Começos Olímpicos
 Zeus, a quem os jogos eram dedicado (Perseus project) |
A trégua olímpica
"A verdadeira meta da luta é, sem dúvida, a vitória em si, e ela, sobretudo se alcançada em Olímpia, era considerada como a mais sublime da terra, já que garantia ao vencedor aquilo que no fundo era a ambição de todo o grego: ser - segundo a expressão de Eliano - admirado em vida e celebrado na morte." - Jacob Burckhardt - Historia da Cultura Grega, vol IV.
Conta a tradição grega que à cada aproximação dos jogos olímpicos, um dos quatro jogos que ocorriam na Grécia (os outros eram em Delfos, Nemene e Corinto, ditos jogos ístmicos) um emissário, chamado de spondorophoroi, percorria as regiões e anunciava nas cidades a trégua, a ekcheiria( que significava aperto de mãos), momento sagrado em que todos, mesmo os que em guerra estivessem, deviam baixar e guardar as armas para irem competir pacificamente nos combates esportivos. E assim faziam porque os jogos eram dedicados a Zeus, o pai de todos os gregos e não de um deus local qualquer. Acreditavam que o mensageiro, um arauto com um grande bastão, era um porta-voz da deidade e que suas palavras clamando pela paz necessária eram-lhes sopradas pelo próprio todo-poderoso.
Em pouco tempo, gregos vindo da Ática (Atenas), da Eubéia, da Beócia, da Fócida, do istmo de Corinto, da Grécia Jônica, de Creta, da Lacedemônia (Esparta), de Argos, da Arcádia, de Lócris, da Messênia, da Élida, de todas as ilhas do Egeu, e até do exterior, chegados da Sicília e do sul da Itália, apresentavam-se na pequena vila de Olímpia, na Élida, para o grande agón - a luta. Aqueles atletas todos lá estavam na esperança de poder subir no pódio como vencedor, ostentando em público, que por vezes chegava à 40 mil espectadores, a coroa de ramos de oliveira que os juízes colocavam sobre sua testa ao término de uma prova em que venciam.
O juramento a Zeus
Nas vésperas das disputas, os parentes dos competidores, seus treinadores, os aurigas e, depois, eles próprios, apresentavam-se na Sala do Conselho, para prestar um juramento coletivo. Ali se comprometiam a manter a mais completa lisura no procedimento esportivo. Nada de falsidades ou de subornos, nada de tentar maldosamente afastar ou eliminar um concorrente perigoso. Juramento este que era obrigatoriamente estendido aos fiscais e aos dez juízes que formavam os quadros olímpicos. Para reforçar as penalidades advindas de uma possível delinqüência, o interior da sala do juramento sagrado estava povoada com estátuas de Zeus, em todas elas ele empunhava um ameaçador raio com que, a creditavam eles, o soberano dos céus, fulminaria o infrator.
Para garantirem-se ainda mais da lisura das coisas, era leitura obrigatória de uns versos elegíacos intimidadores que estavam afixados numa placa de bronze aos pés do Deus do Juramento. Talvez o seu conteúdo, do juramento e da ameaça, não fosse muito diferente daquele registrado por Homero ( A Ilíada, Canto XVIII), quando Agamemnon diz "...que os deuses me castiguem , enviando-me os tormentos com que castigam o que peca contra ele jurando em falso." Feito isso, dava-se o sinal para que os antagonistas se apresentassem no local das provas.
 O Altis, o santuário de Zeus em Olímpia (Perseus Project) |
Os começos dos jogos
Evidentemente não há nenhuma precisão quando ao início dos jogos olímpicos. Nem sequer o século exato pode-se determinar. Mas é inquestionável a importância que eles adquiriram na cultura grega desde que se efetivaram. Tanto é que o registro do primeiro deles, quando Coribos venceu a primeira rupestre, que pelo nosso calendário teria ocorrido no ano de 776 a.C., passou a ser usado como o ano zero, como o marco inicial do calendário grego.
As lendas que envolveram seus começos são muitas. Numa delas, Zeus, ainda bem jovem, hospedado por Cronos (o tempo), resolveu disputar-lhe o trono, Vencido o rei do tempo, a jovem divindade que o sucedeu teria organizado os jogos para registrar seu entronamento naquela região da Élida. Noutra, a iniciativa teria partido de Hércules (Héracles), o gigante grego, um forçudo, que para estimular seus cinco irmão, chamados de Curetes, à guerra, teria organizado as primeiras provas. Tendo possivelmente tido início com o diaulos, uma corrida à curta distância, depois elas se diversificaram. Foi de Hércules a iniciativa de coroar o vencedor com um ramo de oliveira colocado na cabeça do bem-sucedido.
Por outro lado a construção original do templo de Olímpia teria sido erguida em homenagem a Cronos, não a Zeus. Este teria pois usurpado o edifício para si. Provavelmente os jogos olímpicos resultaram de uma evolução natural, sendo costume antiquíssimo organizar essas disputas nos momentos fúnebres, quando um grande herói era sepultado. Homero na Ilíada narra detalhadamente um desses espetáculos que adornavam as pompas fúnebres que cercaram a inumação de Pátroclo, o companheiro de armas de Aquiles (A Ilíada, Canto XXIII).
