Hamlet e Don Quixote
 W.Shakespeare 1564-1616 |  M.de Cervantes 1547-1616 |
"O mundo está fora dos eixos. Oh! Maldita sorte! ...Por que nasci para colocá-lo em ordem!..." - Hamlet, I,V
"..é o meu ofício e exercício andar pelo mundo endireitando tortos, e desfazendo agravos" - D.Quixote, XIX
Um deles viveu nas frias terras do norte, no tenebroso Castelo de Elsenor na Dinamarca, onde o mar aliado ao vento implacável chicoteava a costa. O outro vinha de uma região de securas, de sol inclemente e chão pedregoso, a velha Mancha de Castela, terra perdida de Deus, avara em comida e em quefazeres. O príncipe Hamlet da Dinamarca e o cavaleiro Don Quixote de La Mancha, personagens respectivamente de Shakespeare e de Cervantes, foram os dois grandes ícones literários do homem ocidental nestes últimos quatro séculos. O primeiro por vingança, o segundo sem agravo pessoal algum, decidiram-se a sair das suas vidinhas para concertar as coisas que fugiram da atenção de Deus.
O drama do Príncipe Hamlet
Para Hamlet a existência tornara-se insuportável desde que o espectro do seu pai recentemente morto apareceu-lhe numa noite assombrada no alto da torre do castelo. O fantasma, tétrico, reclamava desforra. Contou ao filho que um crime ignominioso o vitimara. Seu próprio irmão, o rei Cláudio, o matara.
Atordoou-se o príncipe. Seu lar abrigava a traição e a maldade! A serpente acoitara-se na sua própria família. O mundo era injusto. O assassino, seu tio, não só usurpara o trono como arrastara sua mãe, a rainha Gertrudes, para um casamento feito às pressas, onde, suprema ignomia, serviram-se "os manjares" que, um pouco antes, " ainda mal esfriados", tinham sido oferecidos "na refeição fúnebre". Algo deveria ser feito. Faltava porém a Hamlet o talento para a ação. O máximo que conseguiu de imediato, além de aferrar-se ao luto e ao mau humor, foi entregar-se especulativamente à vingança.
O cavaleiro da Triste Figura
 D.Quixote e seu inseparável companheiro Sancho Pança |
D. Quixote de la Mancha, por sua vez, um nobre provinciano madurão, deixando-se assanhar pelas leituras que fizera. O relato das amalucadas e absurdas aventuras dos cavaleiros andantes o estimularam a ergueu-se da cama e do anonimato, lançando-o na ação. Enquanto o pensamento paralisava Hamlet, o fidalgo manchego, ao contrário, ativava-se em todas as confusões possíveis. Ambos acreditavam, em graus diversos, em encantamentos, em feitiços, em aparições de fadas e predições de adivinhos, e que, muitas vezes, os destinos humanos regulavam-se por humores sobrenaturais. Um viu gigantes onde giravam moinhos, o outro impressionou-se com fantasma do pai. O que unia os dois, diferentes em tudo o mais, era a idéia de fazer justiça num mundo tão falto dela.
Ambos, o príncipe e o cavaleiro, surgiram na imaginação de Shakespeare e de Cervantes quase que simultaneamente, acredita-se que nos arredores de 1600. Uns anos antes, em 1588, enquanto Cervantes, um modesto funcionário real de mão aleijada, saía a campo na Espanha para arrecadar mantimentos para prover a Invencível Armada - a poderosa frota com que Felipe II pretendia invadir o Reino da Inglaterra -, Shakespeare em Londres, ator iniciante e teatrólogo, preparava-se para a defesa da pátria produzindo uma série de peças históricas enaltecendo a belicosidade dos reis medievais ingleses - feros guerreiros - visando endurecer o coração do povo para os dias amargos que viriam.
 Shakespeare e Cervantes, em lados opostos no desastre da Armada espanhola |
Hamlet e Don Quixote
Num ensaio escrito em 1860, o grande contista russo Ivan Turgueniev viu-os, Hamlet e D.Quixote, como símbolos sociais antagônicos. O príncipe, indeciso e vacilante, preso às "pálidas sombras do pensamento", lembrava-lhe o patriciado liberal do seu país, enquanto que o ativíssimo espanhol, "graças a sua superioridade moral" que o colocava muito acima do outro, recordava-lhe os revolucionários de 1848, que não conheciam limites na sua coragem de desesperados. Que fossem! Mas também nada nos impede de entender a história desses famosos dois loucos, narradas uma na língua bárbara, a outra na latina, como um recado implícito deixado pelo bardo inglês e pelo sofrido escriba castelhano que, para endireitar as coisa do mundo é preciso ser-se um tanto maluco, e dotado com uma boa dose de desatino.
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