BUSCA + enter






Puritanos e Caipiras



"Esses dirigentes acidentais e inelutáveis assumem a chefia de um imenso Aparelho burocrático que é o Estado Moderno, portador e produtor orgânico de uma irracionalidade proliferante...enfrentam-se com uma sociedade que, cada vez mais, perde seu interesse pela política, isto é, por seu destino como sociedade." - C.Castoriadis - O Avanço do Insignificante, 1996

Depois de uma vida de aventuras Herman Menville resolveu aquietar-se. Casou e mudou-se para uma fazenda em Berkshires, nas proximidades de Nova Iorque. Ali perto morava um outro escritor como ele, Nathaniel Hawthorne. Por puro acaso dois dos maiores nomes das letras norte-americanas tornaram-se vizinhos. Mas não foi só a vida rural que os aproximou. Ambos publicaram, um em 1850, e outro em 1851, dois livros emblemáticos da literatura americana: “A Letra Escarlate”(The scarlet letter) e “Moby-Dick”, que podem ser lidos como um vigoroso protesto ao puritanismo do país.

No primeiro deles, Hester Prynne, uma peregrina recém-chegada às colônias, casada mas sem o marido, come o pão que o diabo amassou por engravidar e negar-se a confessar quem era o verdadeiro pai. Os aldeões indignados obrigam-na a cozer em suas roupas a infamante letra A (de adultera) e tratam-na como a um degradado.

No clássico de Menville, por sua vez, o obcecado capitão Ahab caça pelas águas do mundo, a bordo do “Pequod”, a Moby-Dick, uma imensa baleia branca com quem termina - ele e toda a tripulação - indo ao fundo enroscado nas cordas do seu próprio arpão. Entende-se o gigantesco e indestrutível cetáceo como uma metáfora da sexualidade que atrai, perigosamente, para si toda a humanidade e por mais que essa tente refrea-la, cravando-lhe ferros e ganchos, ela, avassaladora, retorna à superfície trazendo anarquia e destruição.

Foram obras proféticas. Escritas faz quase cento e cinqüenta anos continuam atualissimas no seu alerta: as confusões americanas sempre devem-se às repressões desencadeadas pelo puritanismo. Nos anos 20 foi a pregação de velhotas carolas para que proibissem as bebidas alcóolicas que fez aprovar a Lei Seca. Que, como é sabido, ajudou a prosperar o banditismo e a máfia. Agora, nos anos 90, o “inimigo”é um complexo de fatores, um arco que se estende das campanhas antitabagistas, passando pela destruição e incêndio das clinicas de aborto e chegando até às rendosas denúncias de assedio sexual, sem esquecermos da nova legião de “sobreviventes” - um polpudo filão recém-descoberto pelos analistas norte-americanos -, os que foram vítimas, ou melhor, pseudo-vitimas de abuso quando crianças.

Se a lasciva e traiçoeira Moby-Dick tinha a capacidade de submergir tornando-se invisível por largos períodos, o puritanismo também a tem. E quando toma impulso, saindo lá das profundezas mais ocultas e tenebrosas da fantasia humana, faz, como o monstro de Menville, terríveis estragos. Hoje o mais poderoso cargo do mundo - o de Presidente dos Estados Unidos - encontra-se paralisado(*). As boas cabeças do pais estão tentando romper o nó em que o presidente Bill Clinton se enrolou. Se o moralismo radical resulta do choque do imigrante calvinista com a visão de índios seminus cercados pela natureza selvagem, desregrada e libertina do Novo Mundo, os dissabores do supremo mandatário devem-se a uma fieira de amantes caipiras falastronas, deslumbradas com a notoriedade. Uma após a outra parecem saídas das páginas do “Jeca Tatu” de Lobato.

O presidente por sua vez recorda-nos a velha e sábia Mother Rigby, personagem de Hawthorne, que dizia que “até muitos finos cavalheiros tem uma abóbora na cabeça, tal como o meu espantalho”, o conhecido pumpkin on head! O vazio existencial do pós-Guerra Fria e a apatia e despolitização de fim-de-século - a Era do Insignificante em que vivemos -, torna cada escândalo desses um míssil, fazendo com que o Império Americano ameace vir a ser o primeiro em toda a História em abalar-se e implodir graças à ciumeira e à futrica feminina.

(*) Linda Tripp uma funcionária do Pentagono entregou, em janeiro de 1998, a um promotor independente uma fita com 20 horas de gravação de conversas pessoais que manteve com Monica Lewinsky, uma ex-estagiara da Casa Branca, onde ela confessa ter mantido uma relação secreta, entre 1995-6, com o Presidente Bill Clinton. Mas o pior é que o amigo, o advogado Vernon Jordan a procurou para orientá-la no sentido de negar qualquer envolvimento, fazendo com que o presidente possa ser indiciado por estímulo ao perjúrio.



 ÍNDICE DE ARTIGOS





 
 » Conheça o Terra em outros países Resolução mínima de 800x600 © Copyright 2002,Terra Networks, S.A Proibida sua reprodução total ou parcial
  Anuncie  | Assine | Central de Assinante | Clube Terra | Fale com o Terra | Aviso Legal | Política de Privacidade