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El Cid e a Reconquista do Brasil

Em entrevista recente o lingüista norte-americano Steven Roger Fischer predestinou que a língua portuguesa falada no Brasil irá no próximo século parecer-se com o espanhol em virtude das relações cada vez mais estreitas entre o Brasil e seus vizinhos do Mercosul. Leia uma abordagem histórica da evolução do idioma castelhano.

"Yo deseo por mí mismo entender en todas vuestras cosas, ser para vosotros tal como un compañero, guardaros asi como el amigo guarda al amigo y el pariente al pariente." - D.Rodrigo Díaz de Vivar, El Cid campeador, 1094

El Cid conquista Valência


El Cid, cuja espada garantiu a presença do castelhano no Mediterrâneo

D.Rodrigo Díaz de Vivar, o lendário El Cid campeador, convocou os representantes da recém-conquistada Valência para uma reunião formal no Palácio dos Jardins, situado nos seus arredores da bela cidade. Os muçulmanos renderam-se uns dias antes, em 15 de junho de 1094. Don Rodrigo prometeu a todos, particularmente aos árabes, que ninguém seria escravizado e que estaria sempre à disposição como cádi, o árbitro das desavenças locais, bem longe de entregar-se "aos divertimentos , à bebida e as mulheres" como era hábito entre os chefes mouros vencidos.

E assim se deu. Cinco anos depois, em 1099, El Cid, o mais famoso herói de Castela morria lá mesmo. Sepultaram-no no assomo da glória. Mas a presença dele em Valência teve outro significado além da imagem de um governo complacente e tolerante para com os derrotados. A língua castelhana , até então interiorana, presa à aridez de Castela, chegara finalmente ao Mediterrâneo. Ali afirmaria-se para não mais sair.


El Cid na tourada (gravura de Goya)
Herdeiro longínquo do sermo vulgaris - do latim vulgar trazido séculos antes pelas legiões de Cipião Emiliano e pelos colonos romanos que as seguiram - , e filho do Romance, o castelhano travou desde então intensa luta para ser hegemônico na Península Ibérica. Contando com a ajuda das espadas Contada e Tizón de El Cid e com as luzes do rei Afonso, o Sábio, que o tornou língua oficial em 1260, o castelhano converteu-se em sinônimo de língua espanhola.

O castelhano torna-se universal


Afonso, o sábio (1221-1284), tornou o castelhano oficial
No século 16 ele, com sotaque andaluz, a língua de Castela atravessaria o Atlântico. Deste lado do Mar Oceano foi a expressão da Conquista. Fora-o, uns tempos antes, o da Reconquista, quando então, palmo a palmo, ajudou a recuperar para a Cristandade, e para os reis de Castela e Aragão, as terras ibéricas ocupadas pelos mouros desde a invasão do berbere Tarique. Quem se atreve a ler o castelhano daquela época, a começar pelo Poema de mio Cid , que Menéndez Pidal acreditou datar de 1140, só tropeça em rudezas e asperezas. O falar castelhano fazia juz ao nome, pois deriva de castelo, de vida militar, severa e viril, de ordens e contra-ordens, de marchas, de alertas, e de ombro armas. Era um idioma de guerreiros, de soldados, de conquistadores. Com ele Carlos V e Felipe II construíram um império universal. Pronunciado por um Cortez no México, ou por um Pizarro no Peru, a palavra dita em castelhano era uma sentença de morte.

No Brasil ele assentou-se em 1580, quando Portugal tornou-se herança de Felipe II. Mas foi por pouco. Somente 60 anos. Excluíram-no daqui em decorrência da revolta do Porto de 1640, momento em que os Braganças insurgiram-se com sucesso contra a Espanha. O Padre Vieira, um lusófilo ardoroso, como não podia deixar de ser, ignorou-o. A partir de então, para nós, o castelhano, fala do inimigo, só existirá na nossa borda sul de onde só penetrava em surtidas militares ou na garupa do contrabandista.

Um Tratado de Tordesilhas da língua

Nosso continente dividiu-se desde aquela época em duas zonas hostis, separadas pelo muro invisível da língua. Impérios rivais, Portugal e Espanha, desconsideravam a cultura um do outro. Vivemos assim por quatro séculos apartados por um Tratado de Tordesilhas idiomático. O crioulo não aprendia o português, e o mazombo ao revés, menos ainda o espanhol. Os estados-nacionais que emergiram com a descolonização do século 19 herdaram esse desacerto. As elites sul-americanas, hispânicas ou brasileiras, preferiam o francês do que reconhecer qualquer mérito no vizinho.

O refinamento da língua castelhana


Cervantes, a glória do idioma espanhol
Neste tempo todo, a escrita tosca e o incivil do castelhano castrense fora-se. O sol das Américas, a diversidade e a policromia aqui encontrada, juntamente com a maravilhosa prosa de Cervantes, Quevedo, Lope de la Vega, Góngora e Jovellanos, poliram as pedras do castelo. Arrancaram-no, o espanhol, da boca dos conquistadores, dos padres inquisidores, dos caudilhos e dos seus mesnadeiros, tornando-o a expressão maior dos poetas e dos letrados. Transformaram-no no estilo soberbo que nos deu Unamuno, Ortega y Gasset, Octávio Paz, Neruda, Lezama Lima, o mago Jorge Luís Borges, García Márquez, Roa Bastos, Mario Vargas Llosa, Carlos Fuentes, e tantos outros mais.

Hoje o idioma espanhol, com o visível encolhimento do francês no pós- Segunda Guerra Mundial, tornou-se o único sobrevivente universal das neolatinas. Abrangendo mais de 400 milhões de pessoas, estendendo-se por boa parte do mundo globalizado, esta entre as línguas mais faladas e entendidas que se conhece. Nove séculos passados, o Brasil, ainda que bem distante da Ibéria, é o ultimo rincão à espera da Reconquista do El Cid. Logo, não parece ser um desatino prever-se que, aos poucos, nesses séculos futuros tão aguardados, o português volte ao seio antigo, e beba, na companhia do espanhol, o mesmo leite da antiga mãe romana.



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