 Luta de punhos (vaso grego) |
Os jogos homéricos
Um dos melhores e mais sucintos relatos desses jogos fúnebres existentes na literatura grega foi deixado pelo próprio Homero, celebrado pela veracidade e emoção. Incinerado Pátroclo, depois de um funeral bárbaro cheio de vítimas, humanas e animais, imoladas em sua honra, Aquiles tratou de organizar as competições em homenagem ao seu escudeiro morto. Mandou então que trouxessem dos seus barcos as caldeiras, os trípodes sagrados, touros, bois, mulas, armas, ferro, baixelas de prata, belas e prendadas escravas e alguns talentos de ouro. Seriam os prêmios dados aos vencedores. Não demorou para que cinco guerreiros empunhando as rédeas dos seus fogosos corcéis, dessem a partida para uma sensacional corrida eqüestre pela planície de Tróia. Em meio a areia e as nuvens de pó que as rodas das bigas levantavam, os demais guerreiros à sombra, numa arquibancada improvisada, faziam a algazarra das torcidas enquanto alguns apostavam, até que despontou ao longe a testa de lua branca do cavalo avermelhado de Diomedes, o vencedor da prova e do prêmio.
Corridas, lutas e provas
No relato feito pelo imortal poeta constam praticamente todos os elementos que acompanhavam uma prova daquele tipo, desde a descrição dos animais e a decoração de alguns carros, até os conselhos que um pai, atuando como treinador, dá ao seu filho. Em seguida, Aquiles, presidindo os jogos e distribuindo prêmios, estimula a que se faça prontamente a luta de murros, a qual foi vencida por Epeio; a luta livre (hoje chamada de luta greco-romana) empatada entre Ulisses e Ajax; uma corrida de velocidade ganha por Ulisses, com o auxílio da invocação da deusa Palas Atenéia; uma luta de gládio que opôs Ajax ao feroz Diomedes; o lançamento de peso ganho folgadamente por Polipetes, enquanto uma precisa flechada num pombo deu um dos prêmios a Meriones. A prova derradeira daquela jornada, o lançamento de dardo, Aquiles achou por bem cancelá-la, distribuindo os regalos finais a Agamemnon e a Meriones.
Naquelas páginas de Homero estão todos os jogos que os se travavam então: a corrida de bigas, a luta de murros, a luta-livre, a corrida de velocidade, a luta de gládio, o lançamento de peso e de dardo e o arco e flecha. Com o passar do tempo outras variações vão sendo acrescentadas (corrida à longa distância, competições com carros puxados só por potros, só com éguas, com cavalos e mulas, etc..) nos diversos jogos disputados depois na Grécia, mas basicamente as modalidades eram sempre as mesmas.
 Ajax, o guerreiro que lutou nos jogos troianos(foto M.Förlag) |
Termos olímpicos
Agon, agones - Luta, combate, disputa, visão competitiva que a nobreza tinha da existência. Também entendia-se a assembléia do povo que vigiava os jogos olímpicos
Akon, ankyle - dardo, medindo 1,80 m, utilizado para lançamento à distância
Apene - um carro de corridas puxado por duas mulas
Apobates, anabates - o condutor que vai armado conduzido a biga e que dela salta para ir correr, por vezes leva junto um companheiro
Diaulos - uma corrida a pé que obrigava ao atleta dar duas voltas no estádio
Diskos - o disco lançado à distância pelo discóbolo
Dolichos - corrida a longa distância
Embolon - a divisão feita com pedra ou madeira que separava um pista da outra nas corridas de carruagens
Ekcheiria - a trégua obrigatória durante a duração dos jogos olímpicos
Gymnasium - local onde os atletas nus (gymna) faziam os exercícios
Halter - O halteres, na forma de um pequena bola, um peso a ser arremessado
Heraia - corrida feminina realizada em Olímpia em homenagem a deusa Hera
Herakles (Hércules) - herói grego com força extraordinária, encarregado dos doze trabalhos
Himantes - tira de couro de boi usadas para esmurrar
Himation - um manto
Hippios - corrida de curta distância
Hippodrome - local para corridas de cavalos
Palaestra - local onde os atletas preparavam-se para a competição
Pankration - luta livre, hoje chamada luta greco-romana
Pentathlon - competição que envolve cinco modalidades (corrida, salto, dardo, disco e luta), inventada pelo lendário Jasão, o argonauta
Spondoroforoi - mensageiro que anunciava a trégua e a data dos jogos olímpicos por toda a Grécia
Stadion - inicialmente uma unidade de medida equivalente a 600 pés (1.800 m) que terminou dando nome ao local das corridas
Strigil - instrumento para raspar a pele depois do banho, para remover os vestígios da competição na terra e na areia
Synoris - equivalente a uma biga, carruagem com dois cavalos atrelados
Tetrippon - carruagem de corridas puxadas por quatro cavalos ou potros
 Templo de Artemísia na estrada para Olímpia (Perseus project) |
