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Radiografia do pampa

Para Ezequiel Martínez Estrada, o soberbo ensaísta da Radiografia do Pampa (Buenos Aires, 1933), tais relatos tenebrosos, novelas do pútrido, não alteraram em nada as alucinações de opulência e esplendor que sempre excitaram a imaginação dos imigrantes que vieram para o Novo Mundo. Entre eles o fracassado pai de Ezequiel, um homem de Navarra, Espanha, que se desencantou na Argentina. Cada um que embarcava da Ibéria para as terras austrais vinha atrás da quimérica Trapalanda, sempre esperançosos em poder encontrar as barras douradas acumuladas em algum lugar inaudito, que ninguém vira antes, as quais bastaria por na algibeira e galopar de volta a um porto.


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O pampa era gado e solidão

Trapalanda não existia


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Uma terra de trabalho e dureza

A decepção porém, chegava de chofre. Por vezes, já no desembarque, em Buenos Aires mesmo. Ao entrarem pampa adentro, piorava. Espaço vazio, sem vivalma, deparavam-se, além da solidão absoluta, com "um cansaço cósmico que caia dos céus com todo o seu peso". Não havia nada no horizonte. Nunca se via onde acabava a terra e começava o céu. O pampa era o pampa. Os olhos, esbugalhados perante aquele mundo sem-fim, logo se desiludiam. Os filhos deles herdavam o malogro. Eram donos do nada, pois nunca ninguém encontrara a propalada Trapalanda. Concentraram-se então em Buenos Aires, que assim virou um enorme depósito de fracassos e frustrações dos que vieram antes e também dos recém-chegados. Tornou-se, a capital portenha, um "polipero monstruoso", como Martinez Estrada preferiu dizer.

A solidão e a imitação


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J.L. Borges

A república argentina, para ele, nada mais era do que "uma grande cidade de três milhões de quilômetros quadrados, com alguns terrenos baldios no seu centro e com dez quarteirões cercados por deserto". Buenos Aires, então - sublimando as desditas e tentando superar a imensa solidão em que seus habitantes se encontram no perdido mundo americano - , imitou Paris, repetindo-lhe o traçado urbano, as avenidas largas, o obelisco, e o gosto pelos cafés. Importou os costumes da Europa: a ópera, a psicanálise, e até o tango, cujos primeiros acordes ouviram-se no bairro dos gringos: la Boca. Até um poeta cego, Jorge Luís Borges, fez-lhes as vezes de um Homero, enquanto Victoria Ocampo, com sua Revista Sur, apresentava-lhes a intelectualidade européia em primeira mão.

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Victoria Ocampo

Martinez Estrada apelidou-a de "a cabeça de Golias". A civilização, a felicidade, enfim, veio-lhes de fora. Essa estrutura externa, a "amplitude, as aparências de vida heróica e rápida... de cidade cosmopolita e rica, de grande destino" não lhe extirpou, entretanto, a alma de vilarejo bárbaro, onde a brutalidade da região se acoitara e que, por vezes, irrompia, fazendo os seus moradores regredirem a cenas de espantoso canibalismo político, como tantas vezes se viu: de Juan Domingo Perón a Jorge Rafael Videla.


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