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França: de De Gaulle a Le Pen - O Marechal Pétain explica a situação

O Marechal Pétain e o General De Gaulle, camaradas e depois inimigos
Com o país inteiramente prostrado, o Marechal Pétain assumiu a responsabilidade de explicar aos franceses a nova situação em que passariam a viver, no que Jules Roy chamou de “ o grande naufrágio”. Numa alocução pelo radio, disse aos franceses que apesar de grande parte do território nacional encontrar-se ocupado, a honra estava salva! Afirmou não haver condições de lutar contra o invasor a partir das colônias, pois qualquer resistência era inútil. A França, pelo menos, não seria administrada senão por franceses. Uma Nova Ordem começava num quadro de uma vida muito dura. Pétain, porém prometeu restaurar a França com calma, trabalho e dignidade, convidando a todos para uma necessária reordenação intelectual e moral. Segundo ele a França fora batida por ter “ muito poucas crianças, poucas armas e pouquíssimos aliados”. Culpou também o passado recente, a política dos partidos e as rivalidades ideológicas que retiraram a coesão interna do país. Era tempo, pois, de desencadear uma Revolução Nacional, tendo ele por chefe, que substituiria os valores da França de 1789, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, pela trindade conservadora Família, Trabalho e Pátria.
Em seguimento ao seu Discours aux Français, numa Mensagem aos Franceses, ele apresentou, em outubro de 1940, o seu programa político-social. O novo regime seria uma hierarquia social, não apoiando-se mais “nas falsas idéias de igualdade natural dos homens”, mas sim “na igualdade de oportunidades dadas a todos os franceses de provar suas aptidões para servir”. A Revolução Nacional seria baseada no respeito absoluto à autoridade, cuja representação mais visível era o Marechal Pétain, chefe incontestável do regime, seguido da alta hierarquia da Igreja Católica, e no programa geral da direita francesa. Mantendo-se a observação dos termos de subordinação estabelecidos pela Alemanha Nazista. O regime de Vichy, no seu formato geral, aproximou-se muito do modelo adotado pelo General Franco na Espanha: ultraconservador, católico-tradicionalista, antidemocrático e anticomunista, sustentado pela direita fascista, papel que na França foi desempenhado pela Action Française, a Ação Francesa, liderada por Charles Maurras. A isso acrescentou um tempero racista, empenhando-se em ações anti-semitas que visavam a entrega dos judeus estrangeiros e franceses aos alemães ( 78 mil judeus foram embarcados para os campos de extermínio durante o regime de Vichy)
As posições ideológicas defendidas por eles, pelos integrantes do regime de Vichy, eram a negação completa dos ideais de 1789, inserindo-se na tradição contra-revolucionária francesa que vinha dos tempos da Revolta dos Chouans de 1793-1799, passando pela campanha anti-semita dos anti-dreyfusard de 1894-1900, e na tentativa de derrubar a IIIª Republica, ensaiada pelos fascistas da Camelots du Roi, nas manifestações ocorridas em 6 de fevereiro de 1934, em Paris.

De Gaulle, um homem só frente ao Oceano

Naquele clima de derrota, de desmoralização nacional, onde milhões de franceses deram de ombros, tristonhos, conformados com o destino de viver doravante sob a ocupação alemã, um só homem ergueu-se, indignado contra a vergonhosa capitulação: o General Charles de Gaulle. Indicado pelo governo de Paul Reynaud, como subsecretário de Estado para os assuntos da Guerra e oficial de ligação junto aos britânicos, ele, inconformado com a atitude capitulacionista dos seus colegas e da população em geral, insistia com o governo para que a França transladasse suas tropas da metrópole para as colônias africanas, para de lá continuar resistindo aos nazistas invasores. Tudo infrutífero. Sendo assim ele decidiu-se a voar para Londres e , apresentando-se ao primeiro ministro Winston Churchill, para continuar mantendo viva a chama da resistência assumindo a liderança dos chamados “franceses livres”. Estes nada mais eram do que soldados e oficiais que haviam sido embarcados em Dunquerque durante a fuga do exercito inglês e que estavam acampados na Inglaterra. De Gaulle contava inicialmente com um contigente limitado a 7 mil homens e passou o restante dos quatros anos de da guerra atuando como o único representante da verdadeira França ( o que fez com que o Regime de Vichy o condenasse à morte). O desafio era enorme, daí ele ter dito que sua situação em 1940 era a mesma de um ser solitário frente a vastidão de um oceano. Para galvanizar a tenção do povo francês ele enviou pelo rádio, no dia 18 de junho de 1940, um apelo a que resistissem ao invasor:
A Todos os Franceses
A França perdeu uma batalha!

Mas a França não perdeu a guerra!

O governo existente capitulou, cedeu ao pânico, esquecido da honra, entregou o país à servidão. Entretanto nem tudo está perdido!
Nada está perdido porque esta guerra é uma guerra mundial. No universo livre, forças imensas ainda não entraram em ação. Um dia estas forças esmagarão o inimigo. É preciso que França, neste dia, esteja presente na vitória. Então ela reencontrará sua liberdade e sua grandeza. Tal é minha meta, minha única meta!
Eis porque eu convido a todos os franceses, ou aqueles que assim se acham, a unirem-se a mim na ação, no sacrifício e na esperança.
Nossa pátria está em perigo de morte. Lutemos todos para salvá-la!
Viva a França!


