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Freud e os anjos

"Descobri, também em meu próprio caso [o fenômeno de] me apaixonar por mamãe e ter ciúme de papai, e agora considero um acontecimento universal do início da infância." (S.Freud em carta a W.Fliess, Viena, 15 de outubro de 1897.)

A visão cristã da criança


S. Freud ( + 1939), pensador da cultura
De Cimabue e Giotto, até às "annunciazoni" pintadas por Veronese, Boticelli e Da Vinci, os anjos eram vistos primordialmente como mensageiros celestiais, encarnados em belíssimos adolescentes. Durante os três séculos, do 13 ao 16, que separam os primeiros mestres dos últimos, não houve alteração significativa na figuração deles: jovens de cabelos compridos de cor loura, avermelhada ou castanho clara, de olhos geralmente azuis e com traços andróginos, providos de asas eriçadas ou em repouso, predominavam nas telas como a representação daqueles seres seráficos que privavam com o mundo divino e o humano.

Nota-se, no entanto, um pouco depois do Renascimento, na entrada da Era Clássica, que eles, os anjos, passam a ser retratados como crianças, quase recém-nascidas. São querubins rechonchudos que substituem as antigas musas e ninfas como elemento simbólico e decorativo. Retratam-nos desprovidos de sexo porque, dentro da tradição cristã, os associam à castidade e à inocência. Cogito que tal mudança na iconografia cristã possa advir da valorização mais ampla dada à infância, como uma reação ao longo indiferentismo dos tempos góticos. Pelo menos isso é o que deduz-se dos argutos estudos sobre a família e a criança daquelas épocas feitos por Phillipe Ariès.

Puritanismo e infância

O palavrório blasfematório e obsceno tão comum, antes, entre os adultos frente a elas cedeu lugar a um crescente pudor. Tratou-se, como indicam a proliferação dos livros pedagógicos, de evitar que os petizes se contaminassem pela falta de compostura, grosseria e deseducação dos mais velhos, especialmente dos criados e estranhos. Procurou-se preservá-los, num manto protetor puritano, o maior tempo possível do pecado, da impudicícia e malícia que os cercavam. Uma aura de imaculada castidade, assexuada, ergueu-se ao redor das crianças porque se supunha, como asseguravam os teólogos e os discípulos de Rousseau, que esse - o estado de pureza - era o seu estado natural. Foi essa idealização da infância que o Dr. Sigmund Freud começou a destruir faz cem anos.

No inverno de 1896, perante o sisudo auditório da Sociedade de Psiquiatria e Neurologia de Viena, ao expor sua tese sobre a etiologia da histeria (Zur Ätiologie des Hysterie), ele levou os presentes, seus colegas, a que imaginassem uma possível árvore genealógica da neurose humana. Partíssemos donde fosse, na suposta árvore, de uma folha ressequida, de um fruto amargo, de um galho seco, ou outras representações hipotéticas da doença, chegaríamos primeiramente ao tronco situado na puberdade do homem. Mas ele não detinha-se aí. Escorregando-se mais abaixo, atingindo-se às raízes, ocultas pela terra, chegava-se à mais tenra infância.

Escavar até chegar a infância

Logo, as primícias últimas da neurose encontravam-se ocultas do próprio neurótico e encravadas na mítica idade infantil. Cabia ao analista um papel de escavador, de um pesquisador, de um arqueólogo ou de um jardineiro, encarregado de remover a terra e expor ao paciente a raiz que apresentava a lesão traumática, fonte original do seu sofrimento e agonia.

As esquisitices que infernizavam a vida adulta, vômitos, dores de cabeça, afazias e demais psicopatias, nada mais eram do que paralisantes raios e relâmpagos, em forma psicológica, que nos atormentavam como assombrações pretéritas, remotíssimas e que conduziam o analista-arqueólogo ao "indefectivelmente ao terreno da vida sexual". Essa conclusão, da importância da sexualidade infantil na vida dos adultos, inicialmente - tal como a Charcot e Breuer, seu mestre e o companheiro de pesquisa - causara-lhe repugnância, mas seu espirito científico pesou mais forte. Perante uma platéia de doutores, muda e indignada, o Dr. Freud se posicionou ao lado das babás e amas de leite que sabiam perfeitamente que as crianças, mesmo as de poucos dias, eram dotadas de zonas erógenas, não genitais, e que sentiam as mais diversificadas sensações de prazer sexual. Ruía pois, a partir dessa histórica exposição, para escândalo da comunidade científica e da moralidade cristã-vitoriana de então, a sagrada associação entre a criança e a inocência.


Freud e dois dos seus netos

O Complexo de Édipo

O pior Freud reservou para um ano depois. Submetendo-se a uma intensa auto-análise concluiu, como expressou numa carta, datada de 15 de outubro de 1897, ao Dr. Flies - a correspondência dele com esse amigo, que se estendeu de 1887 a 1904, continua sendo uma das melhores leituras para acompanhar-se a gestação da psicanálise - que o Complexo de Édipo, o amor pela mãe e o ciúme pelo pai, não se limitava apenas a ele, "mas que considera um acontecimento universal". O sucesso da peça de Sófocles, que perpassava os séculos, devia-se, deduziu ele, a "que cada pessoa da platéia foi, um dia, um Édipo em potencial na fantasia, e cada um recua horrorizado, diante da realização do sonho" encenado na sua presença.

A criança que Freud pintou nada tinha de angelical. Tratava-se de uma miúda porção de carne libidinosa, envolta em fraldas. Um serzinho amoral, lascivo, desejoso de possuir a mãe e de dar um fim ao inconveniente pai, que depois, adulto, se traumatizaria pelo resto da vida pela repressão moral desencadeada sobre ele, por ter sonhado com os crimes de incesto e parricídio. Freud, de certa forma, substituiu o pecado original de Adão, que lançava sombras sobre todos, pelo Complexo de Édipo que nos deixa na suspeita de trazer em nosso íntimo o atavismo animal, sem regras nem princípios que sejam os modelados pelo instinto e pelo prazer, herança dos nossos antepassados cavernículas. Atacava dessa forma o orgulho e o sentimento de privilégio que o homem branco euro-ocidental, culto e refinado, ostentava, mostrando-lhe "suas raízes primeiras" e "suas origens humildes" advindas do trogloditismo semi-zoológico em que os homens viveram, e que séculos de civilização não conseguiram ainda apagar.



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