BUSCA + enter






Napoleão atravessa os Alpes

Mais uma vez noticia-se ter sido Napoleão envenenado por arsênico quando esteve aprisionado pelos ingleses na solitária Ilha de Santa Helena, onde faleceu em 1821. Leia a seguir um dos grande feitos militares daquele grande militar, ocorrido há 200 anos atrás.

Napoleão nos Alpes
Napoleão atravessando os Alpes

"Quando o homem que quer criar grande coisas precisa do passado, usa a história monumental" - F.Nietzsche - "Considerações intempestivas", 1873-6

Nietzsche disse que os grandes homens liam a história de uma maneira diferente da gente comum. Para o simples mortal a grandiosidade das coisas passadas resulta ser paralisante, fazendo vacilar a sua inteligência. Para os superdotados, ao contrário, ela, "a história monumental", tem o efeito de um desafio, de algo a ser superado. Pelo menos assim se deu com Napoleão. As incansáveis leituras que fez, quando ainda cadete, sobre o Mundo Antigo, tornando-o íntimo de Plutarco e de Tito Lívio, inspiraram-no a que ele, quando da célebre Campanha do Egito em 1798, seguisse o exemplo de Alexandre o Grande. Ao desembarcar lá levara junto, no bivaque dos regimentos franceses, uma notável equipe de mais de cem cientistas para tentar desvendar o enigmático país das pirâmides.

Até então o jovem general - tinha 29 anos então - fizera uma carreira meteórica. A Revolução de 1789, ao devastar a nobreza, abriu oportunidades de promoção da noite para o dia. O comando da força armada revolucionária era composto de egressos de todas as classes sociais. General-de-brigada aos 26 anos, Bonaparte entrara na Lombardia italiana comandando uma tropa de esfarrapados para bater espetacularmente os exércitos austríacos que então ocupavam. Dois anos depois, no Cairo ocupado, quando da fundação da Academia de Ciências do Egito, onde ele inscreveu-se como matemático, imaginou-se um califa, um representante do Profeta, ordenando que suas diretrizes fossem impressas em árabe. Fracassada a aventura pelos dissabores trazidos por Lorde Nelson, que afundou a esquadra francesa na baia de Aboukir em agosto de 1798, Napoleão, num gesto surpreendente, escapando do bloqueio inglês no Mediterrâneo, voltou à França.

Acusou o regime civil de incompetente e irresponsável. Na ausência dele, a França recuava, o Diretório se acovardara. Apoiado no exército, de quem se tornara herói, derrubou-o em 48 horas, pelo Golpe do 18 Brumário ( 9-10 de novembro de 1799). A mensagem que então enviou ao povo francês não deixou dúvidas: ele não seria "um Robespierre a cavalo", a Revolução de 1789 acabara. A era da turbulência seria sucedida pela era da ordem. Até de aparência ele mudou. O descabelado e mal vestido oficial do exército revolucionário, deu lugar ao visual sóbrio do primeiro cônsul, trajado em discreto veludo, com o cabelo curto à la romana. O corte de César. A nova constituição que ele fez aprovar - a Constituição do ano VIII - não deixava dúvidas de quem mandava na França. Para tranqüilizar os burgueses, e também para merecer-lhes o voto de confiança, fundou em janeiro de 1800 o Banco da França.

Napoleão nos Alpes
Napoleão, Primeiro-consul

Faltava-lhe porém algo ainda mais espetacular para consolidar o regime. Uma façanha que embasbacasse a todos. Os exércitos franceses que ele deixara na Itália em 1796 estavam de novo ameaçados pelos austríacos. Era preciso uma operação relâmpago para socorrê-los. Veio-lhe à memória a passagem de Aníbal pelos Alpes, ocorrida 2 mil anos antes, à época das Guerras Púnicas. O grande capitão chegara a levar até elefantes à Suíça!

Bonaparte não podia ficar-lhe atrás. Num rufar de tambores, arregimentou uma tropa, equipou-a para o frio e foi em frente. Se o cartaginês conduzira pelos picos gelados aqueles mastodontes que trouxera da África, ele carregaria à muque as peças de artilharia. improvisando até uns trenós para descê-las nos desfiladeiros. E lá se foi ele à franquear o São Bernardo, façanha que completou em maio de 1800, e que, mais tarde, Jean Baron e d'Albe Louis imortalizaram em pintura consagrada. Em junho ele esmagou os adversários em Marengo. Estonteado com o que fizera em menos de um ano, de onde saíra da areia do deserto para as neves alpinas, do generalato para ser o sucessor dos Bourbons, cismou então superar um outro gigante do passado: Carlos Magno. Em 1804 ele iria coroar-se Imperador da França. Porque não também ser o Imperador do Ocidente?

Nietzsche afirmou que, por vezes, "uma grande vitória é um grande perigo". As alturas dos Alpes, que Napoleão cruzou com sucesso faz 200 anos, levaram-no aos excessos de grandeza, e dali à perdição nas neves da Rússia. Mas seguramente foi o exemplo do grande corso que inspirou o filósofo a conceber a existência do super-homem.



 ÍNDICE DE ARTIGOS





 
 » Conheça o Terra em outros países Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2002,Terra Networks, S.A Proibida sua reprodução total ou parcial
  Anuncie  | Assine | Central de Assinante | Clube Terra | Fale com o Terra | Aviso Legal | Política de Privacidade