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Shakespeare, o Filho do Luveiro


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Do preconceito social não estão livres nem os grande gênios. Como William Shakespeare, por exemplo, considerado pela maioria dos ingleses como o seu personagem favorito do milênio que se encerrou. As suspeitas que recaíram sobre ele deviam-se ao fato de sido filho de um fabricante de luvas de uma pequena cidade do interior da Inglaterra, que não educou-se nos antros sagrados da formação universitária das elites do reino. Conseqüentemente, lançaram dúvidas sobre ele ser o verdadeiro autor da estupenda obra que enriqueceu a língua inglesa e encantou os apreciadores do teatro do mundo inteiro. Algum outro, superior a ele na hierarquia social, é quem teria imaginado e escrito aquilo tudo.

Satirizando os Pedantes

"A inveja raramente é preguiçosa"

R.Greene, 1592


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Um palco da época elizabetana

Diz a crítica que Shakespeare, na sua comédia Love´s labour´s lost (Trabalhos de amor perdido), encenada provavelmente em 1598, ao fazer falar o personagem Holofernes, entremeando cada frase com um palavra ou citação latina, queria satirizar os mestres-escolas em geral. Especialmente aqueles a quem lembrava que lhe davam aulas na sua cidadezinha natal de Stratford-on-Avon, onde nascera em 1564. Na peça, o professor era um pedante que não parava de repreender o seu amigo Nataliel, um pároco que acompanhava o séquito de um princesa e fazia gosto em dizer que jamais "havia se alimentado de papel ou bebido tinta" e que, portanto, achava-se dispensado de ficar falando daquele jeito.

Dificuldades Financeiras


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A casa em que nasceu

Também descobriu-se - é Park Honan, o seu mais recente biógrafo, quem conta - no Shakespeare, uma vida (o original em inglês foi publicado em 1998), que John Shakespeare, o pai do jovem William, um bem sucedido fabricante de luvas, que depois deu para comerciar fardos de lã, foi constrangido a retirar o filho da King´s New School quando ele andava ao redor dos quinze ou dezesseis anos. Shakespeare pai, que chegara a ser um vice-bailio de Straford, algo como um subprefeito, passou a enfrentar, na década de 1570, sérias desavenças econômicas que impossibilitaram-no junto aos credores, fazendo com que sofresse um desagradável descenso social, a ponto de, pelo

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A possível classe onde o jovem William estudou

dinheiro ter ficado cada vez mais curto, ter que privar o seu rapaz do convívio com "os deuses do latim". Entre os quais o poeta Ovídio, que foi o autor favorito do grande dramaturgo por toda a sua vida, sendo que ele invariavelmente extraía alguma coisa, metafísica ou mundana, das "Metamorfoses". Logo, William Shakespeare teve um formação colegial incompleta. A figura engraçada do verboso latinista Holofernes foi uma maneira dele, Shakespeare, recordar jocosamente dos professores que ele tivera no seu tempo de escolar de turno inteiro.

Atraindo os invejosos

Não lhe fez falta uma formação superior. Ainda que sua escolaridade fosse precária, ela não tolheu-lhe a desenvoltura com que lidava com os clássicos e o desembaraço com que movia-se entre os bons textos literários e históricos do seu tempo. Porém, foi exatamente isso, esses estudos formais incompletos, o autodidatismo dele, que atraiu a diligência dos invejosos. E não foram só os seu contemporâneos, a maioria deles do meio dos espetáculos, pois muita gente depois, ao longo dos tempos, fez fila para desconsiderar seu gênio. O argumento básico que passaram a usar contra Shakespeare era de que um garoto do interior, com escassa formação em latim "e bem pouco grego" - um simples filho de um luveiro, que nunca circulara nas catedrais da cultura inglesa, como Oxford ou Cambridge -, jamais poderia ter escrito uma obra tão duradoura e colossal.

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