Um Novo César, um Alexandre!
Anos mais tarde, num encontro privado que teve com Goethe em Weimar, confessou-lhe que lera diversas vezes Werther, livro que emocionou-o profundamente. Além disso, conheceu por inteiro os códigos de Justiniano, impressionando anos depois, ao citar as Pandectas, os juristas franceses que ele convocara para redigir o novo código burguês, o Código Napoleônico. É evidente que os feitos de César, de Alexandre e de Aníbal o influenciaram, quando não dirigiram subliminarmente a sua meteórica carreira. A conquista do Egito, a travessia dos Alpes, a consolidação de um
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Rousseau influenciou o jovem militar
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império europeu, tudo isso veio-lhe das leituras feitas nas suas horas de folga. Mas antes disso, também aventurou-se pelo universo das letras compondo aos 20 anos uma história resumida da Ilha de Córsega ou ainda, em seguida, um ensaio inacabado sobre a
A República e a Monarquia. Seguindo o exemplo de Rousseau, também preparou um texto, dedicado ao ilustre genebrino, para concorrer num concurso da Academia de Lyon sobre quais os sentimentos que deveriam ser estimulados no homem para que ele atingisse a felicidade.
Em Avignon, em 1793, numa pausa das manobras, compôs o Le Souper de Beaucaire (O Jantar de Beaucaire), que André Maurois considerou o melhor trabalho literário de Napoleão. Se a primeira edição do Le Souper ele pagou do seu próprio bolso, o governo republicano resolveu bancar a seguinte, pois o ensaio de Napoleão tornara-se um sucesso, caindo no agrado dos jacobinos. Nele, o jovem militar reclamava dos excessos de retórica que circulavam ao redor da revolução, com muito pouca ação correspondente, exigindo que se avaliassem mais os atos do que o palavreado.
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Napoleão e seus artilheiros
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Mudando a sorte
Evidentemente que, por aquelas alturas da vida, Napoleão tinha consciência da sua excepcionalidade. Quem entre os jovens oficiais da República francesa tinha o seu estofo literário, ou dominava história como ele? Em carta, manifestou ao ministro da Guerra o seu desagrado com a falta de missões. Rogava que o mandassem para um fronte de ação, para as margens do Reno, onde a todo momento a França era ameaçada pelos exércitos dos reis estrangeiros. Então sua sorte mudou. Uma delegação de comissários de guerra vinda de Paris, composta pelo deputado corso Salicetti, por Augustin, o irmão mais jovem de Robespierre, por Gasparin e Ricord, chegou ao Sul da França com a tarefa de dar combate à contra-revolução. Essa, há quase cinco meses, deitara posse do porto de Toulon (inclusive abrindo-o à esquadra inglesa), antigo arsenal e, desde o século XVI, base da frota francesa do Mediterrâneo. O controle dela era fundamental para a sobrevivência da república.
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Salicetti e Robespierre, o moço
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Carteaux, o general encarregado pelo governo revolucionário de reconquistar a cidade, mostrara-se inoperante. Lançando mão da sua autoridade de comissário de guerra, Salicetti, que já conhecia os irmãos Bonaparte de Ajácio, indicou o jovem Napoleão para ser o chefe da artilharia do exército de Cartoux. A sorte estava lançada. Bonaparte partia para a primeira das 60 batalhas que iria travar nos próximos 22 anos.
Toulon
Na baía da cidade, no alto dos mastros e dos fortes, tremulava a bandeira dos Bourbon. Nas cercanias dela, nos acampamentos republicanos, era a flâmula tricolor da revolução. A batalha de Toulon não era uma batalha qualquer. Como Valmy e Jemappes, travadas no ano anterior, em setembro de 1792, ela era parte de uma guerra ideológica generalizada: de um lado a monarquia restauradora, do outro a república revolucionária. Ali, nas praias do Mediterrâneo, o antigo e o novo regime se enfrentavam. Napoleão de imediato achou risíveis as operações de sítio imaginadas por Carteaux (anteriormente ele fora um pintor de
batalhas do rei Luís XVI). Tratou logo de dispor as baterias de canhões de modo concentrado para causar grande dano àquela verdadeira internacional de contra-revolucionários que havia desembarcado no solo pátrio (além dos realistas franceses, haviam ingleses, sardos e os espanhóis, num total de 13 mil homens). Antes de entrar em ação, contando com o apoio de Gasparin, o comissário local, Napoleão conseguiu que a Convenção removesse Carteaux do comando, substituindo-o pelo experiente general Dugommier.
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