Os Baconianos
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F. Bacon, este teria sido o verdadeiro Shakespeare
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A teoria de que Shakespeare não era o autor de Romeu e Julieta ou de Otelo apareceu pela primeira vez em 1769, por obra de um tal de Herbert Lawrence, tendo acolhida muito tempo depois, em 1848, por um sujeito chamado Joseph Hart, que retomou a hipótese do bardo não ter sido o verdadeiro autor do que se imaginava ser a culminância das letras inglesas. Quem tornou-se o verdadeiro tambor da causa anti-stratfordiana (os stratfordianos eram os que defendiam a autenticidade de Shakespeare) foi Délia Bacon, uma escritora americana de Ohio, radicada na Inglaterra desde 1853. Dizendo-se uma provável descendente do filósofo Francis Bacon (morto em 1626, dez anos depois do falecimento de Shakespeare), tentou provar que os textos do bardo eram resultado de um trabalho em equipe liderado na sombra por seu ilustre antepassado. Ela desprezava Shakespeare, a quem chamou de "caçador clandestino de Stratford", dizendo-o ser apenas um autor "vulgar e inculto" dirigindo uma companhia de "sujos e intratáveis grupo de atores". Mas qual a razão de Bacon não ter assumido a autoria daquelas maravilhas todas?
Shakespeare servira como biombo
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Hamlet (Lawrence Olivier)
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Délia tinha resposta na ponta da língua. O seu parente era um homem da corte, alguém que privava com o rei James e com os grandes que circulavam ao redor do trono em Saint James. Também era um homem de ciência, um pensador profundo, um profeta da tecnologia. Da mesma maneira que Polônio, o ministro do rei Cláudio (o tio de Hamlet), escondeu-se por detrás da cortina para vigiar o príncipe louco, Bacon, impossibilitado por razões de preconceito social (um cortesão ou um ministro real patrocina o teatro, mas nunca escreve para ele), teria se utilizado de Shakespeare, um autor de fancaria, como um seguro biombo ou uma fachada para expor o seu talento dramático e cômico.
Esta versão, digamos aristocrática, explicava porque a obra dele era tão abrangente, tão extraordinária, expondo horizontes culturais tão diversos e variados como jamais houvera antes (nem depois) na língua inglesa. Um sujeito como Shakespeare, nascido num lugarejo distante uns 100 quilômetros de Londres, onde só havia uma medíocre Grammar School, e que nem sequer era dotado com um biblioteca municipal, não tinha estofo para preparar alguém hábil para trafegar pelo mundo de César, de Cleópatra, do rei Lear, ou dos Henriques e Ricardos, nem sensibilidade suficiente para retratar as fragilidades de uma Ofélia ou as maldades de Lady Macbeth.
Ao Agrado dos Admiradores de Conspirações
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O palco do The Globe Theater hoje
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A versão baconiana excitou inumeráveis seguidores, entre eles Mark Twain e, pasmem, Sigmund Freud. Em geral, os crentes da teoria conspirativa da história, que naturalmente adoraram a possibilidade da existência de um autor oculto, manipulando Shakespeare por detrás dos bastidores, soprando maravilhas no seu ouvido inculto e bárbaro. Um deles,
sir Edwin, chegou a identificar um criptograma na palavra
Honorificabilitudinitatibus, presente no
Love´s labours´s lost (Ato V, I,44), a mensagem latina
HI LUDI F. BACON NATI TUITI ORBI, ou seja "essas peças, escritas por F. Bacon foram preservadas para o Mundo". Se realmente a inveja é diligente, o preconceito o é ainda muito mais.
O site recomenda
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Park Honan - Shakespeare, uma vida (Cia. das Letras, SP., 2001)
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