O corpo olímpico
Não se pode entender a restauração dos jogos olímpicos, ocorrida há pouco mais de um século atrás, sem associá-los à questão do corpo. De que maneira o paganismo via o corpo e de que maneira o cristianismo o entendia: um como expressão da beleza, o outro como fonte do pecado. Eis a chave para entender-se o simbolismo dos jogos.
A nudez como natural
 Afrodite, deusa do amor |
Em qualquer cidade da Hélade, por todo o lado em que o passante olhasse só veria a nudeza. Nos pedestais lá estavam eles, os deuses ou deusas, em estado da natureza. Quando não assim, como no caso das Vênus e das Dianas, um diáfano véu as cobria sem, porém, mascarar-lhes as exuberâncias. Se fosse um Marte ou um Hércules, um elmo ou um escudo só bastavam. Quanto aos atletas, nem isso. Estava tudo lá. Reproduziam-nos com toda a sua harmonia geométrica e na extensão plena da sua beleza e até as intricadas nervuras, a intensa rede de veias e de tendões que lhes davam vida podiam ser vistas mais de perto.
"...quando o espírito se move a querer marchar e caminhar, imediatamente toca na substância da alma que está disseminada em todo o corpo pelos membros e pelos órgãos: o que é fácil, visto que as duas substâncias são ligadas. A alma por seu turno toca no corpo e assim, pouco a pouco, toda a massa avança e caminha,..."
Lucrécio - Da Natureza, Livro IV, séc. I
O choque com a nudez
São Paulo quando visitou Atenas, ainda que por poucos dias - estima-se que ao redor dos anos 50-55 - horrorizou-se. Não só por aquela descarada exposição de paganismo em céu aberto, pela quantidade incrível de ídolos de mármore e de bronze, mas porque eles estavam assim como Deus os criara. Homem da dura e áspera Palestina, onde senhores ou servos, velhos ou jovens, homens ou mulheres, açoitados por areias escaldantes, ocultavam-se atrás de turbantes e camisolões até os pés, o evangelista viu naquela exposição o reino de satã. Pouco depois, quando arengou ao público do areópago, pregou sem sucesso para que os atenienses se desfizessem das estátuas porque o verdadeiro Deus, do qual ele era um arauto, não podia ser copiado ou imitado por mãos profanas.
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