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Do imperialismo ao império

A morte do dragão imperialista (pôster de Dmitri Moor, 1919)
Vive-se hoje sob a égide do imperialismo norte-americano? A primeira vista tudo indica que sim. Os Estados Unidos concluíram o século XX e transitaram para o novo milênio como a única superpotência restante. A nação que, sozinha, consegue lançar-se em bombardeios e travar guerras em distancias geograficamente tão díspares como no Kosovo , na região balcânica, e o no Afeganistão, na longínqua Ásia Central, ao mesmo tempo em que prepara uma vasta operação de ataque ao Iraque, no Oriente Médio. Dispõe de um poderio de alcance universal que pode esmagar quem quiser na face do planeta. Na conclusiva tese de Michael Hardt e de Antonio Negri, autores do sucesso "Império", publicado pela Harvard University Press em 1993, os Estados Unidos não são entretanto a repetição dos velhos império coloniais europeus. Há um império regendo o mundo sim , mas os Estados Unidos não são os senhores absolutos nele, nem impedem ninguém que se manifeste contra isso.

A transferência de soberania

O império inglês sentindo-se amarrado pelas forças da globalização (caricatura de McLachlan)
O lento declínio da soberania dos estados-nacionais contemporâneos, resultante da crescente e cada vez mais acelerada globalização, não significa que a soberania simplesmente tenha se extraviado ou sumido. Ela sim mudou de lar, não se encontrando mais confinada, tal como antes, nos acanhados limites territoriais que separavam os estados uns dos outros. Para a dupla Hardt e Negri, ela transferiu-se para o que eles designaram de "Império", definido por eles como "a substância política que , de fato, regula essas permutas globais. O Poder Supremo que governa o mundo". Ela, a soberania, metamorfoseou-se, assumindo uma roupagem costurada em teia por uma série de mecanismos nacionais e supranacionais, unidos por uma lógica ou regra única (tais como o FMI, o Banco Mundial, o GATT, etc...). A nova forma da economia daí resultante, a soma dos desempenhos nacionais com as determinações de um mercado e de instituições cada vez mais globais, é o que eles designam como "Império".

Imperialismo e Império

John Bull and Oncle Sam, diferentes apesar de iguais
Para os dois autores, trata-se de um imenso equivoco acreditar ou defender que a situação presente, de presença marcante dos Estados Unidos no mundo, nada mais é do que o prolongamento das antigas políticas, econômicas, financeiras e militares, praticadas pelos impérios colonialistas europeus que começaram a desaparecer depois da Segunda Guerra Mundial. O Império de hoje não é o Imperialismo de ontem renovado.
Em primeiro lugar porque ele, o Império, não está assentado num território. Ao contrário, ele não tem um centro fixo só de poder como comumente havia, por exemplo, na época do imperialismo inglês (identificado pelo Palácio de Windsor de Sua Real Majestade, pelo Parlamento britânico e pela City londrina). O império de hoje é um vasta aparelho descentralizado e desterritorializada, uma gigantesca máquina que gradualmente incorpora o mundo inteiro dentro das suas fronteiras sempre abertas, formando um impressionante “arco-íris imperial global”. Neste processo aglutinador, as conhecidas divisões espaciais dos três mundos (o primeiro, o segundo e o terceiro mundo), misturam-se cada vez mais, provocando a miscigenação delas.

O declínio do operário

Dois fenômenos novos resultam daí; o primeiro deles indica a perda da importância da mão-de-obra industrial, principal bandeira e vanguarda da constituição marxista e socialista de um mundo dominado pelo trabalho, substituída pelo que eles apontam como “mão-de-obra comunicativa, cooperativa e cordial”, formada pelas novas relações produtivas geradas pelo emprego maciço da tecnologia. Em segundo, esta situação faz com que a produção da riqueza tende a ser produção biopolítica (isto é, que projeta uma vida especial, adaptada aos avanços sucessivos e ininterruptos que formam o mundo contemporâneo).

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