A Utilidade dos Relógios
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O Big-Bem, funcionando desde 1858
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Colocado no alto das torres, logo abaixo do sino, no centro das cidades, o relógio logo tornou-se popular. Em certos lugares chegou a ter um lugar só para si, como o Big-Ben em Londres. O seu imenso ponteiro não dependia mais dos humores ou da saúde do padre nem a do sineiro. Além disso, sua função foi outra, não atendo-se em orquestrar as orações e preces, mas sim em estabelecer a pauta para fazer os homens e as mulheres produzirem com maior proficiência. Com ele em ação desapareceram aqueles longos intervalos silenciosos dos sinos. O ponteiro dos minutos, introduzido a partir de 1670, rápido, ativo, rapidamente se difundiu.
A Disputa de Dois Mundos
Mas afinal o que estava por detrás da luta do relógio e o sino? Enquanto um lembrava as orações e preces marcando o tempo de um mundo contemplativo; o outro, preciso, exato, exigente, era expressão do mundo ativo. O pároco e o burguês, cada um com o seu medidor, lutavam pelo controle do tempo. Conforme as cidades foram enchendo-se de comerciantes, de mercadores, de banqueiros, de fabricantes, de mestres-artesãos e seus aprendizes, mais o relógio se
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O mosteiro deu lugar à fábrica
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fez presente e menos o sino era usado. Tão necessário ele se tornou que, desde o surgimento do "Ovo de Nuremberg" em 1542, milhares adotaram um relógio de parede em seus lares e em suas oficinas. Foi assim que preparou-se o caminho para que a fábrica superasse o mosteiro.
A Volúpia pela Precisão
Com o passar dos anos surgiram dois universos temporais distintos. O sino continuou reinando no campo e nos momentos solenes das coletividades, o relógio imperou cada vez mais sobre as cidades, onde aperfeiçoaram-no ainda mais. Com a revolução industrial e a concorrência cada vez mais acelerada entre os agentes econômicos, o tempo virou dinheiro. Nada mais podia perder-se. Para tender esta volúpia do homem moderno pela precisão e pelo número, inventou-se o cronometro para marcar-se com exatidão até os segundos. Em menos de cinco séculos, enquanto o sino viu minguar a sua importância, o relógio deixou o alto das torres e a parede das casas e afirmou-se no pulso das gentes, criando então um paradoxo: quanto mais gente os usa mais lhes assoma a sensação de terem pouco tempo.
A Tirania do Despertador
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O olho eternamente despertado
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O capataz, o chefe de escritório, o gerente, todos armados de relógios e de cronômetros, tornaram-se os disciplinadores das massas na sociedades industriais de hoje. Para atazaná-las ainda mais, inventou-se um desconstrutor de sonhos: o despertador, sonoro pequeno porrete que agride com louca estridência as últimas profundezas do cérebro adormecido para fazer com que a pontualidade entrasse no rol das virtudes, e o atraso no dos pecados. Aquilo que surgiu para emancipar o homem dos badalos do sino, gradativamente tornou-se um tirano, o Grande Irmão que se faz presente em todos os momentos da vida, não dando folga nunca, não afrouxando jamais.
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