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Le Pen, o último chouan

Le Pen
Depois de participar durante os últimos trinta anos das disputas eleitorais francesas, o líder direitista Jean-Marie Le Pen, alcançou resultados surpreendentes nas últimas votações para a presidência da república, realizadas em abril de 2002.. O Front National, movimento da ultra-direitista fundado por ele em 1972, converteu-se na segunda força política da França, deslocando momentaneamente a Esquerda (comunistas e socialistas) da luta pelo poder nacional. O seu programa, por sua vez, deita raízes na tradição da direita francesa, cujos vestígios últimos encontram-se na antiga província da Bretanha, região ultra-conservadora da França, terra onde Le Pen nasceu.

Balzac na Bretanha

Fougères, a Idade Média em estado puro
"Liberdade, igualdade, fraternidade” devem ser substituídos por valores bem mais criativos, notadamente aqueles adotados pelo governo de Vichy, atribuídos a Saint-Eloi: Trabalho, Família, Pátria"


Le Pen, 29 de abril de 2002

Aceitando um convite para visitar a Bretanha em 1828, Honoré Balzac encantou-se com o que viu. No caminho da janela da sua carruagem admirou bem de perto uma quantidade enorme de antigos castelos e fortalezas que se espalhavam em direção da estrada que chegava a Fougères, uma memorável cidadela, coração histórico da província. O país inteiro dos bretões, ao noroeste da França, pareceu-lhe um museu ao ar livre, como se a Idade Média não tivesse sido avisada dos novos tempos. Visitando o castelo de Fougères, as igrejas de São Leonardo e São Sulpício e passeando na Place aux Arbres, aspirando o ar das ruínas românticas que delas emanava, ele encontrou a inspiração para o que veio a ser o seu primeiro livro importante: Le dernier chouan, “O último chouan”, editado simplesmente como Les Chouans, publicado em 1829 ( no Brasil é conhecido como “A Bretanha em 1799”). Ao deparar-se com aquele universo pastoril, paralisado no tempo, dominado pela arquitetura religiosa e pelos fortins feudais, cercados por matas fechadas, ele entendeu o porque da Bretanha ter-se rebelado contra a Revolução Francesa. Não fora sem motivo que os romanos a chamaram-na de Finistere, o fim-da-terra.

A revolta dos chouans

Charrete e um vitral que registra a morte de Cathelineau, chefes chouans
A partir de março de 1793, padres com seus crucifixos, os nobres com suas espadas e os camponeses armados com foices e facões, a pretexto de serem contra as conscrições militares, ergueram-se quase que em uníssono contra a republica proclamada em Paris. Liderados por La Rochejaquelin e François Charette, 200 mil rústicos, formando o “ exército católico”, alçaram-se. Iniciava-se então uma longa e violentíssima guerra da reação contra as conquistas de 1789. Os jacobinos, entendendo o levante dos chouans, como os rebeldes realistas foram chamados, resultado de uma conspiração contra-revolucionária, arquitetada do exterior pelos ingleses, trataram a insurgência com ferro e fogo. “ La terre brûlée”, a terra bretã tinha que ser queimada, conforme determinou a ordem do general Turreau. A França moderna, desde aquela época, identificou a Bretanha como uma paisagem estranha ao corpo nacional. Uma região de teimosos jumentos empacados com os quatros pés no passado medieval, período do qual pareciam não querem sair nem pelos estrondos das canhonadas dos generais republicanos. Esta pavorosa guerra civil também serviu de cenário para uma outra novela famosa, o Quatre-vingt-treize, o “93”, de Victor Hugo que igualmente visitou a região, uns anos depois de Balzac, passando por lá em 1834 com sua amante Juliette, nascida Gauvin, em Fougères, filha de um ex-chouan.

Divisão da França

Maurice D´Elbee, generalíssimo do exército católico
A revolta dos chouans, também conhecida com a Guerra da Vendéia (1793-1799), dividiu ideologicamente a França. Desde aquela época, parte dela, a maior, proclamou-se liberal, democrática-republicana, secular, devota da Filosofia das Luzes, discípula assumida de Rousseau e de Voltaire, enquanto a outra parte, a menor, insistiu em afirmar-se monarquista-autoritária, católica e tradicionalista, que via no abade Baruel ( que considerava a revolução de 1789 uma conspiração dos maçons) e nos ultra-direitistas De Maistre e De Bonnald, os seus mais expressivos guias político-espirituais. Esta parte da França, a ultra-conservadora, foi quem voltou a emergir durante o caso Dreyfuss, ocasião em que, um oficial alsaciano de origem judaica fora injustamente condenado, em 1894, ao degredo por alta traição. Naquela época o pais rachou-se. Os conservadores e a direita afirmaram que o exército, alma armada da França, agira certo: os republicanos, socialistas e democratas, por sua vez, liderados por intelectuais como Emile Zola, tinham certeza que haviam condenado o homem errado. Para eles as autoridades militares haviam agido preconceituosamente.

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