Paquistão e Índia: a mosca e o elefante
Os dois principais países do subcontinente indiano, o Paquistão e a Índia, resultados da partilha de 1947, novamente encontram-se em estado de guerra. O motivo como da outras vezes é a situação do estado limítrofe da Caxemira, onde atua um poderoso movimento separatista muçulmano. Este pretende levar aquela região da Índia a integrar-se no vizinho Paquistão ou fazer da Caxemira mais uma república islâmica. Entrementes, sucedem-se naquela conturbada região os atentados terroristas dos muçulmanos separatistas seguidos das represálias desencadeadas contra eles pelo exército indiano.
Lutando pelos muçulmanos
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Jinnah e Gandhi
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Lord Mountbatten, o último vice-rei da Índia exasperou-se. Seus encontros com Mohammed Ali Jinnah, o líder da Liga Muçulmana pareciam-lhe um diálogo de surdos. Não havia maneira de convencê-lo a aceitar a idéia de uma Índia unificada, um poderoso país onde os seguidores de Vishnu e os do Profeta pudessem viver em paz sob a mesma constituição e gozando dos mesmos direitos. Jinnah, um bem-sucedido advogado, magro, alto e vestido com muita elegância, era o oposto de Gandhi que vivia quase como um mendigo com um lençol enrolado no corpo, apoiado num cajado. Ele tinha a firme convicção de os muçulmanos teriam vida curta numa Índia independente. Bastaria o último oficial inglês reembarcar para a metrópole para que os hindus dessem caça aos seguidores de Alá. E não estava errado. Para evitar tal catástrofe, Jinnah exigia que os ingleses concordassem com a partilha. Uma parte da Índia para os hindus e uma outra, pequena, para abrigar os muçulmanos. Jinnah tinha até um nome para o novo país: Paquistão, “o país dos puros”(na verdade a formação de um estado muçulmano na Índia foi idéia do poeta Allama Muhammad Iqbal, falecido em 1938).
"Quando leio a história da Índia, as vezes choro." (O ancião Vishwa Nath a V.S.Naipul) |
A partilha da Índia
O problema maior para realizar o Plano da Partição, anunciado em 7 de junho de 1947, era obter o consentimento de Gandhi. Como convencer o Mahatma a deixar cortar a sua amada Índia em duas? Mas o “ pai da Índia”, que passara a maior parte da sua vida em peregrinações pelo subcontinente (dizia-se que ele conhecia cada aldeia do país!) sabia muito bem qual era o sentimento da maioria da população para com os muçulmanos. Apesar dos seus apelos, jejuns e súplicas no sentido de pacificar os ânimos entre os indianos de fé distinta, era consciente do ódio que os adeptos de Maomé eram alvo. E não enganou-se. Naquele verão de 1947, a noticia de que um novo país seria formado com os pedaços da Índia só para acolher os muçulmanos, encheu os olhos da maioria do povo de um sangue colérico, assassino. Para os nacionalistas indianos entregar o Vale do Indo e a embocadura do Rio Ganges, o mais sagrado dos rios dos hindus, para que nos antigos estados do Punjab e de Bengala servissem de bases do Paquistão Ocidental e do Oriental ( hoje Bangladesh) era mutilar o país.
Por sua vez, nas áreas onde os islâmicos eram a maioria, no nordeste e o noroeste da Índia, a separação incitou outro tipo de sentimento. O povo do Profeta pertencia aos estratos sociais inferiores da sociedade indiana, e abandonara o complicado e cruel sistema de castas refugiando-se na mesquita e na leitura do Corão porque , como é sabido, aos olhos de Alá, o indigente e o ricaço são iguais. Para eles, para aquela massa de pobres, chegara o momento de dar um basta na secular exploração e nas cotidianas humilhações que eram vítimas nas mãos dos hindus ou nas dos bem postos sikhs, comerciantes hábeis e diligentes. No momento em que as autoridades providenciavam o deslocamento, por trem ou a pé, das multidões hindus, empurrados para as fronteiras da Índia, e que os muçulmanos eram levados aos magotes para os lados do Paquistão, deu-se a catástrofe. Tratava-se de uma das maiores migrações de todos os tempos: 10 milhões marcharam para longe de onde nasceram. Na Velha Delhi, em Lahore, em Calcutá, em Rawalpindi, em Simla, no Peshawar, em Amritsar, nas grandes cidade da Índia , ou mesmo nas minúsculas aldeias, um monstruoso rugido homicida ensurdeceu a todos.
A grande matança
Em países ricos recorre-se às armas de fogo ou às bombas para um crime. É uma morte barulhenta mas rápida. Nos pobres não. Multidões de indianos miseráveis, hindus atrás de muçulmanos, muçulmanos atrás de hindus, corriam pelas ruas, pelos bazares, templos e mesquitas, perseguindo suas vítimas com paus, sarrafos, pregos e pedras. Os linchamentos alternavam-se com as lapidações. Cadáveres, aos milhares, jogados nas sarjetas, as centenas, eram dilacerados, estraçalhados, mutilados, surrados e esquartejados por mãos e dentes enlouquecidos. A sordidez enlaça o pobre até na hora da morte. Quantos se foram naquela voragem assassina de 1947? Para dolorosa vergonha de Gandhi, os indianos ao invés de irmanaram-se no contentamento pela independência alcançada, celebraram-na carregando milhares de corpos para o necrotério ou para as piras crematórias. Dizem que o venerável ancião - que afinal foi a primeira vítima célebre da guerra indo-paquistanesa, assassinado em 1948 - foi convencido a ceder quando alguém lhe disse que os muçulmanos na Índia, dado que não ultrapassavam a 10 ou 12% da população total, não passavam de “ uma mosca nas costas de um elefante”. Mas o Paquistão não tornou-se uma mosca e sim um infernal marimbondo que , desde sua fundação, não parou de, aqui e ali, lançar o seu ferrão nas costas do elefante indiano, tornando-se o seu principal inimigo. Um marimbondo, diga-se, cujo ferrão hoje é atômico.