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O anti-super-homem



"Cultivai, hoje, uma sadia desconfiança, ó homens superiores, ousados e sinceros! E guardai secretas as vossas razões. Porque o hoje pertence à plebe." - Nietzsche “Assim falou Zaratustra”, IV parte,1884

Por pregar inutilmente entre os homens, o profeta Zaratustra, cansado, recolheu-se de volta a sua montanha, de onde saíra uns tempos antes para a seu malograda missão. Solitário, sentou-se lá no alto, próximo da caverna, cercado pelos seus bichos de estimação, e, com um anzol e um caniço na mão, simulou estar atrás de peixes em águas que não existiam ao seu redor. Ele, de fato, não queria peixes, mas sim lançar sua isca no “mar dos homens”, para fisgar um deles. Não qualquer um. Mas um em especial: o super-homem (übermensch), a quem esperava fazer “subir à minha altura”. Acreditava que numa data qualquer, ainda que longínqua, o super-homem seria atraído pela mensagem do profeta-pescador Zaratustra.

Nesta sua conhecida fantasia, de glorificação do super-homem, Nietzsche apostava que a redenção da Humanidade futura, a do século 20 que então se anunciava, ocorreria com a chegada desse novo messias. Um salvador não provindo do mundo divino, do transcendental, mas dos mortais, compondo como que uma nova raça dominadora. Em bandos não teriam escrúpulos. Obedeceriam apenas as suas próprias leis e vergariam quaisquer outras demais vontades às suas, exclusivas, formando uma oligarquia de tiranos que consideravam a bondade, a solidariedade, o cristianismo e o socialismo, fraquezas desprezíveis.

Bem antes de conceber este imaginário ser anti-democrático, Nietzsche acentuou sua misantropia quando soube na Suíça dos eventos da Comuna de Paris de 1871. A noticia (exagerada) que o levante dos trabalhadores da capital francesa incendiara ou vandalizara honoráveis prédios, arruinando alguns dos sagrados símbolos da cultura européia, horrorizou-o. Desde então convenceu-se que todo o manancial artístico e cultural estava ameaçado pela possibilidade de outras rebeliões proletárias surgirem no futuro.

Passou a ver um mundo do futuro esteticamente cinzento, dominado pela crescente presença do kitsh e da vulgaridade democrática que, como uma mancha de óleo, avançava lançando sombras sobre o patrimônio histórico da Europa aristocrática, aviltando, plebeizando e degradando tudo na sua passagem. Daí, em resposta, o seu culto ao super-homem. Ele era a esperança. Destemido e impiedoso, seria um novo titã na defesa da cultura superior espantando a barbárie. Para salvá-la, esta cultura da elite, Nietzsche exagerou. Justificou até a necessidade da escravidão.

Corrido mais de século dos vaticínios do filósofo louco, é visível que grande parte dos seus temores não se confirmaram. Não foram as massas democráticas quem arruinaram o valioso patrimônio cultural europeu. Esta responsabilidade cabe inclusive a dois dos seus mais reconhecidos admiradores, Mussolini e Hitler, que, com suas guerras malucas, fizeram-no por desabar a bombas.

Porém como Zaratustra-Nietzsche prenunciou, a sociedade de massas moderna não se conteve em apenas ameaçar o mundo com sua ordinarice e espantoso mau-gosto, Não ficou só ai, na intimidação. Tudo se passa hoje entre nós como se os pobres de espirito, dominantes na comunidade multitudinária contemporânea, afinal convencidos de que não lhes reservaram nenhum Reino dos Céus lá no além, resolvessem ficar por aqui mesmo orientando ao seu capricho o universo artístico e estético, anunciando com estridência o seu vim, vi e venci. O produto disso é essa abominação visual e auditiva que nos cerca.

Pobres de modelos e privados de exemplos ilustres, como que dominados por uma perversão barroca, que prima em fazer do torto e do deformado um ícone, seduziram-se pelo que lhes estava mais abaixo ainda, pela coreografia e indumentária do marginal. Se os envolventes movimentos políticos totalitários do nosso século fracassaram, o totalitarismo estético da multidão sobreviveu. Caso Zaratustra retornasse entre nós e lançasse novamente sua esperançada farpa curva no mar dos homens, seguramente, como tantos outros profetas fracassados do nosso século, traria agora enganchado nela o antípoda do seu herói: o anti-super-homem.



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