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O Islã e o Ocidente


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O historiador árabe Ibn Kaldun, falecido no começo do século XIV, acreditava que no mundo do deserto a que pertencia as dinastias governantes sofriam de uma inconstância cíclica, onde uma elite citadina, corrupta, afogada nos maus costumes do luxo, fatalmente dava lugar a uma outra, mais endurecida pela natureza e pelas contingências da vida nômade. De certa forma, o radicalismo fundamentalista não se opõe somente aos valores do Ocidente, mas igualmente expressa uma profunda desconformidade das massas miseráveis do Oriente Médio com os seus dirigentes e governantes.

A austeridade da mesquita


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Uma tocadora de cítara árabe

Entre-se numa mesquita, qualquer uma delas. O visitante tem seus olhos atraídos para o chão, raro para o alto. Ali, estendidos, encontram-se centenas de pequenos tapetes colocados lado a lado em linhas, contornando as colunas que dão sustentação ao edifício. A decoração é modestíssima, não há figuras humanas nem de animais. Talvez, com sorte, como na bela mesquita de Córdova na Espanha, encontre as paredes escritas com a bela e rebuscada caligrafia árabe, a língua escolhida por Alá, ou mesmo um desenho de uma planta ou de um arbusto qualquer.

No púlpito, um Imã faz os ofícios sacerdotais, e, em harmonia com a cadência das suas palavras, os fiéis presentes às preces prostram-se várias vezes no transcorrer da cerimônia. Não existem bancos, não existem camarotes para os mais ricos, pois ali, naquele solo sagrado, todos são filhos de Alá, todos são iguais frente ao Único. Talvez seja essa a democracia possível no Islã.


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A Grande Mesquita de Damasco e a de Córdoba

A democracia das tendas


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A Kaaba, a pedra negra de Meca

Ibn Kaldun, o grande historiador do medievo árabe, morto em 1406, que alguns consideram o Tucídides dos mouros, encontrou porém traços de democracia nas tribos primitivas do deserto. Para ele, era justamente a pobreza absoluta, aquela dieta de tâmaras e água barrenta, que de alguma forma impedia o surgimento da tirania. Logo, não lhe pareceu ser Alá o mentor da igualdade (Kaldun foi o último pensador árabe secular), mas a miséria dos beduínos. Forçados a terem que partilhar tudo o que tinham, o que encontravam ou pilhavam, desenvolveram a asabyia, um certo senso de coletividade fraternal que aquela maneira de ser rude e frugal os condenava. Mas há também outra razão para que eles não se submetessem facilmente a um chefe. Se por acaso um déspota, um emir ou um vizir, os quisessem sob chicote, bastava montar o dromedário, com uma bolsa de água a tiracolo, e trotar para os confins do deserto.

O rústico contra o urbano

A essa gente endurecida, esses nômades "puros" que formavam a umran badaui, a comunidade rural, Ibn Kaldun opunha os da cidade. Nelas, habitava um povo molenga, dado à luxúria, ao consumo de licores, um sedentário amante das almofadas, do tabaco e do haxixe. Formavam a umran hadari, o mundo urbano, quase sempre a beira da decadência, governado por tiranos ou rematados vadios, que mandavam nos outros por intermédio de favoritos. Acreditando em ciclos históricos, Kaldun afirmou que, volta e meia, os durões do deserto invadiam as cidades, dominadas pela licença, assumiam o comando, chicoteavam os corruptos e trancavam as mulheres nos lares. Era o sangue novo, engrossado pela necessidade, vindo dos fundões áridos, que explicava porque as culturas decadentes se revitalizavam.


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Uma porta entreaberta para a prece / Bacia da época dos Timuríadas

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