O exemplo de Washington
 G.Washington, o bom exemplo da América |
"...a primeira regra da minha vida tem sido e será sempre a de cumprir fielmente com o cargo que eu aceitei, sejam quais forem as conseqüências" - - G.Washington ao dr. Craik, 1789
Os antigos romanos gostavam de contar aos filhos a história de Quinctius Cincinnatus, um fazendeiro que arava as terras com suas próprias mãos e que chegara a ser, por um curto período, ditador de Roma no século 5 a.C.. A destreza e a liderança dele em espantar os inimigos foi tamanha que o povo de Roma implorou-lhe para que continuasse a ser ditador por mais um tempo. Não desejando porém insultar a constituição em seu proveito, o probo homem rejeitou os apelos e retomou em seu sitio o trabalho com a charrua e os bois.
Pensando no exemplo de Cincinnatus, um grupo de oficiais norte-americanos, veteranos da recém finda Guerra de Independência, em 1783, decidiu-se a fundar uma sociedade com o nome do ilustre varão romano. Para a presidência honorária dela convidaram justamente o comandante supremo do Exercito Continental, o General George Washington. Não demorou a que se desentendessem com ele. Num dos artigos do regulamento da Society of the Cincinnati previa-se que os descendentes dos fundadores herdariam as honrarias. Washington viu nisso, na cláusula da hereditariedade, um desejo de estabelecer práticas monarquistas estranhas à república a ser instituída. Além disso horrorizava-o o nepotismo, como constatou o seu próprio sobrinho Bushrad ao ver rejeitada a sua demanda para uma procuradoria federal.
Uma Monarquia nas Américas?
 A.Hamilton, o secretário do tesouro simpático à monarquia |
No entanto, o empenho republicano dele não afastara as ameaças de uma possível restauração monárquica nas 13 ex-colônias libertas do colonialismo inglês. Mesmo tendo sido o regime presidencialista aprovado na constituinte de 1787, e Washington eleito como o primeiro mandatário do novo pais em 1789, a situação não se desanuviara. Dentro do próprio governo, no estratégico posto de Secretário do Tesouro, tendo a sua frente o jovem Alexander Hamilton, infiltrara-se a reação anti-republicana: "o esquadrão corrompido que", segundo Jefferson, "pretendia servir-se...para trazer um rei, lordes e comuns". Hamilton, uma versão americana de Edmund Burke, o líder ideológico do conservadorismo inglês, desconfiava da democracia, tornando-se "o maquinador secreto da oposição". Recaiam suas simpatias para "o sistema inglês", no qual o peso dos aristocratas era sabidamente bem superior aos dos democratas. Washington , apesar de ser lerdo no pensar (a constatação era de Jefferson), não se deixou seduzir em nenhum momento pelo brilho da coroa e pelas pompas do trono.
Apesar de muitos criticarem-no pela seriedade excessiva, denúncia de inclinação majestática (na verdade o coitado usava uma dentadura de madeira que lhe era extremamente incomoda e que impedia-o de sorrir), e também por vestir-se com veludo preto em desfiles com carruagens elegantes pelas ruas de Nova Iorque, então a capital, ele nunca segredou que aquilo eram encargos do oficio "que poucos encantos tem tal posto para mim", como confessou ao seu amigo o dr. Craik. O que mais desejava era largar aquilo tudo e voltar para Mount Vernon, a sua herdade na Virgínia.
A América, um exemplo para o Mundo
Washington foi um achado para os revolucionários americanos de 1776. Ninguém poderia acusar aquele potentado, dono de terras e de escravos, que até então fora fidelíssimo à coroa britânica, de radical. Com a adesão dele a causa da revolução, a independência ganhou respeitabilidade. O tempo todo ele teve consciência do que o nascente país representava. Sabia que os olhos do mundo inteiro voltavam-se ansiosos para saber no que iria dar aquela rebelião de colonos e se as instituições republicanas que fundaram no Congresso da Filadélfia de 1787 iriam ou não prosperar.
Sentar num trono, para ele, seria trair a confiança da massa de pequenos proprietários, jornaleiros e artesãos, a gente comum americana que pegara em armas para lutar pela igualdade e pela liberdade, e que sofrera o diabo para derrotar ingleses. O pior, pareceu-lhe, era o mau exemplo. O do sujeito que se aproveita de uma situação favorável para, manipulando as instituições, perpetuar-se no poder (nada pois tinha em comum com os atuais dirigentes latino-americanos). Morreu em 14 de dezembro de 1799 em Mount Vernon mesmo, respeitado por todos, reverenciado pelo mundo que lhe admirava ter provado que a política e a decência podiam andar juntas.
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