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O corpo como vergonha

Mas então o cristianismo venceu. Significativamente foi um homem das areias, um morador da beira do deserto, Santo Agostinho, o bispo de Hipona, na Tunísia de hoje, quem lançou o mais pesado manto da vergonha sobre a nudez do paganismo agonizante. Perante o deus cristão, o deus que estava em toda a parte, os homens e as mulheres deviam ocultar o corpo. Nem entre os casais, na intimidade, ele deveria ser inteiramente desvelado. O pecado rondava tudo.

Escondendo o corpo

reprodução
O Doríforo (de Policleto)
Tirante o rosto, nada deveria ser mostrado em público. A pele exposta passou a ser uma afronta, até um braço nu, como mostrou Machado de Assis, podia parecer uma perdição. O corpo, prisão da alma, suspeito, era pois um vexame. Então, durante os mil e quinhentos anos seguintes - do decreto de Teodósio suprimindo em 393 com os jogos olímpicos até sua restauração pelo Barão de Coubertin em 1896 - , o Ocidente, vexado de si mesmo, carregado de culpas por ser feito de carne e de sexo, assaltado por pudores, encobriu seus membros e os seus músculos.

A vitória do corpo

Agora, com o declínio final dos sacerdotes que condenavam a vida na terra, vemos a sua redenção. Um neopaganismo ressurge e a carne intensa, ativa, ainda carregando as cicatrizes do estigma, volta a ser soberana. Quer mostrar-se. Cobra do mundo os séculos em que a confinaram, em que a infamaram. Vinga-se esvaziando os templos e as igrejas lotando as academias e os estádios. Agora quer ouro, quer prata, e até o modesto bronze lhe serve.

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