General Charles De Gaulle
- Londres -

"A TOUS LES FRANÇAIS”
La France a perdu une bataille !
Mais la France n'a pas perdu la guerre !
Des gouvernants de rencontre ont pu capituler, cédant à la panique, oubliant l'honneur, livrant le pays à la servitude. Cependant rien n'est perdu !
Rien n'est perdu, parce que cette guerre est une guerre mondiale. Dans l'univers libre, des forces immenses n'ont pas encore donné. Un jour, ces forces écraseront l'ennemi. Il faut que la France, ce jour-là, soit présente à la victoire. Alors elle retrouvera sa liberté et sa grandeur. Tel est mon but, mon seul but !
Voilà pourquoi je convie tous les Français, où qu'ils se trouvent, à s'unir à moi dans l'action, le sacrifice et dans l'espérance.
Notre patrie est en péril de mort.
Luttons pour la sauver !
VIVE LA FRANCE !
18 juin 1940
GENERAL DE GAULLE
QUARTIER-GENERAL
1, CARLTON GARDEN'S
LONDON, S.W1"

Franceses LivresRegime de Vichy
Líder: General Charles De GaulleSede: LondresPosição de resistência à Alemanha Nazista, lutando ao lado dos aliadosApoiado pelos remanescentes do exército francês acolhido na Inglaterra e pela opinião democrática dos países ocidentaisCaracterísticas gerais: aliança com as forças resistentes dos socialistas e comunistas francesesLema; Liberdade, Igualdade, FraternidadeLíder: Marechal PétainSede: VichyRegime de colaboração com a Alemanha NazistaApoiado pela direita francesa ( Action Française), pela Igreja Católica e pelas Forças Armadas Características gerais: ultraconservador, antidemocrático, anticomunista e racistaLema; Família, Trabalho, Pátria

A França no após-guerra

Cartaz anti-Gaulista de 1968
Com a vitória dos aliados, assegurada no fronte ocidental desde o desembarque anglo-americano na costa da Normandia francesa, em julho de 1944, a França viu restabelecida a ordem democrática. No dia 26 de agosto de 1944, o General De Gaulle, teve a sua grande consagração no desfile triunfal pela Avenida dos Campos Elísios quando caminhou em meio à multidão como um libertador da França, tornado-se uma figura histórica tão intensa como Joana d´Arc fora na França Medieval. Após um período na chefia do novo governo, época em que fundou o RPF ( Ressemblement du Peuple Français), em 1947, o partido gaulista, ele retirou-se da vida política, em 1953, para escrever suas memórias da guerra na sua propriedade em Colombey-les-deux-Eglises. Enquanto isso , seu inimigo político, o Marechal Pétain, condenado à morte por traição, teve a sentença comutada à prisão domiciliar perpétua.
. Anos mais tarde, em 1958, devido ao impasse da Guerra da Argélia ( 1957-1962), o General De Gaulle, atendendo ao clamor nacional, reassumiu os destinos do pais. Período perigoso quando ele enfrentou corajosamente os atentados terroristas da OAS ( Organization de l´armée secret), formada por militares da extrema direita que não aceitavam a independência da Argélia. Um desse atentados deu-se em Pont-sur-Seine, em 8 de setembro de 1961, e o outro em Clamart, em 22 de agosto de 1962. Para reforçar ainda mais a autoridade do presidente da republica, visto o clima de guerra civil em que o país se encontrava, ele introduziu o voto direito para a suprema magistratura da França. Ao mesmo tempo, solucionado o problema argelino, procurou nos seus mais de dez anos de chefia, retirar o país da influência direta dos Estados Unidos, proclamando a necessidade da unidade européia “ do Atlântico aos Urais”, afastando-se da OTAN ( Organização do Tratado do Atlântico Norte). O General De Gaulle somente deixou o poder quando sentiu-se profundamente abalado pela Revolta Estudantil de Maio de 1968, momento em que Paris tornara-se uma praça da guerra. Retirado para sua cidadezinha, depois do resultado insatisfatório do referendo de 1969, lá ele faleceu em 12 de abril de 1970. A maior personalidade política da França contemporânea, inimigo jurado da extrema direita, morreu na mais completa solidão.

Le Pen e o Front National

Dois anos depois da morte do General De Gaulle, Jean-Marie le Pen, um ex-combatente das guerras coloniais, fundou o Front National, em 1972. Organização ultradireitista que , recuperando a tradição contra-revolucionária herdada da Action Française e do Regime de Vichy, indicava como o principal inimigo da França o imigrante. A combinação entre e estagnação demográfica, decorrente de duas guerras mundiais, e a necessidade de mão-de-obra para a reconstrução do país, depois de 1945, fizeram com que a França, que perdera um quarto da sua riqueza nacional na guerra de 1939-45, acolhesse milhares de imigrantes vindos da região do Magreb ( Argélia ) e da África Equatorial, antigas possessões do império francês. Gente que veio assumir os trabalhos pesados nas obras públicas e nas lavouras.
Ocorreu que, com a saturação dos empregos na década dos anos 70, e o fim da recuperação da maioria das obras de infra-estrutura, os imigrantes deixaram de ser bem-vindos, atraindo contra si a fúria das agrupações racistas, que os culpam pelo aumento da violência urbana. Le Pen soube captar o sentimento xenófobo dando-lhe uma forma política – o Front National, que, desde então, vem disputando as eleições na França. Além disso, ele, em nome das suas posições ultranacionalistas, rejeita a Unidade Européia e a globalização, retomando a antiga bandeira da Action Française a favor de uma Europa dos Estados.
Ao tempo procura restabelecer um certo prestígio do Regime de Vichy, inimigo de De Gaulle, Le Pen, coerente, enfrenta Jacques Chirac, herdeiro político do gaulismo. Mesmo batido nas eleições de 5 de maio de 2002, nota-se um crescente aumento da influencia das teses racistas e antiunitaristas defendidas por Le Pen, não só na França mas em boa parte da Europa Ocidental.

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