fuentes - El espejo enterrado, 1992 |
Carlos Fuentes, um fidalgo mexicano do nossos tempos, escritor e ensaísta de merecida fama, acredita que a América Latina, entre tantas mazelas, sofra de um incurável contradição. É capaz de produzir maravilhas na cultura, nas artes e na música, mas no campo da política consegue apenas alternar tiranias com incompetências eleitas de toda ordem. No que toca à economia não é diferente. Para cada escritor como Machado de Assis, Garcia Márquez ou Jorge Luís Borges, a área fazendaria gera inflações monstruosas, planos mirabolantes, moedas de fancaria, chegando-se até o “corralito” dos argentinos de hoje. È uma danação só.
Entre tantas ocasiões perdidas, omissões, ausências de valentia de toda a ordem, certamente que ele, se bem informado, destacaria a medíocre atuação da elite política brasileiras nesses últimos anos no que toca a liderança do Mercosul. Quando os protocolos do acordo foram assinados em 1985, pelos presidentes Alfonsin e Sarney, seguidos do Tratado de Assunção de 1991 e do Protocolo de Ouro Preto de 1994, imaginava-se que o passo seguinte, urgentíssimo, a ser dado pelos dirigentes brasileiros, líderes naturais do continente sul-americano, era providenciar mecanismos que congregassem os países da região em instituições supranacionais. Optaram , todavia, por uma aproximação de governos não de povos, desprezando a melhor solução que era eleger-se um parlamento do Mercosul, como chegou-se a cogitar.
Foros de técnicos, não assembléias
Criaram, entrementes, um conjunto de foros técnicos mas não uma assembléia democraticamente sufragada por todos os quatro povos, câmara que serviria de respaldo às medidas legais a serem adotadas, especialmente nas emergências, para fortalecer os múltiplos e complexos campos desta supercomunidade em construção (O Mercosul, com um PNB de U$ 1 trilhão de dólares, envolve a vida de quase 200 milhões de pessoas, espalhadas num território de 11 milhões de km2.)
E, feito isso, seguindo as lições da Europa, logo tratassem de emitir uma moeda em comum, mesmo que apenas contábil em seus começos. Passado o tempo, entretanto, nada dessas obviedades ocorreram. No máximo deixaram os procedimentos de consolidação do Mercosul a serem tocados por inexpressivos burocratas, cuja velocidade em agir deixou muito a desejar.
Cabia, pois, primordialmente, à elite politica brasileira empenhar-se nessa integração, afinal um dos sonhos secretos dela, pelo menos era o do Barão do Rio Branco, era fazer na América do Sul, ainda que por outros meios, o que os Estados Unidos realizaram no hemisfério norte. Todavia, o que se viu foi lamentável. Atordoado pela crise asiática e por pressões de todo o lado, a direção econômica fraquejou concedendo a desvalorização do real. Deu-se então o clássico “salve-se quem puder”, onde os membros do Mercosul, ao invés de agirem em comum numa ação sincronizada para solucionar a crise, trataram de, cada um, de nadar por si.
Inapetência, inoperância
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A volta a condição de pedinte (mural de David Siqueiros)
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O resultado ai está. A Argentina, vitima maior da instabilidade causada pela desvalorização do real, encontrar-se atolada numa dolorosa crise, que, agora , atravessando o Rio da Prata, alcança o Uruguai. Todos dois reduzidos à situação de pedintes. É exemplo significativo da inapetência ou inoperância da elite politica brasileira em comandar o processo de apoio aos seus vizinhos o fato de que quando o México abalou-se pela crise de 1988, na época do Presidente Salinas de Gortari, o Presidente Bill Clinton amainou o desastre com um pacote de U$ 20 bilhões de dólares para salvar os mexicanos , enquanto que o Brasil, retirando-se as declarações de apoio de praxe, pura retórica, apenas conseguiu enviar para a Argentina umas caixas de insulina para socorrer os diabéticos locais. Não é que as iniciativas, por aqui, estejam condenadas ao fracasso, tratam-se antes de tudo de uma vocação para os negócios inacabados.