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Gladiadores romanos e lutadores de celulóide

Os espetáculos de lutas de gladiadores empolgavam as platéias da Roma Antiga, devido a violência realista com que os combates eram travados. Saiba a seguir quais as motivações políticas que se escondiam por detrás daqueles divertimentos sanguinários, bem como a comparação que se faz com os filmes violentos feitos hoje por Hollywood.


Cena do filme Gladiator, de Ridley Scott

"Os espetáculos tornaram-se uma arena política porque a plebe e seu soberano encontravam-se face a face." - Paul Veyne, Le Pain e le Cirque.

A história dos espetáculos de massa patrocinados pelos romanos nos magníficos tempos da República Imperial prestou-se como exemplo vivo das possibilidades de manipulação das massas por parte das suas elites dirigentes. Tratou-se do célebre panem et circenses apregoado pelo poeta Juvenal como a melhor forma de manter o povo cordato aos olhos dos dirigentes. As terríveis cenas na arena do anfiteatro, onde gladiadores lutavam até a exaustão contra outros gladiadores ou contra feras terríveis, foram apontadas como prova da crueldade do conluio entre o patriciado e a plebe romana.

Como não se sentir horrorizado quando se lê nos registros que os criminosos comuns, alguns prisioneiros de guerra e mártires do cristianismo eram amarrados em postes à espera de serem devorados por tigres, leões e leopardos; conservados antes, nos porões do anfiteatro, em colossais vivarium e em jaulas, num jejum permanente?

Os festivais de matança


Circo Máximo de Roma, palco de corridas sangrentas
Não bastasse isso, havia as naumachiae, grandes batalhas navais onde as tripulações eram constrangidas a lutar até o fim. Inesquecível foi a patrocinada por Júlio César em 46 a.C., quando mandou adaptar o Campo de Marte, transformando-o num lago, para que o povo de Roma pudesse assistir ao entrechoque de uma pequena frota egípcia com outra fenícia. Tão grande era a aceitação das festivas matanças, que os patrocinadores privados foram gradativamente afastados e sua subvenção assumida diretamente pelo Estado. E mesmo entre seus promotores observou-se uma nítida divisão de tarefas: os ludi, inocentes jogos regulares, os espetáculos teatrais e as corridas de carro ficaram nas mãos dos magistrados comuns, mas as munera, brutais combates de gladiadores, foram tutelados pelo imperador: estatizou-se a violência. Tamanha projeção adquiriram no cenário de despolitização estratégica do povo, que Trajano chegou a organizar um, no ano de 112, com 4 mil pares de lutadores, que se estraçalharam em paria et catervatium, em duplas ou em grupos, por 117 dias seguidos.

As possíveis motivações políticas


Um pugilista romano
Parece-me, porém, que aquele ritual grotesco e desumano não se deveu apenas ao desejo demagógico dos césares em agradar ao vulgus, o populacho, que tanto naqueles tempos como nos de hoje sentem enorme atração pelo bestial.

Havia nas munera gladiatoria uma intenção pedagógica: acostumar o povo, a massa romana, à política dos césares, à política de coerção e de repressão que o Império Romano aplicava sobre os povos dominados. Tornavam a plebe cúmplice nas atrocidades cometidas pelas legiões na conquista e na preservação do império. O povo romano era, por meio dos espetáculos sangrentos, treinado para uma tarefa que obviamente não poderia ser exercida com piedade e com coração enternecido. Via-se na arena o que os centuriões praticavam lá fora.

O filme americano e a violência


Coliseu, a mais famosa arena de gladiadores

É a mesma lógica que acompanha a programação cinematográfica americana dos dias de hoje. O Código Hays de censura, que desde 1930 limitava a apresentação de sexo e violência nas telas de cinema, foi removido definitivamente em 1968, ano do auge do intervencionismo norte-americano na guerra vietnamita. De lá para cá, com as obrigações imperiais cada vez maiores, observa-se uma verdadeira orgia de brutalidade e sadismo nos filmes norte-americanos, nos quais uma simples batida policial transforma-se em ciclópicas cenas de perseguição, tiroteio, derrapadas espetaculares, explosões, vitrinas inteiras quebradas, vítimas inocentes e sangue, muito sangue, por todos os lados, demonstrando uma volúpia pelo barbarismo como jamais se havia visto antes.

Os gladiadores de celulóide


Gladiadores cibernéticos substituem os de carne e osso

Desta forma, quando o cidadão americano acompanha as reais façanhas dos seus mariners pelo mundo, ou os bombardeamentos dos seus aviões supersônicos, que lhe chegam em casa pelas imagens da televisão (a matança à cores, via satélite), ele já não se horroriza mais. A agressividade sangüinária dos seriados, das séries policiais, do infernal Rambo, dos personagens de Schwartznegger, de Bruce Lee, dos gladiadores de celulóide, já anestesiou o público norte-americano o suficiente para causar-lhe algum tipo de repulsa ou protesto.



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