Darwin e o desencantamento do mundo
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Darwin, profeta das ciências naturais
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O seguimento dessa "luta contra Deus" - dentro do que Max Weber chamou de
Erzauberung, o desencantamento do mundo iniciado por obra dos Iluministas - , deu-se com a espetacular e escandalosa publicação dos trabalhos científicos de Charles Darwin na Inglaterra. O
On the Origins of Species (
A Origem das Espécies), em 1859, seguida do
The Descent of Mann (
A descendência do Homem), em 1871, implodiram a teoria bíblica da criação do Homem e da Natureza. Duas obras, diga-se, que tornaram-se os primeiros best-sellers científicos do mundo contemporâneo, com milhares de leitores entusiastas. As concepções de Darwin, desde então, causaram um abalo irreparável nas crenças religiosas da elite pensante.
Não é Deus quem pune, é o bacilo
O arremate disso deu-se nas ciências naturais com as descobertas dos bacilos e micróbios pelo doutor Pasteur, na França em 1863, e nas descobertas do doutor Koch na Alemanha, em 1882. Eram microorganismos que estavam por detrás dos processos de putrefação e das doenças, como tifo e a tuberculose, que assombravam os homens daqueles tempos, e não nenhum desejo do Ser Supremo em punir os pecadores.
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Doutor Pasteur e doutor Koch, o bacilo é o inimigo
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Deus é a imagem do pai
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Totem, metáfora primitiva da divindade
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Mas faltava ocorrer a morte de Deus em algo mais íntimo do homem, na sua consciência, na sua psicologia por assim dizer. Então veio Sigmund Freud. Em 1900, ele publica o seu célebre
Traumdeutung (
A Interpretação dos sonhos), como que anunciando para o século XX entrante o surgimento de uma nova mentalidade. Todos os terrores e fobias humanas nada têm a haver com as coisas do sobrenatural ou com os mistérios da alma. Tudo se dá no reino natural. É em meio a relação familiar, do nascituro com seus próximos, que todas as emoções e neuroses se formam. Desejos primitivos, mas naturais, reprimidos ou sublimados, é que dão energia à mente e moldam o comportamento dos indivíduos. Deus, assegurou Freud no
Totem und Tabu (
Totem e Tabu, 1913), nada mais lhe parece do que a poderosa projeção da imagem paterna incrustada desde cedo na mente humana.
Deus foi assassinado
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Nietzsche: Deus foi assassinado
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Deste modo, quando Nietzsche anunciou que "Deus está morto" no primeiro canto do seu
Also spracht Zaratustra (
Assim falou Zaratustra), em 1883, nada mais fez do que escancarar para o mundo literário o que já vinha sendo feito há muito tempo no terreno das ciências naturais e sociais. A lanterna de Diógenes que ele carregava apenas veio jogar luz sobre o que já corria solto no meio da ágora, Deus havia morrido. Os homens o mataram. Agora um nova raça de eleitos, segundo este burguês visionário (a expressão é de Helmuth Walther), deveria por si só suportar o peso desse crime, alçando-se a si mesmo como um novo homem, como a superação do homem, como um super-homem.
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